Não, caminhoneiros não vão “parar o Brasil” pedindo intervenção militar

Não é de hoje que ameaças de paralisação geral de caminhoneiros são utilizadas em notícias falsas que envolvem pautas antidemocráticas e inconstitucionais. Só esquecem de um detalhe: caminhoneiro não é massa de manobra para projetos políticos. Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, fala sobre o assunto no A Semana em Fakes.

Desde 2018, quando caminhoneiros fizeram uma greve nacional de dez dias que gerou desabastecimento em diversas regiões do Brasil, ameaças de “greves por motivos políticos” circulam em mensagens falsas na internet. Nos últimos dias, tivemos três exemplos disso.

Na semana passada, quando o voto impresso ainda era a principal pauta das fake news na internet, uma mensagem apontava que “caminhoneiros iriam parar o Brasil” e só voltariam a trabalhar quando o voto impresso fosse aprovado e ministros do STF fossem depostos. O boato teve uma versão nova nesta semana. A “fake 2.0” desta história apontava que o “prazo era de 72 horas”.

Como foi possível de se ver, o voto impresso foi rejeitado na Câmara dos Deputados, o STF continua firme e forte e nenhum caminhoneiro parou o Brasil. O que também não pararam foram fake news envolvendo a classe. Desta vez, com uma “pauta nova”.

Neste sábado, um texto extremamente ufanista falava da grande “organização de 7 de setembro” que resultaria em uma “intervenção militar constitucional” (o que por si só já é uma nomenclatura falsa), fim do Congresso, STF e plenos poderes para Bolsonaro (ou seja, a volta de uma ditadura). O trunfo? Uma greve de caminhoneiros.

Não precisa ser vidente para saber que essa história de intervenção com a ajuda de caminhoneiros não passa de uma cascata com o intuito de incitar caminhoneiros mais radicais (e mais inocentes) e fazer barulho na internet. Barulho até faz, mas os caminhoneiros brasileiros não são trouxas a ponto de cair em uma “mobilização” dessas.

A greve de 2018 se deu em uma situação especial. O alto preço dos combustíveis, o baixo preço dos fretes e a falta de voz que a classe tinha para negociar gerava uma insatisfação que eclodiu em uma paralisação organizada por entidades de classe. Apesar de fake news da época (diga-se de passagem, algumas “patrocinadas” por grupos de direita e de esquerda) colocarem pautas políticas no movimento, o fato é que a redução do preço do diesel, isenção de taxas e preço mínimo para fretes acabou com a greve. Nenhuma pauta política foi atendida.

É possível que haja uma greve dos caminhoneiros por pautas de classe? Sim, mais ela é menos provável do que em 2018. A situação de hoje é diferente em um ponto importante: há um diálogo entre líderes de movimentos de caminhoneiros e o governo federal e uma tentativa constante por parte do executivo para que não haja paralisações.

As chances de que haja uma greve por “pautas políticas” caem para perto de zero. Há três motivos para isso. 1) A classe é heterogênea e nem todos (na verdade, quase ninguém) defendem pautas como intervenção militar. Com isso, não haveria adesão suficiente para “parar o Brasil”. 2) Pautas como essa não têm adesão de líderes de caminhoneiros. Tanto que essas ameaças circulam mais entre grupos bolsonaristas do que em grupos de caminhoneiros. 3) Uma greve com pedidos como esses não teria efeito algum. Na realidade, pioraria a situação do governo Bolsonaro. Os pedidos não seriam atendidos e o governo teria mais uma crise econômica e política para contornar.

Ou seja: se você vir mensagens falando que caminhoneiros vão parar o Brasil por “voto impresso”, fim do STF ou intervenção militar, não acredite. Caminhoneiro quer frete bem pago, combustível barato e condições de trabalho. Se tem uma coisa que eles não querem é ser massa de manobra para grupos políticos.

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem crescente, Unimed, Barroso, Grupo Unimed alerta, Unimed alerta, Variante delta, Americanas, Bom cia com Bolsonaro, Tribunal constitucional militar e voto impresso

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem crescente, sobre um alerta de que o telefone 912250041117 serviria para hackear celulares, que os caminhoneiros vão fazer uma greve pelo voto impresso, que a Americanas iria dar um iPhone em um site no WhatsApp, sobre um alerta sobre a variante delta da Covid-19 por parte da Unimed e sobre a empresa Probank ser de José Dirceu.

No Twitter, No Facebook, No Instagram,o desmentido de que a Probank, empresa que mexe com urnas eletrônicas, é de José Dirceu foi o com mais engajamento na semana. No Telegram, a matéria mais vista foi o último A Semana em Fakes (sobre o voto impresso). Por fim, o vídeo mais visto no YouTube na semana falava sobre o telefone que aplica golpes com “pesquisa da vacina”.

Edgard Matsuki é editor do site Boatos.org, site que já desmentiu mais de 6 mil notícias falsas

Uma das novidades do Boatos.org para 2021 é a seção “A Semana em Fakes”. Periodicamente, faremos análises sobre os assuntos mais recorrentes em termos de desinformação na internet. Este conteúdo ficará aberto para republicação em outros veículos de mídia. No momento, publicamos o conteúdo no Portal Metrópoles, Portal T5 e Conexão Marília (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet