Antivacinas e bolsonaristas inundam redes sociais com denúncias falsas de vacinação encenada

No “A Semana em Fakes”, Boatos.org analisa enxurrada de falsas denúncias de encenações de aplicações da vacina contra Covid-19 por parte de grupos antivacinas e, no Brasil, simpatizantes de Bolsonaro.

O início da vacinação em outros países e a iminência do início da campanha no Brasil fez com que o tema “vacinas” dominasse a pauta das fake news nos primeiros dias de 2021. Dentre o dia 1º de janeiro até a publicação deste texto, 13 notícias falsas relacionadas a vacinas foram checadas e desmentidas pelo Boatos.org. Dentro dessa categoria, um tipo de conteúdo chamou atenção: a falsa denúncia de vacinação encenada.

Confira também: cuidado com vídeos alarmistas sobre “fraude nas vacinas”:

Com o objetivo de reforçar a falsa tese de que “as vacinas fazem mal e servem para matar” (por isso que, de acordo com a teoria, “os poderosos” não a tomariam), grupos antivacinas (que, no Brasil, encontraram esteio em grupos de simpatizantes a Bolsonaro) estão se aproveitando de fotos e vídeos para levantar suspeitas de que figuras públicas estão fingindo tomar a vacina contra a Covid-19.

Esse tipo de fake segue sempre o mesmo roteiro: um vídeo ou uma foto é apresentada como a “prova” de que uma aplicação de vacina foi encenada e, na mensagem, há diversas críticas e acusações sem provas contra as vacinas.

Esse não é um tipo de boato “novo”, mas se intensificou nos últimos dias. Até dezembro de 2020, apenas dois conteúdos falsos desse tipo haviam sido checados no Boatos.org. Um deles acusava a “primeira-ministra da Austrália” (país que tem um primeiro-ministro homem) de simular a vacinação contra a Covid-19. Outro usava uma foto posada de uma voluntária da vacina Coronavac (em que realmente ela não “tomava” a vacina) para levantar a falsa hipótese de que ela não teria sido imunizada.

No final de dezembro de 2020, tivemos duas ocorrências (além de registrar o recrudescimento no compartilhamento do vídeo falso creditado à primeira-ministra da Austrália). No dia 20/12, um vídeo que apontava que as vacinas estavam sendo forjadas com “agulhas retráteis” (informação obviamente falsa) no Reino Unido se espalhou na internet.

No dia 22/12, checamos uma mensagem que apontava que o prefeito de Londres (que ainda não se imunizou contra a Covid-19) teria fingido tomar a vacina (na realidade, a vacina era contra gripe e a simulação ocorreu porque ele já havia sido imunizado).

Em 2021, a tese “da seringa fake” se intensificou. No dia 02/01, uma foto de um militar israelense simulando tomar a vacina se espalhou junto com a denúncia de que tudo é um teatro. Só havia um detalhe: o próprio homem já havia se vacinado (e publicado o vídeo real) minutos antes. O “fingimento” teve um motivo: na hora da aplicação da vacina real, ele havia se esquecido de falar o nome do hospital responsável pela vacinação. Dias depois, o mesmo vídeo circulou com o crédito errado: o israelense, na fake news, virou “presidente de um país do Leste Europeu”.

No dia 03/01, o boato “aterrissou” nos Estados Unidos. Desta vez, a denúncia de vacinação falsa era contra a vice-presidente eleita Kamala Harris. Mais uma vez, trata-se apenas de um mecanismo de segurança na vacina.

No mesmo dia, uma denúncia vinda da Argentina (e devidamente compartilhada no Brasil) aponta ironicamente que um homem havia se vacinado “duas vezes” na Argentina. Mais uma vez, um erro: em um lado ocorreu a vacinação “de verdade”. Do outro, ele posou para fotos porque a sala estava lotada de pessoas.

No dia 08/01, o fake chegou à ex-presidente (e atual vice) Cristina Kirchner. Uma foto antiga (de 2013) a acusava de não respeitar medidas de segurança contra Covid-19 (como o uso de máscaras) e de simular a vacinação. Mais uma vez, era falsa a acusação.

No dia 10/01, tivemos a “cereja do bolo”: um vídeo chamado “vacuna show” compilou diversos dos boatos já desmentidos e se somou a outras teorias da conspiração sobre vacina. Mais uma vez, tratava-se de um monte de falácias.

Em todos os dez exemplos apresentados, a informação ganhou força em grupos bolsonaristas nas redes sociais brasileiras e serviu como reforço do posicionamento cético do presidente (que não se repete, por exemplo, com drogas sem comprovação científica de cura da Covid-19 e que estão sendo receitadas off-label) em relação às vacinas.

Em alguns dias, a vacina contra a Covid-19 começa a ser aplicada no Brasil. É possível que qualquer imagem que dê brecha a interpretações seja utilizada como “prova de que tudo é teatro”. Como sempre é bom estar vacinado (inclusive contra a desinformação), deixamos um alerta: se você vir qualquer tipo de denúncia de “vacinação forjada no Brasil”, verifique antes de compartilhar.

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem decrescente, Argentina, Argentina está fazendo isso (referente a essa fake news), vacina, missa da maconha, ivermectina, coronavac, Domínio Público (referente a essa fake news), Doria, Lula e sexo após vacina (referente a essa fake news).

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem decrescente, da história que apontava que Neymar havia sido flagrado com outro homem no réveillon, da que João Doria havia fechado o Ceasa, da que um soro foi confirmado como a cura da Covid-19, a denúncia falsa sobre o vídeo Argentina está fazendo isso e a falsa denúncia de que policiais haviam invadido o Congresso.

No Twitter, o desmentido com maior engajamento na semana foi a que desmentia a notícia falsa que a Coronavac havia sido descartada na China. No Facebook, o texto que desmentia a informação de que a ivermectina imunizava mais do que a vacina foi o mais compartilhado da semana. No Instagram, o conteúdo mais curtido foi o desmentido de um vídeo que apontava que “não deveríamos ter esperança nas vacinas”.

No YouTube, o conteúdo mais visto da semana foi o que desmentia que o homem que interpretou Jesus no carnaval de 2019 havia morrido. Já no TikTok (novo canal do Boatos.org), o conteúdo mais visto da semana foi o vídeo que falava sobre a desativação do site Domínio Público. Por fim, o conteúdo mais visto da semana foi também foi da vacina da Coronavac descartada na China.

Edgard Matsuki é editor do site Boatos.org, site que já desmentiu quase 6 mil notícias falsas

Uma das novidades do Boatos.org para 2021 é a seção “A Semana em Fakes”. Periodicamente, faremos análises sobre os assuntos mais recorrentes em termos de desinformação na internet. Este conteúdo ficará aberto para republicação em outros veículos de mídia (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet