O melhor de 2021 no Boatos.org, por Edgard Matsuki

Na quinta parte da nossa retrospectiva 2021, Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, escolhe os cinco textos do Boatos.org que mais marcaram 2021 na sua opinião.

Felizmente, estamos terminando 2021 de forma melhor do que 2020 em termos de pandemia. Porém, chegamos na semana derradeira do ano com um sentimento de que, em termos de fake news, estamos vivendo um looping eterno de desinformação sobre política no Brasil e sobre a pandemia.

Ao todo, desmenti (como autor) cerca de 750 notícias falsas em 2021. Isso dá uma média de, mais ou menos, duas fake news sendo derrubadas por dia. Por isso, escolher um top 5 no final do ano (como sempre fazemos por aqui) é uma tarefa hercúlea.

Neste ano, a minha lista ficou por conta de boatos que acabaram sendo reverberados por figuras influentes na sociedade. Em um ano no qual robôs, influencers especializados em fake news e fanáticos continuaram compartilhando fake news, notícias falsas que tiveram o endosso de jornalistas experientes, senadores, cantores famosos e o presidente merecem destaque.

Queríamos deixar uma menção honrosa para algumas fake news que ficaram, por pouco, fora da lista. São elas: a reportagem que usava dados errados para apontar que “vacinas vencidas” estavam sendo aplicadas na população, a informação falsa que a CIA teria avisado Bolsonaro que Barroso tinha sido chantageado por José Dirceu em uma trama que envolvia João de Deus, um vídeo completamente sem noção vindo de um médico chamado Robert Malone sobre vacinação de crianças e o vídeo cômico, trágico e patético de manifestantes pró-Bolsonaro comemorando um estado de sítio que não ocorreu em 7 de setembro. Sem mais delongas, vamos à lista.

Confira o vídeo da Retrospectiva 2021

Confira também:

Página da Retrospectiva 2021 das fake news

#5 – Paulo Maiurino, diretor da PF, denuncia que STF e Lula mandaram matar Bolsonaro #boato

Assim como incontáveis histórias neste ano, essa fake news nasceu de uma conta falsa no Twitter que levantava uma informação absurda. Quando Paulo Maiurino assumiu o cargo de diretor-geral da Polícia Federal, muitos fãs do presidente acreditavam que ele seria um “bolsonarista raiz” (outra palavra para maluco).

Por isso, quando um perfil com o nome dele apontou que a PF havia descoberto que o STF e Lula mandaram matar Bolsonaro (algo falso e absurdo), muita gente acreditou. O Boatos.org desmentiu o fake (fomos os primeiros a desmentir na mídia), mas algo pior ocorreu.

A jornalista Leda Nagle, que provavelmente não havia lido o nosso desmentido, falou sobre a suposta denúncia em um vídeo. A partir daí, o vídeo dela com a fake news se espalhou com muita força (mais do que a versão inicial do boato) e acabou sendo desmentido por outro sites. Ela pediu desculpas, se retratou, mas se tivesse lido o Boatos.org não havia caído nesta.

#4 – 52 cidades tem zero casos de morte por Covid-19 graças a ivermectina, hidroxicloroquina e tratamento precoce #boato

O ano começou com um tipo de fake news recorrente: de que uma medicação, chamada de tratamento precoce, salvava vidas e que, por isso, não seria preciso vacina, isolamento, máscaras e todos os cuidados que deveríamos ter. O resultado vocês viram, infelizmente.

Mesmo com o cenário trágico da pandemia em 2021, muita gente ainda acreditava e acredita que remédios como ivermectina e cloroquina são a cura Covid-19. No meio disso, relatos de “pequenos milagres” em cidades que haviam adotado o tal tratamento precoce começaram a surgir. Nenhum com qualquer prova de que o número de óbitos baixo se deu por conta dos remédios.

Para piorar, alguém resolveu pegar diversas histórias, adicionar cidades aleatoriamente e criar uma suposta de 52 cidades (que sequer tinha 52 itens) que se salvaram com o tratamento precoce. Deu muito trabalho desmentir (afinal, são 52 cidades), mas conseguimos refutar a tese em questão.

Isso não evitou que pessoas influentes compartilhassem os exemplos falsos como casos de sucesso. Uma dessas pessoas foi um senador da CPI da Covid-19. No final, ele virou piada com falas sobre “Rancho Queimado” e “Mia Khalifa” e, por pouco não foi indiciado no relatório final da CPI. Mais um caso que aponta que se ele tivesse ignorado o Boatos.org, não passaria por tantos problemas (ou não).

#3 – Manifestação de 7 de setembro terá intervenção militar, fim do STF e todos caminhoneiros parados por 72 horas #boato

É inegável que o cantor Sérgio Reis vai ter o nome marcado na história da música brasileira. Porém, ele teve a imagem totalmente manchada por cair/endossar uma fake news em agosto de 2021.

Na época, as redes de ódio pró-Bolsonaro estavam tentando abrir caminho para um golpe e para uma greve de caminhoneiros no dia 7 de setembro. Para tanto, estavam criando uma narrativa do estilo “se colar, colou” do que aconteceria nos protestos a favor do presidente.

A narrativa se baseava em realizar uma manifestação gigantesca a favor de Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios e, por lá, iniciasse uma greve de caminhoneiros até que o “voto impresso fosse aprovado” e o “STF fosse dissolvido”. Depois disso, caso negado o pedido, as Forças Armadas agiriam e dariam o golpe.

É lógico que o cenário era praticamente impossível de se concretizar. Ao contrário do que bolhas da internet apontam, a popularidade de Bolsonaro era baixa (e está mais baixa ainda) e caminhoneiros não iriam se meter em uma pauta política. O que havia era meia dúzia de bolsonaristas que achavam que poderiam influenciar a classe toda.

No meio disso, um vídeo de Sérgio Reis “endossando” o plano circulou na internet. Logicamente, ele foi desmentido pelos próprios caminhoneiros, pelo Boatos.org, por outros sites e massacrado nas redes sociais. Dias depois, pediu desculpas. Mais alguns dias depois, o 7 de setembro enterrou o fake. O máximo que teve foram alguns malucos comemorando um estado de sítio que nunca ocorreu.

#2 – TCU afirma que 50% dos óbitos registrados por Covid-19 não foram por Covid-19 #boato

Dentre todos os famosos que compartilharam e ajudaram a espalhar fake news já desmentidas, a figura que mais se destacou é a do presidente Jair Bolsonaro. Tanto que o segundo e o primeiro lugar da lista do meu top 5 são de histórias falsas compartilhadas por ele e que deixaram fanáticos em polvorosa.

O número dois da lista seria de uma história que endossaria uma tese falsa e perigosa sobre a pandemia: de que há mais mortos relatados do que a realidade (quando a tendência, na realidade, é que tenhamos uma subnotificação).

Em junho deste ano começou a circular em redes sociais um documento atribuído ao TCU que apontava que metade das mortes por Covid-19 teriam, na realidade, outras causas. Em suma, o documento seguia todo o roteiro do negacionismo da pandemia e reverberou com muita força em redes sociais.

O presidente da República, em vez de apurar o que ocorreu, de onde veio o documento ou mesmo ler o Boatos.org, resolveu dizer que o TCU tinha o tal relatório da supernotificação de óbito. Bolsonaro acabou sendo desmentido pelo próprio TCU, que apontou que o que seria uma “documento” nada mais era do que um texto feito por um funcionário, que foi punido, aliás.

Para piorar, houve uma adulteração no texto. Depois da fala de Bolsonaro, alguém colocou um timbre do TCU e começou a espalhar a “denúncia” como legítima. Teve otário (com o perdão da palavra) que acreditou no documento falso e veio tirar satisfação com o Boatos.org.

No fim, quem teve que prestar esclarecimentos foi o tal funcionário que, na CPI da Pandemia, e o próprio Bolsonaro, que admitiu que o TCU não havia feito nada.

#1 – Vacinados contra Covid-19 estão desenvolvendo aids (síndrome da imunodeficiência adquirida) #boato

Como a vacinação no Brasil começou apenas em 2021, o ano foi recheado de desinformação sobre imunizantes. O tema, sem dúvidas, merecia estar no topo do meu ranking. Em meio a tantas opções de fake news, escolhemos uma que foi endossada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Tudo começou com um site negacionista da Inglaterra. Conhecido por distorcer informações oficiais para criar conteúdo antivacinas, o site pegou um relatório da NHS (serviço de saúde britânico) que falava sobre imunidade aferida contra Covid-19 pelas vacinas (que, de fato, caem com o tempo) para alardear, com algo sem pé nem cabeça, que as vacinas causam aids.

O conteúdo foi reproduzido por sites antivacinas aqui do Brasil e circulou entre grupos de negacionistas e simpatizantes de Bolsonaro. A essa altura, o Boatos.org desmentiu a informação falsa. Quando, inclusive, outros sites de checagem já haviam feito o desmentido, Bolsonaro ajudou a espalhar ainda mais a fake news absurda.

Como o presidente estava desmoralizado em relação ao assunto (há, inclusive, um inquérito contra ele por espalhar a fake news), teve gente que tentou fazer um remendo na fake news falando que a “fonte era a revista Exame” (algo que, como mostramos aqui, é falso). Ou seja: tentaram consertar a fake news criando outra fake news.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet