O melhor de 2018 no Boatos.org, por Edgard Matsuki

Como é tradição, Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, escolhe os cinco desmentidos de boatos (ou fake news, se preferir) mais marcantes em 2018.

Parece que mais um ano que “parecia que não acabaria” está chegando ao fim. Em meio a tantos “eventos”, esperados ou não, o que não faltou na internet foi informação falsa para confundir a cabeça dos brasileiros. Como editor do Boatos.org, posso afirmar que não foi um ano fácil.

Em 2018, tive o prazer (e o trabalho) de escrever, mais ou menos, 630 textos. A grande maioria deles era desmentidos de boatos (ou fake news, se preferir chamar assim). Por isso, escolher apenas cinco artigos como os “top” do ano é uma tarefa que, inevitavelmente, resultará em injustiças.

Como critérios, eu utilizei a importância do nosso desmentido, o tamanho do impacto do boato, a peculiaridade da história e o “evento no qual ele estava envolvido”. Como desempate, tiramos da lista os textos que estão entre os cinco mais lidos do ano (que você poderá conferir logo logo). Sem mais delongas, vamos ao nosso top 5 de 2018.

Veja também: Equipe do Boatos.org escolhe os boatos que mais marcaram o ano (com vídeo):

5) A presidente da Croácia vendeu o avião oficial

Entre uma greve de caminhoneiros e uma eleição presidencial, o Brasil teve “momentos de alívio” ao “respirar” a Copa do Mundo da Rússia. Seria injusto com “a coisa mais legal de 2018” (desculpem, mas Copa é muito mais legal do que eleições), não ter um texto sobre o assunto.

No Mundial, a grande sensação (principalmente após o Brasil perder para a Bélgica) foi a seleção da Croácia. Vice-campeã mundial, a equipe teve, fora de campo, um destaque: a presidente do país Kolinda Grabar-Kitarovic. Nas transmissões da TV, ela teve presença garantida. Nas fake news, também.

Durante a Copa, fotos de uma mulher de biquíni que seria a presidente do país voltaram a pipocar na web. Na realidade, a pessoa da foto era uma modelo e o boato era antigo. Não bastasse isso, ao final do Mundial, criaram uma lista de “atos de austeridade” de Kolinda (o pessoal já estava de olho nas eleições) que incluía venda de avião presidencial e redução de salários. Checamos e desmentimos aqui.

4) A campeã de física é do Brasil e aplicada

Lá pelo meio do ano, uma fake news conseguiu juntar quase todos os itens “de sucesso” para um boato. A história dava conta de que uma estudante brasileira havia conseguido ser campeã de física no exterior.

Não sabemos quem criou a história (sabemos apenas que “nasceu no exterior” e foi traduzida para cá). Porém, na versão “tupiniquim” é que se pode ver o “profissionalismo” de quem criou.

Para começar, o boato se aproveitou da Copa do Mundo e do sentimento de competição do brasileiro (que queria o hexa) para viralizar. Ao mesmo ponto, a mensagem se aproveitou dos “haters” da Copa que logo saíram compartilhando o feito com orgulho. Mas não para por aí.

Para se espalhar, a história foi publicada com dezenas de versões diferentes em uma ação coordenada. Um sujeito criou “páginas locais” de diversas cidades do Brasil no Facebook. Em cada uma delas, era dito que a garota era da cidade em questão. O resultado foi muito compartilhamento no Facebook e prints da mensagem no WhatsApp.

Só faltava a cereja do bolo. E ela atendeu pelo nome de Mia Khalifa. Independentemente da cidade da estudante, do país da competição e do “feito conquistado” (tivemos, no mínimo, três versões desmentidas: aqui, aqui e aqui), a foto era sempre da ex-atriz de filmes adultos. Sim, amigos. As pessoas estavam compartilhando uma foto de um filme pornô como se fosse de uma “estudante exemplar”.

3) A mulher da facada em Bolsonaro

É fato que sempre tive uma “queda” para desmentir boatos de falsas imputações de crimes (que, para mim, junto com as curas milagrosas de doenças, são os mais graves). Por isso, uma história que envolveu o atentado contra Bolsonaro me deixou muito incomodado.

Um dia após a facada, começou a circular na internet uma tese estapafúrdia que uma mulher havia passado a faca para Adélio Bispo de Oliveira acertar o então candidato à Presidência da República. Não conseguimos desmentir a história (apesar de ter certeza de que não procedia, carecia de “provas que era fake”). Porém, a situação começou a se agravar.

Não demorou muito para três mulheres serem identificadas como “a mulher da faca”. Buscamos por informações de todas (inclusive entrando em contato) e descobrimos que não procedia. Em uma madrugada (mais ou menos até às 2h50 da manhã), fiquei escrevendo os artigos sobre Maria Tarabal, Aryane Campos e Lívia Terra. No dia seguintes, as matérias foram ao ar e senti a sensação de dever cumprido.

2) Ursal, a grande ameaça do comunismo

As eleições foram tão marcantes em relação a fake news que precisaria ter mais de um item na lista. Dentre histórias sobre urnas fraudadas (que sumiram logo após o pleito), kit gay e outras, um nome (ou sigla, se preferir) se destacou: Ursal.

O grande divulgador do termo e de toda a teoria que há uma “união de repúblicas socialistas” para “disseminar o mal na América Latina” foi a grande revelação das eleições, o candidato Cabo Daciolo. Um dia após Daciolo (que também falou muitas verdades durante a campanha eleitoral) ter perguntado a Ciro Gomes “você sabe o que é Ursal”, “dossiê Ursal” ganhou repercussão.

Todo o dossiê (uma grande página em HTML que poderia ser classifica como um “mini-livro”) chamou atenção na internet. Ler o conteúdo deu trabalho, desmentir cada detalhe deu mais trabalho ainda. Por isso e pelo fato do nome Ursal ter ficado marcado em outras fake news (inclusive sobre urnas), o desmentido levou a medalha de prata.

1) Marielle e Marcinho VP

Dentre os tantos textos que eu escrevi em 2018, o que mais me marcou foi o que falava que a Marielle Franco tinha envolvimento com o traficante Marcinho VP. A mensagem (que acusava a vereadora morta no Rio em março deste ano de envolvimento com o tráfico) circulou assim que ela foi assassinada.

Quando eu me deparei com o texto, achei, de fato, uma crueldade alguém tentar difamar uma pessoa que havia acabado de ser brutalmente assassinada. Mais do que isso, naquele momento, qualquer tipo de desinformação poderia fazer a opinião pública ter uma visão distorcida do caso.

Era uma madrugada e comecei a analisar o texto. Procurei, procurei, procurei e conseguir indícios temporais que Marielle não poderia ter se envolvido com os traficantes citados (Sim, existem dois Marcinhos VP). Para tirar todas as dúvidas, entrei em contato com um conhecido que tinha contato com ela no Rio e, em off, ele me garantiu que era fake.

Demos a história, tivemos o maior pico de tráfego da história do site, 6100 acessos simultâneos e pautamos boa parte da mídia. Muitos outros boatos sobre o “passado de Marielle” (inclusive com fotos que seriam dela) ainda apareceriam, mas sabíamos que ali tínhamos feito a nossa parte. Pela representatividade do desmentido, é o nosso número um de 2018.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet

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