Fakes após a morte de Lázaro e os ataques a defensores de direitos humanos

Neste A Semana em Fakes, Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, aponta como as notícias falsas após a morte de Lázaro Barbosa serviram de munição para correntes que são favoráveis ao discurso fácil “direitos humanos para humanos direitos”.

O caso Lázaro Bárbosa foi o tema do A Semana em Fakes da última semana e, mesmo seis dias após a sua morte, precisa ser relembrado nesta semana. É claro que o assunto perdeu volume na mídia após o desfecho da perseguição. Porém, há uma nuance nas notícias falsas que circularam após o dia 28 de junho de 2021 que ainda merece ser destacada.

Para reforçar a falsa ideia de que defensores de direitos humanos “só servem para defender bandidos” (o que é utilizado, inclusive, falsamente como retórica política), pessoas que partem da premissa “direitos humanos para humanos direitos” começaram a espalhar informações falsas sobre supostas manifestações de defesa a Lázaro Barbosa.

O Boatos.org, nos últimos dias, desmentiu quatro informações falsas sobre o assunto (todas circularam, principalmente, em redes bolsonaristas e junto a outras que não puderam ser desmentidas). Horas após a morte, uma série de imagens de supostas declarações de políticos sobre a morte de Lázaro viralizaram.

Uma delas apontava que Guilherme Boulos havia dito que a morte de Lázaro denotava “racismo estrutural”. Outra era atribuída a Marcelo Freixo. De acordo com o texto, ele teria dito que colocaria “advogados” para defender Lázaro e condenar perseguição policial. Havia “no combo” um declaração atribuída a Maria do Rosário (que não chegou a ser desmentida no Boatos.org, mas também era falsa).

Em todos os casos, havia algo em comum: além de as declarações serem falsas (independentemente de juízo de valor sobre elas), todas tentaram ligar os políticos citados a um assassino que, de acordo com as investigações da polícia, agia com requintes de crueldade. Ou seja: tentava falsamente ligar as ações de Lázaro Barbosa (crimes cruéis) aos citados.

Mas a coisa não parou por aí. Fátima Bernardes também foi vítima de uma fake news do naipe. Uma montagem apontava que ela estaria questionando a ação policial. E, por fim, alguma boa alma resolveu soltar uma metralhadora giratória e criar mentiras sobre “supostas ações” de membros do judiciário, da CPI da Pandemia e políticos (inclusive os citados nas mensagens anteriores).

O caso Lázaro Barbosa (possivelmente pela atenção que ele monopolizou, inclusive, por causa da espetacularização da mídia) é, provavelmente, o mais exemplar, mas não é o primeiro que tenta ligar a esquerda e defensores de direitos humanos a bandidos responsáveis por crimes bárbaros.

Por isso, mais importante do que saber que Freixo, Boulos, Fátima e outros não deram declarações defendendo Lázaro é saber que defender direitos humanos não é “defender bandido”. Mais do que isso, que é preciso ignorar quem tentar lucrar com a desvalorização de quem apenas defende direitos inerentes a todas as pessoas (inclusive, você e eu).

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem decrescente, Vacina vencida, Vacinas vencidas, *, vacina vencida, Mercado livre, Tribunal constitucional militar, Astrazeneca vencida, Vacina astrazeneca vencida e México fez.

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem decrescente, sobre um alerta falso de que as temperaturas chegariam a -19ºC no Brasil, sobre uma promoção falsa de “arraiá” de prêmios do Mercado Livre, a uma frase falsamente atribuída a ex-presidente Dilma sobre a segunda dose da vacina, sobre um alerta falso do maior frio dos últimos 50 anos no Brasil e sobre uma denúncia de que o Magazine Luiza queria que a bandeira do Brasil virasse vermelha.

No Twitter e no Instagram,, o conteúdo com o maior engajamento era o que desmentia que Dilma teria dado uma declaração sobre a segunda dose da vacina. No Facebook, a matéria mais compartilhada era a que apontava que seria preciso reiniciar o telefone após o recebimento de uma mensagem falando que o número não estava mais registrado no WhatsApp.

No Telegram, o conteúdo mais visto foi o A Semana em Fakes da semana passada (sobre boatos do caso Lázaro) Por fim, vídeo mais visto no YouTube foi o que desmentia a previsão de frio de -19 ºC no Brasil.

Edgard Matsuki é editor do site Boatos.org, site que já desmentiu mais de 6 mil notícias falsas

Uma das novidades do Boatos.org para 2021 é a seção “A Semana em Fakes”. Periodicamente, faremos análises sobre os assuntos mais recorrentes em termos de desinformação na internet. Este conteúdo ficará aberto para republicação em outros veículos de mídia. No momento, publicamos o conteúdo no Portal Metrópoles, Portal T5 e Conexão Marília (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet