Milhares de cientistas e médicos provam que Covid-19 é uma fraude #boato

Boato – Cientistas, médicos e profissionais da saúde provam a fraude da Covid-19 e afirmam que OMS é porta-voz da China. 

Os números de casos e mortes pela Covid-19 no Brasil estão diminuindo. Isso é fato, mas não significa (nem de longe!) que a pandemia acabou. Apesar dos dados terem diminuído, muita gente segue morrendo pela doença no país. Já são mais de 150 mil vítimas no Brasil.

E nós, do Boatos.org, ainda acreditávamos que com a diminuição dos números da Covid-19 no país, a quantidade de fake news também iria diminuir. Ledo engano. As informações falsas sobre o assunto seguem firmes, fortes e repetidas.

Exemplo disso é uma história que está circulando nas redes sociais. De acordo com uma publicação, milhares de cientistas, médicos e profissionais da área da saúde (enfermeiras, farmacêuticos, dentistas etc) teriam “denunciado” e “alertado” que a Covid-19 é uma fraude. “Milhares de cientistas denunciam fraude da pandemia de covid 19 e riscos do isolamento”, diz uma das mensagens. “Centenas de médicos de todo o mundo assinam uma declaração alertando que a Covid-19 “é a maior fraude de saúde do século 21””, afirma outra.

Milhares de cientistas e médicos provaram que Covid-19 é uma fraude?

A informação fez bastante sucesso nas redes sociais, em especial, no Facebook e no WhatsApp. As publicações já acumulam milhares de compartilhamentos. Apesar do resultado, a história não é nada disso que parece.

Basta ler o tal “manifesto” dos profissionais da saúde para entender que nada mais é do que a repetição de um mantra furado e lunático. A nota aponta que a Covid-19 não é uma doença grave, defende que o isolamento social não seria a ação mais ideal, que as pessoas não deveriam usar máscaras e que, em alguns casos, a cura da doença estaria em remédios como a cloroquina.

Algumas informações apontadas no texto, de fato, são reais. A Covid-19 não é uma doença extremamente contagiosa (assim como o sarampo) e nem possui uma alta taxa de letalidade. Porém, usar isso para orientar pessoas a não adotarem medidas protetivas é, no mínimo, irresponsável.

O texto, na verdade, foi publicado em uma petição online no site Change.org. Na descrição, um coletivo pede para que apenas profissionais da saúde assinem a petição, indicando sua especialidade nos comentários. Entretanto, por se tratar de um site público, qualquer pessoa pode assinar o abaixo-assinado, dando a impressão de que realmente milhares de profissionais da saúde estejam apoiando a causa. Ou seja, não podemos nem aferir a autenticidade das assinaturas e, mesmo que sejam reais, elas defendem uma tese equivocada (e falsa).

O texto, obviamente, saiu do site de petições online e fui compartilhado em diversos outros lugares, em especial, sites e páginas negacionistas em relação à gravidade do coronavírus na internet.

Vale destacar que não é porque um médico ou cientista assinou o abaixo-assinado que o documento terá, automaticamente, validade científica. Ele precisa ser validado por pares, isto é, outros cientistas. Nesse processo, eles vão avaliar se o estudo atendeu todas as normas científicas durante a realização da pesquisa.

Muitas das afirmações feitas no tal abaixo-assinado tem como base entrevistas na mídia e canais do YouTube. Ou seja, já não temos um bom ponto de partida. Inclusive, uma das fontes utilizadas pelo documento, o médico microbiologista Didier Raoult, foi denunciado, em julho de 2020, pela Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (SPILF) por promover o uso da hidroxicloroquina sem embasamento científico. É importante lembrar que Raoult foi um dos autores do polêmico estudo sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 na França. Após ser publicado, a pesquisa foi novamente revisada por pares, que encontraram diversas inconsistências no trabalho de Raoult. O médico microbiologista e o laboratório onde trabalha já foram acusados de erros flagrantes e má conduta em outros estudos, levando até à proibição de publicação pelo período de um ano em uma renomada revista de microbiologia.

Já outras fontes citadas no texto não sustentam uma ideia negacionista da doença e do vírus, assim como a médica e pesquisadora Lisa Brosseau. Em uma entrevista concedida a um site especialista em infecções e saúde, Lisa afirmou que conduziu estudos sobre máscaras e identificou que máscaras de pano não seriam a melhor opção para a população, uma vez que o nível de proteção é menor em relação às máscaras cirúrgicas. A pesquisadora defendeu que o incentivo ao uso da máscara de pano pode trazer uma falsa sensação de proteção e levar as pessoas a retomarem suas atividades normais e adotarem comportamentos de risco. Por outro lado, ela defende veementemente o distanciamento social e que as pessoas permaneçam em casa, caso seja possível. Ou seja, uma fala de Lisa Brosseau foi retirada de contexto. Além disso, já existem estudos científicos sobre a eficácia de cada tipo de máscara e eles indicam que o uso da máscara de pano ainda é mais seguro do que não usar nada.

O “manifesto”, entretanto, até traz estudos científicos publicados para embasar alguns apontamentos. O conteúdo, claro, é real e poderia nos ajudar a entender o comportamento do SARS-CoV-2 e também da doença, a Covid-19. Apesar disso, parece que o texto utiliza resultados de forma isolada para dar uma dimensão bastante errada sobre a doença. Como já dissemos em outros desmentidos, muitos posicionamentos são inflados por questões políticas e econômicas, se colocando acima da saúde pública. E é o que indica o texto de hoje, uma vez que fala de forma frequente em “reabertura da economia”, “não precisamos fechar nada” etc. Aqui no Boatos.org, já desmentimos histórias parecidas, como o caso dos médicos Por La Verdad e do médico alemão que negava o uso da máscara.

Assim como nesses casos, a tese defendida pela história de hoje não se sustenta. O primeiro ponto é a afirmação de que a pandemia é uma farsa e a Covid-19 não é uma doença séria. Atualmente, o mundo já soma mais de 38 milhões de infectados e mais de 1 milhão de mortes pela doença. São números maiores do que muitas doenças já conhecidas pela população. Dizer que a pandemia é uma farsa e que a Covid-19 não é uma doença séria é, no mínimo, irresponsável e de uma enorme falta de empatia por aqueles que morreram por causa da doença.

O segundo ponto é a afirmação de que máscaras não funcionam. A informação, é claro, é falsa. Sem uma vacina ou um tratamento adequado, o melhor que cada um pode fazer é se proteger e evitar a contaminação. Dessa forma, usar a máscara quando precisar sair de casa é primordial. Recentemente, um estudo que envolveu diversas instituições de ensino e de saúde dos EUA descobriu que as máscaras de pano possuem um alto grau de eficácia na contenção da propagação do novo coronavírus. Segundo a pesquisa, uma máscara de pano com duas camadas de algodão consegue filtrar em até 82% os aerossóis.

O terceiro ponto diz respeito à fraude no número de mortos por Covid-19. Se uma pessoa se contamina com o vírus, apresenta sintomas relacionados à doença que surgiu a partir dele e morre por conta dessa manifestação, então, a pessoa morreu por causa da doença, isto é, por Covid-19. Dizer que é impossível afirmar se uma pessoa morreu por causa da Covid-19 ou por alguma comorbidade é falso! A comorbidade, na maioria dos casos, é um fator que pode agravar a ação da Covid-19 no organismo. Se uma pessoa morre pela comorbidade e apresenta sintomas disso, assim será relatado. Essa história de fraude no número de óbitos já é antiga e foi desmentida pela equipe do Boatos.org em abril de 2020. Vale ressaltar que se existe alguma fraude em todo o processo, certamente é no número de casos, onde há subnotificação e, portanto, um relato menor do que o real.

O quarto ponto diz respeito ao suposto alarde que os governos estariam fazendo em relação à doença. O texto cita que, em outras situações parecidas, os países não fecharam escolas e não praticaram o isolamento social. Vamos pegar um exemplo: a Gripe Espanhola. No Brasil, de fato, o isolamento social não foi imposto, mas escolas, teatros e outros locais foram fechados. Mesmo assim, cerca de 0,11% da população brasileira foi dizimada pela doença. Além disso, comparar períodos diferentes também afirmando que “naquela época nem foi tão ruim assim” não é algo muito honesto. Sabemos que a situação de Primeira Guerra Mundial, quando ocorria a pandemia da Gripe Espanhola, impediu que os números fossem contabilizados da forma correta. A censura em muitos países também foi um impeditivo. Ou seja, os números reais são muito maiores do que os registrados.

O quinto ponto diz respeito sobre a afirmação de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) teria sido comprada pela China e que as vacinas são perigosas e ineficientes. Desde que a pandemia começou, escutamos diversas histórias falsas sobre a China. As acusações, em geral, sempre apontam que a China teria um plano maquiavélico para dominar o mundo. Pois bem, meses se passaram e ainda estamos esperando a revelação e concretização desse plano. Ao que tudo indica, nada saiu do papel e a história é pura balela. Já sobre as vacinas serem perigosas, a equipe do Boatos.org desmentiu essa história. Ao contrário do que aponta o texto, todos os testes estão sendo realizados de forma rígida e atendendo todo o processo científico. Ou seja, se ela for perigosa, sequer chegará à fase final de testes.

Por fim, algumas das pessoas citadas como “assinantes da petição” questionam o uso da máscara e também criticam as medidas protetivas adotadas pelos governos. Entretanto, como dissemos anteriormente, não é possível checar se, de fato, eles assinaram o abaixo-assinado, uma vez que basta colocar o nome completo e um e-mail qualquer para validar o apoio online.

Em resumo: a história que diz que milhares de cientistas e profissionais da saúde teriam provado que a Covid-19 é uma farsa é falsa! A história de hoje não passa de mais do mesmo. O texto usado pelo coletivo que está recolhendo as assinaturas está recheado de informações falsas e contestáveis, usando, inclusive, falas fora de contexto e fontes que estão sendo processadas por incitar o uso de medicamentos sem comprovação científica. Além de tudo, não se pode aferir se os “milhares de cientistas e profissionais da saúde”, de fato, assinaram a petição online. Isso porque o abaixo-assinado é público e, apesar da recomendação do coletivo, qualquer um pode assinar a petição, bastando informar um nome e um e-mail.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164.

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