A pandemia não acabou! As fake news negacionistas, infelizmente, também não

A queda no número de casos e mortes por Covid-19 no país nos dá a falsa impressão de que a pandemia acabou. Só que, infelizmente, o vírus e o negacionismo continuam sendo ameaças à nossa saúde. Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, fala sobre o assunto no A Semana em Fakes.

Os números da pandemia no mês de setembro no Brasil são, sem dúvida, mais um tapa na cara dos negacionistas que levantaram teses esdrúxulas contra a vacinação, medidas de isolamento, uso de máscaras e em defesa de remédios para malária e vermes como a “salvação”. Apenas com o avanço da vacinação que estamos começando a ter um respiro em relação aos momentos mais dramáticos de uma pandemia que se arrasta há mais de um ano e meio.

Apesar dos números promissores, se engana quem pensa (ou tentar “vender a tese”) de que a pandemia acabou. Além de, infelizmente, ainda estarmos em um patamar alto em relação a mortes diárias pela doença (não podemos ficar felizes com 500 brasileiros morrendo diariamente por uma doença) a última semana nos mostrou que os negacionistas (seja por motivos ideológicos ou pura insanidade) ainda não desistiram com teses que só fazem atrapalhar o combate ao vírus.

Depois do “apoio ao golpe” e dias de “entressafra” (com boatos do cotidiano sendo o destaque), o tema pandemia voltou a ser a principal pauta das notícias falsas nos últimos dias. E, infelizmente, se viu mais um ataque às vacinas.

Orquestradas por notícias sem confirmação (que se mostraram falsas posteriormente) e enviesadas politicamente e, ainda, decisões como a da suspensão (já revogada) da recomendação de vacinas para adolescentes, notícias falsas voltaram a suspeitar da segurança e proteção dos imunizantes no Brasil. Depois de ataques à CoronaVac, a vacina da Pfizer virou o novo alvo da desinformação.

Três notícias falsas sobre o imunizante circularam nos últimos dias. Uma pior do que a outra. A primeira que circulou apontava que a bula do imunizante da Pfizer não era recomendado para menores de 16 anos. Só havia um detalhe: a bula apresentada como “prova” era desatualizada.

Espalhar uma informação falsa como essa poderia fazer algumas pessoas passarem vergonha. Mas os negacionistas são resilientes. Tanto que, dias depois, tivemos que desmentir uma notícia falsa que citava a tal bula da Pfizer e, ainda por cima, “revelava” que adolescentes haviam morrido “de parada cardíaca” por causa da vacina contra a Covid-19. Mais uma vez, trata-se de uma informação falsa.

Já no fim da semana, uma “pérola” que mistura uma série de informações falsas sobre efeitos adversos das vacinas e promove o já refutado “tratamento precoce com vermífugo” começou a circular junto com uma recomendação de “medicações” a serem tomadas para “se salvar da vacina”. O conteúdo absurdo foi desmentido aqui.

A semana de fakes sobre a Covid-19 teve, ainda, mais informações falsas sobre ivermectina e a volta de notícias já refutadas no site como um texto absurdo sobre vacinas escrito por um “ícone do negacionismo” internacional.

Desses exemplos, podemos tirar uma lição. Assim como os números nos mostram que ainda não “vencemos a Covid-19” e precisamos seguir as recomendações de manter distanciamento social (na medida do possível), usar máscaras, manter a higiene das mãos e, principalmente, se vacinar, as redes sociais nos mostram que, apesar de (felizmente) estarmos vencendo, todos os cuidados com o negacionismo é pouco.

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos dias foram, em ordem crescente, Pressionar 1 se vacinado, Fogo de chão, Ivermectina, Palavra do senhor, Bolsonaro, Churrascaria fogo de chão, Pfizer, Lula e Vacina.

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos dias foram, em ordem crescente, sobre a notícia falsa que apontava que o cantor Thiaguinho havia iniciado um relacionamento com o jogador de vôlei Bruninho, que Fátima Bernardes havia anunciado a saída da Globo, que Zé Vaqueiro havia gritado Fora Bolsonaro em um show e sido vaiado, que a Veja havia lançado uma edição com as “riquezas de Lulinha” e que Randolfe Rodrigues teria um “marido” que pagava o seu aluguel.

No Twitter, o conteúdo com maior engajamento era o que desmentia que o The Washington Post havia dito, na capa, que Bolsonaro era o melhor presidente da história do Brasil. No Facebook  e no Instagram, o conteúdo com maior engajamento era o que falava sobre um golpe em nome da Caixa que está se espalhando por SMS.

No Telegram, o conteúdo mais lido era o que desmentia que a churrascaria Fogo de Chão fez ataques à Globo e à CNN. Por fim, e no YouTube, o conteúdo mais visto era o que desmentia que Zé Vaqueiro havia sido vaiado por gritar Fora Bolsonaro.

Edgard Matsuki é editor do site Boatos.org, site que já desmentiu mais de 6 mil notícias falsas

Uma das novidades do Boatos.org para 2021 é a seção “A Semana em Fakes”. Periodicamente, faremos análises sobre os assuntos mais recorrentes em termos de desinformação na internet. Este conteúdo ficará aberto para republicação em outros veículos de mídia. No momento, publicamos o conteúdo no Portal Metrópoles, Portal T5 e Conexão Marília (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet