O melhor de 2020 no Boatos.org, por Edgard Matsuki

Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, escolhe as cinco fake news que mais o impactaram no ano. Lista tem morte de ditador, “Homem Pateta”, fraude nas urnas e pandemia.

Não foi fácil, mas cá estamos na última semana de 2020. Um ano que começou com a perspectiva de Jogos Olímpicos (que, para mim, descendente de japoneses, teria um gosto especial) e expectativa de como seriam as eleições municipais, termina, de certa forma, com um cenário de terra arrasada.

Enquanto juntamos os cacos e respeitamos a memória de todos que perderam a vida (direta ou indiretamente) com a Covid-19, cá estamos para rever como foi esse 2020 em termos de fake news. Me atrevo a falar que nunca o nosso trabalho (às vezes pregando no deserto) se fez tão importante. Em um cenário no qual um vírus surpreendeu todos e, posteriormente, foi politizado, fizemos (posso garantir) o nosso melhor.

Apenas eu, Edgard Matsuki, estou no meu texto de número 742 no ano. É possível que eu escreva mais dois ou três até às 23h59 do dia 31/12. Por isso mesmo, a tarefa de escolher cinco dentre esses textos não foi fácil.

Poderia colocar na lista as promessas de curas absurdas ou mesmo a insistência na tese de que remédios que já existem poderiam curar a Covid-19. Poderia, também, citar toda a campanha antivacina que estamos enfrentando nos últimos meses de 2020. Há, ainda, teses falsas relacionadas às eleições dos EUA, atrito de Bolsonaro com Moro ou, ainda, às queimadas no pantanal.

Essa lista, mais do que nunca, mereceria inúmeras menções honrosas. Mas ficarei com duas apenas. A primeira é relacionada ao pronunciamento desastroso de Bolsonaro do 24 de março de 2020. Naquele dia, checamos todas as informações falsas ou distorcidas (que, posteriormente, serviram como marco para muitas fake news) disseminadas por quem deveria informar, agregar e acalmar.

A segunda, foi uma carta conjunta que o Boatos.org escreveu com outras quatro agências de checagem (Lupa, Aos Fatos, e-Farsas e Estadão Verifica) e a IFCN. Nela, clamamos que autoridades parassem de distorcer fatos. É uma pena que este foi um dos casos em que “pregamos no deserto”.

Feitas as ressalvas e as explicações (quase desculpas para quem não concordar com a lista), segue o meu “Top 5”. Usei os desafios da apuração, o ineditismo, o impacto e a importância do texto como alguns dos fatores. Sem mais, confira a lista:

Confira a retrospectiva completa

Confira o vídeo completo da retrospectiva 2020

5) Homem Pateta chamado Jonathan Galindo é um psicopata que induz crianças ao suicídio #boato

Boatos de “grandes ameaças às crianças” sempre, com ajuda das redes sociais, informações mal apuradas da mídia e sensacionalismo, fizeram sucesso no mundo das fake news. Em 2020, a lenda que fez sucesso era de um “sujeito” que ameaça crianças e as levava ao suicídio chamado “Homem Pateta”.

Não precisamos de muitas pesquisas para descobrirmos que a imagem em questão era de criação de um artista e que a história do “Homem Pateta” não passava de uma fanfic “comprada” (sem checagem) pela mídia. Vale dizer que, apesar do alarde, nunca tivemos um caso confirmado da tal ameaça. Confira mais detalhes sobre o fake aqui.

A escolha por esse texto se deu por se tratar de um tipo de desinformação que é muito complicada de desmentir por circular em veículos ditos confiáveis. Segundo porque trata de um tema muito delicado. Em 2017, o boato da Baleia Azul ficou em 1º lugar na minha escolha. Em 2019, foi o da boneca Momo. Se fosse um ano comum, essa história do Homem Pateta poderia estar até em uma posição melhor. Mas 2020 passou longe de ser um ano comum.

4) Coronavírus tem 2,8 milhões de infectados e matou 112 mil pessoas na China #boato

Era 26 de janeiro de 2020. O coronavírus já havia se espalhado por Wuhan, mas foi naquele domingo que a coisa começou a tomar outra dimensão na “vida” do Boatos.org. Naquele domingo, canais do YouTube começavam a “soltar” informações alarmistas sobre o coronavírus (incluindo vídeos de pessoas caindo nas ruas).

A história que apontava que, naquele janeiro de 2020, o mundo tinha 2,8 milhões de infectados e 112 mil mortes foi facilmente desmentida (surgiu em um canal que sempre soltava notícias falsas sobre guerra civil e intervenção) pelo Boatos.org. Confira mais detalhes sobre o fake aqui.

A escolha se deu por dois motivos. O primeiro é que essa história foi a primeira (das mais de 500) relacionadas ao coronavírus a ser desmentida pelo Boatos.org. Quando desmentimos esse fake, sequer imaginávamos o que estaria por vir. E aí está o segundo motivo: em janeiro de 2020, nem o mais louco dos espalhadores de fake news acreditaria que chegaríamos o fim do ano com 81 milhões de casos de Covid-19 e 1,7 milhão de mortes no mundo (muito mais do que o fake apontava).

3) Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, morreu após cirurgia em 2020 #boato

O nosso terceiro lugar na lista é um boato de morte (um dos tipos da fake news mais corriqueiros) que não estaria por aqui não fosse um “detalhe”: ele foi vendido como notícia real por toda a mídia mundial.

Em abril deste ano, depois de um “sumiço” do ditator da Coreia do Norte Kim Jong-un, começou a circular a informação de que ele teria morrido em uma cirurgia. A história começou em redes da Ásia e chegou até uma jornalista da NBC (que apontou como fonte “serviços de inteligência dos EUA”). A partir daí, a informação se espalhou por todo mundo.

Dias depois, o TMZ (site de celebridades) voltou a cravar a informação e a notícia voltou a ser compartilhada em todo mundo. Só faltava uma coisa nisso tudo: a prova de que Kim Jong-un havia morrido. E, contra todo mundo, avisamos desse “detalhe”. O tempo mostrou que Kim Jong-un estava vivo e estávamos certos. Confira mais detalhes aqui. 

Destacamos esse desmentido porque é mais um exemplo (não o único de 2020) em que notícias mal apuradas e erradas não só têm consequências na desinformação em si como também ajudam a descredibilizar a mídia (coisa que quem espalha fake news adora fazer). Neste caso, o bronze “do ano” serve como alerta.

2) Documento prova que Bolsonaro venceu no 1º turno e houve fraude nas eleições de 2018 #boato

As eleições municipais foram em 2020, mas parece que muitas das fake news remetiam 2018 com o olho de 2022. No meio de toda essa confusão temporal, chegamos ao segundo lugar da nossa lista. Só para variar, o fake falava de “fraude nas urnas eletrônicas”.

Um “dossiê” começou a ser espalhado como a “prova absoluta” de que as urnas eletrônicas haviam sido fraudadas durantes as eleições presidenciais de 2018. O documento apontava que as urnas haviam fraudadas com base em “parciais das eleições” dadas pela TV e estava sendo “vendido como “notícia nova”.

O “pequeno detalhe” é que a reclamação, que havia sido enviada ao TSE e já havia sido refutada. Além de a discrepância em questão ser explicável, os dados mostrados na TV não eram oficiais e, como sempre falamos (mas tem gente que não quer entender), não havia qualquer prova de que o sistema eletrônico de votação era fraudável. Confira mais detalhes aqui. 

Esse desmentido foi escolhido pela história por trás dele. Ele (assim como tantos outros) foi escrito em um domingo e foi fruto da parceria do Boatos.org na Coalização contra Fake News nas eleições. Para escrever o texto, tivemos que ler todo o documento, fazer “mil perguntas” ao TSE e escrever um texto imenso. Resultado: domingo perdido e “mundo salvo” mais uma vez.

1) Borracheiro morreu em acidente com pneu, mas foi diagnosticado com Covid-19 para inflar estatísticas do coronavírus #boato

Vou ser sincero. Se me deixasse agir só pela emoção, os cinco principais textos do ano seriam sobre a pandemia. Não fizemos isso para dar mais “representatividade” à lista. Mas, no mínimo, queríamos que o “número 1” fosse um boato representativo. E, na minha opinião, o texto que falava da “morte de um borracheiro” era o mais representativo possível.

Foi num domingo de março (mês em que tivemos mais audiência do que qualquer outro na história do Boatos.org) que começou a surgir em redes sociais a informação de que um borracheiro havia morrido com o “estouro” de um pneu de caminhão, mas teve a morte contabilizada como por Covid-19.

O relato, compartilhado até por figuras políticas que “se destacaram” (não é o melhor termo, mas é o que temos) em jogar contra a Ciência durante toda a pandemia, viralizou rapidamente em todos os canais que tínhamos acesso. Vimos a história pipocar no WhatsApp, Facebook, Twitter e blogs.

Investigar sobre o assunto era procurar uma agulha no palheiro, ainda mais em um domingo. Foi aí que encontramos o nome do homem citado como o declarante da morte. Era um funcionário da empresa que prestou serviços funerários. Além de ter desmentido a informação, nos enviou uma nota (confirmada posteriormente) do hospital que o homem morreu. Não havia nada de pneu de caminhão tampouco morte contabilizada por Covid-19. A morte, apontada como suspeita, ainda dependeria de testes.

Mesmo com o nosso desmentido (o primeiro na internet brasileiro) e posterior desmentido de outros sites, a história cresceu. Muita gente tentou justificar o boato com um relato da família (que não tinha muito sentido e nada falava em pneu de caminhão) e um “erro de robôs” (só pode ser isso) fez com que a mensagem citando o sujeito como “primo do porteiro do meu prédio” fosse repetida por diversos perfis falsos e, claro, virasse piada. Confira mais detalhes aqui. 

Além do fator ineditismo e a dificuldade da apuração dominical, a história mostra o quão insano foram os boatos negacionistas sobre a Covid-19. Mostra também o quão difícil foi lutar contra um exército que, entre a saúde e a economia, escolheu a política e a desinformação. Histórias assim mostram o quão importante o Boatos.org é. Não só para entregar a informação para os leitores como também para fazer outros veículos de mídia se atentarem para o que circular em termos de fake news na internet.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet