Enfermeira que gravou áudio de Bolsonaro no hospital foi demitida #boato

Boato – Conceição, a enfermeira que gravou o áudio do candidato Jair Bolsonaro no hospital Albert Einstein, foi demitida e vai continuar no Brasil. Foto mostra ela com celular que fez a gravação.

A situação em relação às notícias falsas nestas eleições está tão frenética que, em alguns casos, estão surgindo casos de fake news que têm como base uma outra fake news (quase uma suíte). Não entendeu? A gente pode explicar com dois exemplos.

Quando Bolsonaro foi atacado em Juiz de Fora, começou a surgir na internet a tese de que uma mulher teria passado a faca para Adélio Bispo cometer o crime (uma fake news). Com base nisso, surgiram notícias já falando quem seriam essas mulheres (temos três exemplos de acusações aqui, aqui e aqui).

O mesmo “fenômeno” está acontecendo agora. Quando Bolsonaro foi atacado, surgiu a tese de que o atentado havia sido forjado. A informação foi reforçada pela notícia falsa do áudio do candidato do PSL no hospital. Mesmo com o Boatos.org (e outros sites) desmentindo as duas teses, surgiu mais um “desdobramento da história”.

De acordo com uma mensagem que começou a viralizar no Facebook, a enfermeira que teria gravado o áudio de Bolsonaro falando em “teatrinho” no hospital foi demitida. O nome dela seria Conceição. Ela seria de Nova Guiné e até teria tirado uma foto com o celular que usou na gravação. Leia a mensagem que circula online:

ENFERMEIRA QUE GRAVOU ÁUDIO DE BOLSONORO FOI DEMITIDA. Conceição, a enfermeira que gravou áudio em que Bolsonaro a chama de puta e xinga meio mundo, foi demitida. Ela disse que não se arrepende do que fez e que faria de novo. Conceição é da Nova Guiné e disse que pretende continuar no Brasil. Na foto, ela mostra o aparelho que manteve no bolso do avental de enfermeira, enquanto gravava o áudio.

Enfermeira que gravou áudio de Bolsonaro no hospital foi demitida?

É incrível como a capacidade das pessoas de checar é tão baixa. A prova disso está no número de compartilhamentos que uma das postagens teve (mais de 40 mil em um dia) e no fato de que a história (bem sem pé nem cabeça) é falsa. Vamos aos fatos.

O primeiro ponto está na narrativa da história em si. Para a gente assumir que a enfermeira Conceição foi demitida do Hospital Albert Einstein, temos que assumir que o áudio de Bolsonaro é real e que o atentado contra o candidato do PSL foi forjado. Nem vamos entrar em detalhes (se quiser, leia nos nossos desmentidos aqui e aqui), mas o fato é que a premissa é falsa.

Junte isso ao fato das características da mensagem. O texto é vago (sequer diz o sobrenome da Conceição), alarmista e não cita fontes confiáveis. Ao buscar sobre qualquer informação a respeito da “demissão da Conceição” em fontes confiáveis, nada encontramos além da mesma mensagem do Facebook.

Ao analisar a mensagem e a imagem, achamos mais dois erros. O primeiro é em relação ao país da “Conceição”. Para começar, Nova Guiné não é um país. É uma região de Papua Nova Guiné. Além disso, a região fica na Oceania (continente com colonização inglesa e etnia aborígene) e a “Conceição” se parece africana (como vocês vão ver mais para frente, ela é). Terceiro: Nova Guiné tem três idiomas: inglês e duas línguas aborígenes. Logo, Conceição não é um nome “comum” em Nova Guiné.

Há outro ponto que “pega a mensagem na mentira”. A mensagem diz que o celular que “gravou Bolsonaro” está na foto e que Conceição está no Brasil e não quer ir embora. Porém, as imagens são de Angola. Note o freezer ao fundo da imagem. Lá está escrito Cervejaria Fininho. O bar fica em Angola. Olhe a página oficial do estabelecimento. Olhe também essa foto, com o mesmo “cenário de fundo”.

Resumindo: a história que fala que o Hospital Albert Einstein demitiu a enfermeira que gravou Bolsonaro é falsa. Além de a história estar “prejudicada” por partir de premissas falsas, ter características de boatos e não estar balizada por fontes confiáveis, a imagem que circula online nada tem a ver com Brasil ou “Nova Guiné”, locais citados na mensagem.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet

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