Fake news sobre “urnas” e “títulos cancelados” mostram como “boatos anexos” reforçam narrativas falsas de maior magnitude

Nesta semana, duas histórias falsas e toscas ajudaram a exemplificar como, mais do que desinformar, algumas fake news servem apenas para manter um assunto aquecido. Este é o tema do A Semana em Fakes, com Edgard Matsuki, editor do Boatos.org. 

O ritmo da desinformação, que parecia ter sido abrandado após a queda de mortes por Covid-19 no país, voltou a se intensificar nos últimos dias. Algumas dessas notícias falsas que circularam servem, inclusive, como exemplo para algo que queríamos falar já há algum tempo: a diferença entre fake news e narrativas falsas (que, pelo menos por enquanto, não ganhou nenhum termo em inglês para “chamar de seu”).

Temos dois episódios que podem mostrar como ocorre este processo. O primeiro deles diz respeito à batida narrativa defendida por algumas pessoas de que as urnas eletrônicas são fraudadas. Não é novidade para ninguém que esta é mais do que batida e já foi desmentida. Aqui cabe um parêntese importantíssimo.

Mesmo as pessoas que acusam veementemente as urnas eletrônicas de serem fraudadas não apresentam nenhuma prova de que isso de fato ocorre ou ocorreu em algum eleição. Ao contrário, a Justiça Eleitoral já apresentou algumas vezes provas de que não há fraudes nas urnas e, inclusive, as submete a testes de segurança periodicamente. Sendo assim, é ponto pacífico de que não há provas de que as urnas eletrônicas são fraudadas.

Uma vez que esta é uma narrativa falsa e não se sustenta, quem defende (seja lá por quais interesses) que as urnas eletrônicas não são seguras precisam de “provas” (mesmo que falsas) sobre isso. E é aí que entram as histórias, ou melhor, as fake news.

Nesta semana, um suposto vídeo de um advogado do PT falando sobre urnas eletrônicas e pesquisas eleitorais (tese falsa que tratamos aqui) viralizou na Internet. O vídeo que foi utilizado como “prova da roubalheira” nada mais é do que uma peça criada inicialmente com objetivos humorísticos (talvez não tenha alcançado o objetivo). Ela foi desmentida pelo Boatos.org e por outros sites.

A história do advogado do PT é frágil e facilmente refutável, porém cumpriu o objetivo: manter “acesa” a tese de que as urnas e as pesquisas eleitorais estariam sob suspeição. Ou seja: o boato nada mais é do que um complemento (ou alimento) para uma tese maior.

Outro caso da semana também é exemplar. Desde quando o TSE passou a incentivar a participação de jovens nas eleições (campanha que sempre realiza), começou a circular uma tese de que o tribunal estaria, além de incentivando a participação de um grupo etário no qual Bolsonaro teria menos prestígio, vetando a participação de idosos nas eleições (grupo em que o presidente teria, em teoria, mais votos).

A tese passou a ser reforçada com uma denúncia, desmentida há algumas semanas, de que o TSE estaria “cancelando sem motivo” o título de eleitor de pessoas com mais de 70 anos. Como a “tese inicial foi desmentida”, histórias “anexas” (de reforço) começaram a surgir. Uma delas apontava que uma idosa em SC teve o título cancelado “sem motivo”. Mais uma vez, a história não procedia. Foi desmentida, mas cumpriu o objetivo: reforçar uma tese maior.

Essa estrutura de desinformação já foi muito utilizada no pleito de 2018 (como, por exemplo, com fake news ligadas a pautas de costumes) e durante a pandemia (com diversas histórias reforçando teses de que medicamentos sem eficácia comprovada curavam a Covid-19 ou que as vacinas apresentavam um risco maior do que o coronavírus).

Obviamente, a estratégia já está e será utilizada nas eleições deste ano. Da nossa parte, caberá desmentir a “histórias anexas” e reforçar o alerta para teses falsas. Do lado de vocês, leitores, cabe analisar para além de um post em si. Se perguntar que tipo de tese é reforçada com histórias que circulam por aí e se elas são reais é um primeiro caminho que nos ajuda a saber se algo é real ou falso.

Trends da semana

Palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos dias

  1. Ankole (Confira detalhes aqui)
  2. Título de eleitor (Confira detalhes aqui)
  3. Avacalho Ellhys (Confira detalhes aqui)
  4. Bolsonaro (Confira detalhes aqui)
  5. Lula (Confira detalhes aqui)
  6. Flores hospital do cancer (Confira detalhes aqui)
  7. Advogado do PT (Confira detalhes aqui)
  8. 57 anos (Confira detalhes aqui)
  9. Título cancelado (Confira detalhes aqui)
  10. Doces envenenados (Confira detalhes aqui)

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos dias

  1. História falsa que aponta que o “mendigo” Givaldo Alves morreu em acidente de carro (Confira detalhes aqui)
  2. Fake news que aponta que advogado do PT orientou sobre fraude em urnas e pesquisas eleitorais (Confira detalhes aqui)
  3. Fake news que aponta que bruxas de uma seita estão distribuindo doces envenenados para crianças (Confira detalhes aqui)
  4. Dica falsa que aponta que digitar Ankole no Google faz com que fotos suas apareçam (Confira detalhes aqui)
  5. Fake news que aponta que Gleisi Hoffmann prestou solidariedade para balseiros após Bolsonaro inaugurar ponte no Acre (Confira detalhes aqui)

Destaques nas redes sociais

Desde o início de 2021, o Boatos.org promove a seção “A Semana em Fakes”, com análises sobre assuntos relacionados a fake news. O conteúdo é aberto para republicação em veículos de mídia. No momento, publicamos o conteúdo no Jorn., Portal MetrópolesPortal T5, Conexão Marília, O Anhanguera e RP10 (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet