Robert Malone é o inventor da vacina mRNA e está certo sobre vacinação de crianças #boato

Boato – O Dr. Robert Malone inventou a tecnologia das vacinas mRNA e está correto ao dizer que não devemos vacinar as crianças contra a Covid-19 porque imunizantes causam danos irreversíveis.

Há algumas semanas, o Boatos.org adiantou que a última cartada do movimento antivacinas no Brasil estava para ser dada: o lobby desinformativo contra a vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade. E, conforme adiantamos, temos visto uma enxurrada de informações falsas sobre os imunizantes circularem por aí. A mais nova se utiliza de uma suposta autoridade no assunto.

Um vídeo de um médico norte-americano chamado Robert Malone tem circulado com força entre grupos contrários à vacinação. Ele é apresentado em mensagens como o “inventor das vacinas mRNA contra a Covid-19” e, em um breve discurso, aponta três motivos para não vacinar as crianças.

O primeiro motivo seria que as vacinas contra a Covid-19 causariam “danos irreversíveis” no cérebro, coração e sistema reprodutivo. O segundo seria uma alegação de que as vacinas são experimentais e não foram feitas em tempo hábil. O terceiro seria que crianças não transmitiriam o vírus para outras pessoas. Leia os textos que circulam online e parte da transcrição do vídeo (que não será exibido aqui):

Confira o desmentido em vídeo:

Versão 1: Declaração do Dr. Robert Malone, inventor da tecnologia MRNA das vacinas contra a Covid-19, sobre a vacinação nas crianças. Versão 2: URGENTE Vídeo extremamente importante, não é qualquer um que está falando! Dr. Robert Malone, o inventor da tecnologia de mRNA, explica porque você não deve “PICAR” seu filho com “picadas” de mRNA da Covid. Quem puder legendar para o povo, fico agradecido

Trechos da transcrição: Meu nome é Robert Malone e estou falando com você como pai, avô, médico e cientista. […] Há três questões que os pais precisam entender. A primeira é que um gene viral será injetado nas células dos filhos. Este gene força o corpo do seu filho a produzir proteínas tóxicas. Essas proteínas costumam causar danos permanentes nos órgãos críticos das crianças, incluindo Seu cérebro e sistema nervoso Seu coração e vasos sanguíneos, incluindo coágulos sanguíneos Seu sistema reprodutivo E esta vacina pode desencadear mudanças fundamentais em seu sistema imunológico […]

A segunda coisa que você precisa saber é o fato de que esta nova tecnologia não foi testada adequadamente Precisamos de pelo menos 5 anos de testes / pesquisas antes de podermos realmente compreender os riscos […] Um último ponto: o motivo pelo qual eles estão lhe dando para vacinar seu filho é uma mentira. Seus filhos não representam perigo para seus pais ou avós Na verdade, é o oposto. A imunidade deles, depois de pegar Covid, é fundamental para salvar sua família, senão o mundo, desta doença. […]

Robert Malone é o inventor da vacina mRNA e está certo sobre vacinação de crianças?

A mensagem não demorou muito para viralizar. Só que, ao contrário do que muita gente está dando a entender, não é verdade que a pessoa do vídeo é a inventora das vacinas de mRNA. Mesmo que fosse, o discurso não deveria ser levado em conta porque há informações erradas nele.

Antes de continuar, precisamos alertar que não é de hoje que falas de pseudoautoridades são utilizadas por grupos negacionistas na pandemia. É o que já chamamos de “ídolos dos negacionistas”. Tratam-se de pessoas da área da medicina e da ciência que acabam ganhando holofote graças a opiniões contrárias ao consenso científico (mesmo sendo posições já descartadas pela ciência).

E, no caso de hoje, a história já começa com algo controverso. Como apontam diversos sites de checagem e veículos de mídia dos Estados Unidos, Robert Malone não é o “inventor das vacinas mRNA”. É fato, como aponta o site Health Feedback, que o médico colaborou para o desenvolvimento da tecnologia. Em 1989, Robert Malone escreveu um artigo em apontou ser possível transferir mRNA envolvido em um lipossomo (gordura) para células. Porém, essa transferência sempre gerou uma reação inflamatória.

Como aponta o The Atlantic em um artigo no qual ele classifica o médico como um “espalhador de desinformação”, um método viável de injetar o mRNA no corpo só foi desenvolvido em 2004 por um grupo de cientistas como Katalin Karikó (que é vice-presidente da BioNTech). A própria cientista apontou que não existe “um inventor” e sim um esforço coletivo para desenvolvimento. Ao site Logically, que desmentiu a informação, Robert Malone, inclusive, admitiu que não é o “inventor da vacina mRNA”.

Independentemente da invenção ou não, uma coisa não muda: o discurso do médico sobre vacinas está equivocado. Vale apontar, aliás, que ele já teve declarações checadas e apontadas como falsas em diversos sites norte-americanos de fact-checking como da CBS de Memphis, da Reuters, o Politifact, Factcheck.org, além de outros (incluindo os já citados). Ou seja: ele já figura carimbada nos EUA.

Sobre as declarações. A primeira nada mas é do que uma tese já utilizada por grupos antivacinas e que já foi, em algumas oportunidades refutadas. É falso que a “proteína Spike” das vacinas mRNA cause danos irreversíveis nas pessoas imunizadas. Não só os testes das vacinas (que se utilizaram de metodologia reconhecidamente “padrão ouro”) mostraram que os imunizantes são seguros como a realidade na aplicação das pessoas têm mostrado isso.

Não há qualquer informação em fonte fiável que garanta que as vacinas já aprovadas causem males em crianças. Como apontaram estudos (que já foram certificados pela FDA), um terço da dosagem original da vacina da Pfizer garante proteção contra a Covid-19 e é segura. As vacinas, inclusive, já tem sido aplicadas em crianças nos Estados Unidos e, ao contrário do que dá a entender, não é possível ver que “danos irreversíveis” em massa estejam ocorrendo nos pequenos.

A segunda tese, de que as vacinas foram aprovadas “rápidas demais” também não é defensável. Uma vacina ou um remédio para ser testado precisa, basicamente, de alguns elementos.1) Investimento para pesquisa e logística. 2) Voluntários que se apresentem. 3) Um número de infectados no grupo de controle para que se chegue a uma conclusão. O cenário pandêmico foi o mais adequado para esse desenvolvimento.

A disseminação do vírus, o alto número de mortes ao redor do mundo e o impacto econômico dele fizeram com que esforços financeiros não fossem poupados para o desenvolvimento de um imunizante. O que se viu foi uma espécie de “corrida das vacinas”. Neste sentido, dinheiro para “mão de obra” e pesquisas não faltou. Isso acelera o processo (não são poucos os exemplos de pesquisas aqui no Brasil paradas por falta de financiamento).

Além disso, a urgência fez com que muitas pessoas se voluntariassem para participar dos testes (o que também é, em alguns casos, empecilho para o desenvolvimento de pesquisas). Por fim, os resultados (principalmente da fase 3) se apresentaram rapidamente porque o vírus estava disseminado no mundo. Aqui cabe uma explicação.

Para que uma vacina tenha a eficácia aferida em um teste duplo-cego, segue-se uma metodologia. Um grupo de pessoas é vacinada e outro grupo recebe um placebo. Para que se chegue a um resultado, é preciso que um número mínimo de pessoas seja infectada (para que seja possível se fazer um cálculo seguro em relação a quantas pessoas de cada grupo se infectou). Como estamos em pandemia, esse processo foi acelerado. Logo, os resultados dos testes surgiram mais rapidamente sem nenhum ônus à qualidade deles.

O terceiro ponto apresentado também está errado. Não é verdade que crianças não infectam pessoas mais velhas ou são imunes à doença. Apesar de, de fato, crianças se infectarem e transmitirem a doença em volume menor que adultos, elas não estão livres de ter casos severos ou mesmo virem a óbito. E, sim, as crianças também transmitem a Covid-19.

Vale apontar que a tese de que “se infectar” ajuda a vencer o vírus também já caiu por terra. Como o Sars-CoV-2 pode sofrer inúmeras mutações, se infectar não garante segurança contra uma nova infecção e a “imunidade de rebanho” por infectados é uma tese que já caiu.

Resumindo: além de Robert Malone não ser o criador da vacina de mRNA (a criação veio de um esforço coletivo e não uma ação individual), os argumentos apresentados por ele para a não-vacinação de crianças não se sustentam quando confrontados com dados da realidade e da ciência.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet