“Milagres do tratamento precoce” em cidades brasileiras reforçam teses falsas sobre remédios sem eficácia contra a Covid-19

Neste A Semana em Fakes, Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, fala sobre como dados falsos relacionados ao chamado “tratamento precoce” reforçam a tese de falsa de que remédios como a hidroxicloroquina e a ivermectina são a cura contra a Covid-19.

De acordo com o dicionário Michaelis, milagre é um “fato ou acontecimento fora do comum, inexplicável pelas leis da natureza”. E são justamente relatos não explicados pela ciência (e que vão contra orientações sobre a Covid-19) que tentam “salvar” a tese (falsa e já destruída por estudos) de que remédios como a hidroxicloroquina e a ivermectina são a solução contra o coronavírus.

Nos últimos tempos, falsos relatos de “cidades que venceram a Covid-19 com o tratamento precoce” viralizaram (com a ajuda de negacionistas e robôs) na internet e estão sendo utilizados como argumento para quem defende os tais medicamentos que compõe o “kit covid”.

Os exemplos vão de Norte a Sul do país. É uma pena que todos se utilizam de dados errados para “vender” a eficácia do tratamento precoce. Do Amazonas, vem a falsa notícia de que o tratamento precoce diminuiu as mortes em 80% no estado. O “relato” não leva em conta que, no colapso de janeiro no estado, hidroxicloroquina e ivermectina já eram distribuídos no estado e que, depois do pico, houve um rigoroso lockdown.

Do Nordeste, veio o relato de que o pequeno município de Maxaranguape (RN) havia “vencido a Covid-19” com o tratamento precoce e tinha zero mortes. Além de relatórios apontarem que houve, sim, óbitos na cidade, o próprio prefeito relatou que promoveu medidas de restrição e barreiras sanitárias.

Na região Sudeste, duas mensagens chamaram atenção. Uma delas era que apontava que a cidade de São Lourenço (MG) havia zerado as mortes dos últimos 30 dias com o tal “tratamento precoce”. De novo, a informação sobre óbitos estava errada e poderia ser desmentida com uma rápida busca no sistema SUS Analítico.

A outra aponta para uma “estudo” que apontaria 99% de eficácia no tratamento precoce em Sorocaba (SP). A repercussão foi tão ruim (com metodologia que não poderia o classificar como estudo científico) que a própria prefeitura da cidade passou a chamar o estudo de “levantamento” e, posteriormente, a justiça proibiu promoção por parte do poder público dos remédios sem eficácia.

No Sul, também há relatos dos tais milagres. Um deles, que apontava que Rancho Queimado (SC) tinha “zero mortes” também foi desmentido por dados de casos e mortes por Covid-19. O outro, que apontava que Chapecó zerou internações em UTIs por conta de tratamento precoce também seria derrubado com uma rápida checagem na ocupação de leitos de UTI na cidade na época da divulgação (elas estavam lotadas).

Além dos relatos “individuais” das cidades, houve quem tivesse “sem paciência” e passasse a espalhar que o “milagre” havia sido operado em dúzias de cidades brasileiras. Primeiro, um texto falando de 15 cidades salvas pelo tratamento precoce começou a se espalhar. O número aumentou para 30, 47 e 52 cidades (sendo que a lista da última versão tinha “apenas 50 cidades”).

Assim como nos casos individuais, as listas eram um festival de distorção de números sobre a Covid-19. Enquanto os textos falavam sobre zero mortes e UTIs vazias, a dura realidade apontava para óbitos por Covid-19 (em algumas das cidades, muitos óbitos) e hospitais colapsados.

Por isso, é preciso estar atento (e forte) para quando você receber ou ler aquele relato de “milagre” por causa do tratamento precoce contra a Covid-19. É bem provável que não passe de uma lorota que serve para fortalecer uma lorota maior ainda. Até porque, em tempos de pandemia, até o “milagre” precisa do auxílio de ações humanas e da ciência para acontecer.

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem decrescente, Amazon, Ivermectina, Coronavac, Adidas, Chapecó, Toyota, vacina, Datena, Doria e Magazine Luiza.

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem decrescente, sobre o golpe no WhatsApp que falava do aniversário de 60 anos do Magazine Luiza, sobre um vídeo de médico negacionista dos EUA sobre vacinas, sobre um golpe que falava em “aniversário da Toyota”, sobre uma falsa edição de um santinho do Dr. Jairinho e sobre um suposto plano de Doria para derrubar Bolsonaro com a vacina.

No Twitter, a matéria com maior engajamento foi a que falava que o Equador havia achado a cura da Covid-19. No Facebook, o texto mais compartilhado é o que alertava para um golpe que usava a prova de vida do INSS como “desculpa”. No Instagram, o conteúdo de maior engajamento era o que desmentia que militares das Forças Armadas queriam fazer uma “intervenção militar de esquerda” para derrubar Bolsonaro. A matéria foi a mais vista no Telegram foi a que desmentia a fala do médico negacionista sobre a Covid-19. No YouTube, o conteúdo mais visto da semana foi o que desmentia o vídeo atribuído aos filhos dos três tenores.

Edgard Matsuki é editor do site Boatos.org, site que já desmentiu mais de 6 mil notícias falsas

Uma das novidades do Boatos.org para 2021 é a seção “A Semana em Fakes”. Periodicamente, faremos análises sobre os assuntos mais recorrentes em termos de desinformação na internet. Este conteúdo ficará aberto para republicação em outros veículos de mídia. No momento, publicamos o conteúdo no Portal Metrópoles e Portal T5 (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet