O melhor do Boatos.org em 2020, por Raiane Gonoli

Na segunda parte da nossa retrospectiva 2020, Raiane Gonoli escolhe quais foram os cinco boatos que mais a impactaram em 2020. Na lista, tem urnas, Covid-19 e termômetros. 

Nem piscamos os olhos e 2020 já está acabando. Parece que foi ontem que a pandemia chegou alastrando tudo, sem aviso prévio, e obrigou o mundo todo a entrar em guerra contra um inimigo em comum: o novo coronavírus.

E não tem como falar de 2020 sem associá-lo ao ‘ano da pandemia’ e como mudamos toda a nossa rotina diante de um vírus invisível e fatal. Máscaras, álcool em gel, termômetros de infravermelho, luvas descartáveis… Quem poderia imaginar que esses acessórios seriam a última tendência pelas ruas, não é?

Isolamento social, reprises na TV, cumprimentos com cotovelos, shows para plateia nos carros (não podemos esquecer das buzinas e faróis como aplausos)… Tudo isso faz parte de um “novo normal” que jamais esqueceremos quanto tudo isso passar, fora o assustador número de mortes, ainda contínuo (mais de 1,6 milhão, sendo mais de 186 mil só aqui no Brasil), que ficará marcado na história para sempre.

E por aqui, além do coronavírus, tivemos que unir esforços para combater outro vírus que também se disseminou rapidamente na população: a desinformação. Em meio à pandemia de Covid-19, foram várias as fake news que inundaram a internet, prejudicando as recomendações das autoridades de saúde mundiais para frear a contaminação pelo vírus e colocando em risco a saúde de todos.

De outro lado, por ser um ano eleitoral, também tivemos vários boatos online sobre as eleições municipais, o que significou um trabalho árduo da nossa equipe e de outras agências de checagem para que o pleito pudesse acontecer sem ser prejudicado, mesmo diante de um cenário diferente em relação às votações anteriores.

Pensando nisso, e como é de “praxe” todos os anos, decidi listar quais foram os 5 boatos que eu mais gostei de desmentir em 2020 aqui no Boatos.org, que trazem memórias de alguns desses episódios marcantes ao longo do ano. Espero que gostem de relembrar tudo comigo. Desde já, desejo um Feliz Natal e próspero Ano Novo! Que 2021 venha com dias melhores e boas notícias (verdadeiras, é claro). Boas festas!

Confira a retrospectiva completa

Confira o “top 2” de Raiane Gonoli em vídeo:

5) Pessoas que usam maconha estão imunes ao novo coronavírus (Covid-19) #boato

Esse foi um fake que eu desmenti logo no início da pandemia, mesmo período em que surgiram outras mil e uma receitas caseiras bizarras para “curar a Covid-19”. A publicação compartilhava a informação, baseada em uma falsa pesquisa nos Estados Unidos, de que pessoas usuárias de maconha teriam mais resistência ao coronavírus, além de conseguirem melhora no humor durante a quarentena.

Obviamente, alguém pode até ter testado a dica e ficado tranquilinho por aí, mas sequer existiu qualquer estudo que comprovasse que quem fuma um “baseado” poderia tratar e muito menos a cura da Covid-19. Além do mais, no início do ano, vários países ainda estudavam vacinas para a doença. Como sabemos hoje, as candidatas à imunização da população nós só conhecemos mais recentemente. Para saber mais sobre essa história, clique no link.

4) Apenas 6% das mortes de pessoas com coronavírus foram, de fato, por Covid-19, mostra pesquisa #boato

Outro boato que viralizou online com o intuito de confundir ainda mais os internautas e atrapalhar o combate ao coronavírus (e à desinformação) foi esse que apontava que somente 6% dos óbitos registrados nos sistemas de saúde por coronavírus foram, de fato, causados pela Covid-19.

Para enganar a população, a publicação trazia o argumento de que as pessoas que morreram pela doença tinham, na verdade, outras comorbidades que as teriam levado à morte, como diabetes ou obesidade, e não por causa do coronavírus. Na verdade, houve uma distorção na interpretação dos dados de uma pesquisa real, que apontava que 6% das pessoas que morreram de Covid-19 não tinham outras doenças apontadas na certidão de óbito do falecido. Isto significa que os outros 94% das pessoas que morreram foram listados como tendo pelo menos uma comorbidade.

Em nenhum momento, foi dito que a morte da pessoa foi causada por “diabetes” ou “obesidade”. A morte foi sim causada por Covid-19. O fator de risco “apenas contribuiu” com a morte e não a causou. Engraçadinhos, não? Não foi à toa que esse foi um dos tipos de fake news mais perigosos que desmenti em 2020, pois podem ser bastante convincentes se vocês aí, do outro lado, não pesquisarem a fundo as informações. Todo cuidado é pouco! Para saber mais sobre essa história, clique no link.

3) França aprova liberação do aborto até os nove meses de gravidez #boato

Em terceiro lugar na lista, fugindo um pouco dos fakes sobre a pandemia, está esse boato polêmico que repercutiu bastante nas redes sociais e, inclusive, deu o maior “bafafá” entre leitores e não leitores do Boatos.org no Twitter, rendendo bastante debate. Tudo porque surgiu na internet uma notícia de que a França teria aprovado a liberação do aborto até os nove meses de gravidez, além de uma série de mudanças na Lei de Bioética do país.

Na verdade, a informação foi distorcida (desta vez, por grupos conservadores) para persuadir os internautas. Apesar de, de fato, ter havido uma alteração na lei que trata do aborto, as novas regras não funcionam como estavam espalhando. A regra anterior era a de que abortos realizados até 12 semanas de gestação eram considerados legais no país. Porém, caso o bebê tivesse alguma condição de saúde considerada incurável, a interrupção médica da gravidez (IMG) poderia ser feita em qualquer momento até o fim da gestação, após pedido médico.

Com a mudança na lei, foi incluída uma emenda de uma linha especificando que esta condição (doença incurável) também poderia ser justificada por sofrimento psicossocial. Ou seja, primeiramente, existe uma grande diferença entre aborto (interrupção voluntária da gravidez) e IMG (interrupção médica da gravidez).

A IMG, como o próprio nome já diz, só deve acontecer por razões médicas, quando existe uma grande probabilidade de o feto apresentar uma condição particularmente grave e incurável ou se a gravidez colocar em risco a saúde da mulher. Já o aborto (que acontece por opção da mulher), por lei, continua sendo possível somente até 12 semanas de gestação. A emenda que incluiu o “sofrimento psicossocial” como motivo de “grave perigo” que poderia justificar a interrupção da gravidez diz respeito à IMG, e não ao aborto, ao contrário do que sugere o boato.

Entendeu? Mais uma prova de que não se informar direito pode gerar confusão e, é claro, várias fake news desnecessárias. Para saber mais sobre essa história, clique no link.

2) Vídeo prova que sistema da urna eletrônica pode ser fraudado #boato

E já que 2020 foi um ano eleitoral, como é de “praxe”, surgiram várias fake news (algumas até já manjadas em todos os pleitos) para tentar atrapalhar os candidatos e colocar em xeque a segurança da votação. E em mais uma versão de sobre “fraudes nas urnas”, uma postagem começou a compartilhar um vídeo que provaria que o sistema da urna eletrônica poderia ser fraudado.

Em um tutorial, um youtuber fez uma espécie de experimento, o qual ele chamou de “modo fraude”, aplicando um código no aparelho que, de fato, adulterou os votos computados. A experiência chamou bastante a atenção dos internautas. Porém, além de o aparelho usado no vídeo ser uma réplica da urna eletrônica feita com processador totalmente diferente, o Arduino (o que o próprio homem fez questão de deixar claro), a verdade é que uma urna eletrônica jamais poderia ser clonada, já que não se trata de um computador simples, e sim, de um dispositivo projetado conforme exigências estabelecidas pelo TSE para garantir a segurança de seu hardware.

Dentre as várias especificidades, o aparelho é feito com perímetro criptográfico, além de ter teclado diferente do apresentado no vídeo (com microcontrolador próprio e perímetro criptográfico que o identifica como teclado de urna, e não como um teclado qualquer), proteção que evita que softwares alheiros à Justiça Eleitoral sejam carregados e executados no sistema e perfis operacionais exclusivos e limitados para fabricantes, desenvolvedores e testadores. Isto é, apesar de parecer convincente, tudo não passou de uma tentativa falha de provar que o sistema das urnas eletrônicas não é confiável. Para saber mais sobre essa história, clique no link.

1) Termômetro infravermelho causa dano à glândula pineal ao medir temperatura na testa #boato

E em primeiro lugar na minha lista de boatos de 2020, eu não poderia deixar de citar essa teoria um tanto louca, mas que, até hoje, mesmo já tendo sido desmentida, ainda deixa muita gente com um “pé atrás” em relação ao uso de termômetros para medir a temperatura das pessoas em lojas e outros estabelecimentos comerciais. Inclusive, eu mesma andando por aí, já parei em comércios que passaram a medir a temperatura corporal de modo diferente por causa desse boato.

A publicação dava conta de que direcionar o termômetro infravermelho à testa para medir a temperatura corporal poderia causar danos à glândula pineal, que é a responsável por diversas funções no nosso corpo, como hormonais e sexuais, e até pelo sono. A informação circulou em várias versões e assustou os internautas, inclusive, os mais espiritualistas, que acreditam que a glândula também seja o nosso chamado “terceiro olho” (ligada à meditação, chakras, etc.)

No entanto, a história surgiu como uma daquelas fake news que visam convencer a população a deixar de usar acessórios necessários no combate à Covid-19, como aconteceu também com as máscaras, álcool em gel, etc. Na realidade, para começo de conversa, a glândula pineal sequer está localizada próxima à testa, como muitos pensam, mas sim, nas profundezas do cérebro, a vários centímetros do tecido cerebral.

Em segundo lugar, os termômetros infravermelhos são projetados somente para captar temperaturas da superfície da pele, e não para enviar luz infravermelha ou comprimentos de onda para corpo, como acontece no caso de raios X ou controles de TV, que emitem radiação.

Portanto, podem ficar tranquilos! Enquanto não sai a vacina, estaremos sujeitos a medir a temperatura corporal em qualquer lugar que formos. Afinal, trata-se de uma medida preventiva super necessária. Porém, não há qualquer perigo ao medir a temperatura com termômetros infravermelhos na testa ou em qualquer outra parte do corpo. Para saber mais sobre essa história, clique no link.