Falsos alertas de crimes causam pânico e podem ter consequências piores do que imaginamos

Neste A Semana em Fakes, Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, fala sobre como falsos alertas de crimes impactam em nosso cotidiano e, em casos extremos, podem ter consequências terríveis.

Por muito tempo, eu declarei em entrevistas ou em falas públicas (como em eventos que debatiam a desinformação) que, na minha opinião, os dois tipos de boatos mais graves que existem são os relacionados à saúde e a falsas imputações de crimes. A pandemia está mostrando o quanto fake news da primeira categoria são graves. Mas hoje vamos falar da segunda.

Sempre que o fluxo de fake news impulsionadas (automaticamente ou não) por motivações ideológicas (como da editoria “Política”) dão um “respiro”, alertas com impacto direto em nosso cotidiano ganham espaço nas redes. Nesta semana, tivemos alguns exemplos de alertas desse tipo que não são verdadeiros. Dois do “mundo real” e um do “mundo virtual”.

Um deles falava que há um vírus no WhatsApp disfarçado em de uma imagem chamada “México fez” sobre a cura da Covid-19. Na realidade, nem a tal imagem circulava online tampouco existia o tal golpe. No fim, tratava-se de uma mensagem falsa que apenas servia para confundir o internauta. Desmentimos, inclusive, em vídeo.

No mundo “real”, dois alertas chamaram atenção. Um deles falava sobre um suposto golpe “da floricultura” e do “O Boticário” que resultaria em, por meio a obtenção de uma imagem, em “financiamento de veículos no Itaú” em nome de vítimas. Além de a história ter características de boatos online como ter um caráter vago e alarmista (como muitas dessas denúncias de crimes), a assessoria do banco negou que seja possível “financiar um carro” se utilizando de fotos ou aplicativos que não sejam do banco.

Outro boato circulou por meio de um vídeo de um suposto casal que teria tentado raptar uma menina. Na realidade, o vídeo não passava de uma simulação feita por uma produtora do Equador e não havia qualquer prova de que o modus operandi descrito no vídeo fosse real. Desmentimos, também, em vídeo, esse boato.

Todos os casos foram desmentidos antes de ter uma consequência maior. Porém, bastaria alguém atribuir um rosto a um desses boatos e teríamos uma falsa imputação de crime. E aí poderíamos ter um resultado gravíssimo.

Em 2016, entrevistamos uma vítima de um boato. A foto dela começou a ser divulgada em 2015 como se fosse de uma sequestradora de crianças. Em poucos dias, ameaças surgiram e ela teve que ficar confinada por um período (no qual a história foi desmentida e parou de circular) e, inclusive, mudou a cor do cabelo para não ser confundida.

Ironicamente, a foto que estava sendo divulgada surgiu de uma situação na qual a era vítima. Após ela acusar o ex-marido de estuprar sua filha (que era enteada do homem) e ele fugir, a polícia divulgou uma foto para encontrar o homem. Detalhe: na foto estava a mulher, que passou a ser identificada como “sequestradora de crianças”.

Em 2014, outra história não teve o mesmo desfecho. Também acusada de sequestrar crianças, uma mulher foi linchada e morta por populares. O que terminou em um homicídio cruel começou com uma denúncia vaga que, depois de um tempo, ganhou um rosto.

Por isso, ficam alguns conselhos. É claro que temos que ter cuidado com a violência urbana e crimes virtuais. Porém, dar vazão e voz e denúncias que não têm lastro (seja pela falta de provas da acusação ou do caráter vago) mais atrapalha do que ajuda. A história nos mostra que uma simples postagem pode, sim, acabar prejudicando pessoas inocentes.

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem decrescente, México fez, Amazon, Mexico fez, Floricultura, Adidas, Leda Nagle, Boticário, Bolsonaro, Venezuela e 5g.

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem decrescente, sobre o alerta falso em relação à mensagem México fez, sobre uma denúncia falsa de que Lula e o STF mandaram matar Bolsonaro e falsamente atribuída a Paulo Maiurino, diretor da PF, sobre um golpe que está sendo atribuído a Amazon, sobre uma denúncia de que uma menina havia sido sequestrada no Jardim Alvorada e que Bolsonaro construiu uma fábrica de 5g secretamente.

No Twitter, a matéria com maior engajamento foi a que falava que o diretor da PF havia revelado que Lula e o STF mandaram matar Bolsonaro. No Facebook, no Instagram, no YouTube e no Telegram, o texto mais compartilhado é o que fala sobre o vídeo de sequestro da criança por parte de um casal.

Edgard Matsuki é editor do site Boatos.org, site que já desmentiu mais de 6 mil notícias falsas

Uma das novidades do Boatos.org para 2021 é a seção “A Semana em Fakes”. Periodicamente, faremos análises sobre os assuntos mais recorrentes em termos de desinformação na internet. Este conteúdo ficará aberto para republicação em outros veículos de mídia. No momento, publicamos o conteúdo no Portal Metrópoles e Portal T5 (caso tenha interesse, entre em contato com o Boatos.org para saber as condições). Para ver todos os textos da seção, clique aqui.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet