Japão venceu a Covid-19 graças ao uso da ivermectina #boato

Boato – Associação de Médicos do Japão orienta o uso da ivermectina contra a Covid-19 e país consegue controlar a pandemia. 

Já estamos em 2021, quase dois anos depois do início da pandemia de Covid-19 e determinadas fake news ainda seguem circulando nas redes sociais e causando (muita) desinformação.

Uma delas é a história de que o medicamento antiparasitário conhecido como ivermectina seria eficaz no combate à Covid-19. Mesmo com diversos estudos científicos provando a falta de eficácia e enterrando de vez a teoria difundida na internet, a história segue sendo compartilhada (com diversas versões).

E de acordo com uma publicação que está fazendo sucesso nas redes sociais, o Japão teria vencido a Covid-19 após adotar o uso da ivermectina. Segundo a história, o presidente da Associação Médica de Tóquio teria orientado todos os médicos do país a usarem o medicamento. Ainda de acordo com a história, Satoshi Omura, japonês que recebeu o Nobel de Medicina, teria publicado um artigo em um periódico científico japonês recomendando o uso do medicamento. Segundo Confira:

“Enquanto isso no Japão, que adotou a Ivermectina, vida normal a todos e os pseudocientistas “incrédulos” começam a inventar qualquer motivo para a redução dos casos O presidente da Associação Médica de Tóquio falou para todos os médicos do Japão usarem a ivermectina contra a Covid. Basicamente disse um “não fode, galera, usa essa porra aí e resolve a parada”. Ao que parece, a ivermectina por lá virou questão de orgulho nacional.

O criador do medicamento, o japonês Satoshi Omura, agraciado com o Nobel de Medicina, publicou um artigo indicando o “remédio pra piolho” contra a COVID em um periódico científico japonês. O que aconteceu? O óbvio. Estão pertos de erradicar a doença na Terra do Sol Nascente. Basicamente a mesma coisa que acontece com todo lugar que usa o medicamento “sem comprovação científica” sistematicamente, como Uttar Pradesh, na Índia, alguns países da África e Chiapas, o estado mais pobre do México. Hoje saiu uma matéria na BBC Brasil. “O volume de casos diminuiu significativamente e hoje, enquanto vários países com percentual de vacinação semelhante lutam contra uma nova onda de infecções, o Japão registra pouco mais de 100 novas infecções por dia”. A reportagem do jornal britânico diz que a vitória japonesa contra a COVID é um mistério super misterioso, enigmático e levanta a “hipótese da auto-extinção”. Seja lá o que isso quer dizer. Falam de tudo, menos da recomendação do remédio pra vermes. Conto essa história só para falar que todos vocês estão presenciando, neste momento, o maior apagão jornalístico da história”.

Japão venceu a Covid-19 graças ao uso da ivermectina?

A informação rapidamente se espalhou pelas redes sociais, em especial, pelo Facebook e pelo WhatsApp. Apesar disso, a história não tem nada de verdade. A explicação fica pela falta de provas e pela falta de eficácia de ivermectina contra a Covid-19.

Como já falamos anteriormente, essa teoria já circula há algum tempo na internet. A equipe do Boatos.org já desmentiu dezenas delas, como a que dizia que o presídio de Alcaçuz não teria registrado mortes por Covid-19, porque tratou os presos com ivermectina. Também a que indicava que a União Europeia iria substituir a vacinação contra a Covid-19 pelo uso da ivermectina e, por fim, a que apontava que a Universidade de Oxford teria comprovado que a ivermectina reduz mortes por Covid-19 em 56% e teria salvo 250 mil pessoas no Brasil.

Ao ler a publicação, logo percebemos que a história se trata de um absurdo (sem pé e nem cabeça). Se existe algo que está comprovado, isso é a falta de eficácia da ivermectina no combate à Covid-19. Na realidade, toda a história começou em abril de 2020, após a divulgação de um estudo preliminar sobre a relação entre a ivermectina e a Covid-19. Na época, a Universidade de Monash, na Austrália, promoveu um estudo em laboratório para avaliar se a substância conseguiria agir contra o SARS-CoV-2 (o vírus que causa a Covid-19). Após realizarem testes in vitro (em células no laboratório), com uma dosagem que ultrapassa de 50 a 100 vezes a dose segura para um ser humano, os cientistas conseguiram eliminar o vírus em 48h. Em 17 de agosto de 2021, a Universidade divulgou uma atualização sobre o estudo. No comunicado, a instituição afirmou que os cientistas conseguiram novos financiamentos para realizar mais testes pré-clínicos (ou seja, em laboratório).

Segundo a nota, a intenção era determinar a dosagem mais adequada na fase pré-clínica. Ainda de acordo com a Universidade, os achados da pesquisa foram transformados em um artigo que, posteriormente, foi submetido a uma revista revisada por pares. Entretanto, até o momento, a publicação não foi feita. A instituição afirmou que só iria se pronunciar sobre o assunto após a divulgação dos resultados em um periódico científico. A Universidade e os cientistas envolvidos na pesquisa ainda desaconselharam a automedicação.

Se isso não bastasse, ao longo da pandemia, diversos estudos utilizados para embasar a teoria da ivermectina foram despublicados (por fraudes em dados) ou não foram aprovados em revistas científicas. Por outro lado, novos estudos mostraram que não existem evidências sólidas (como testes em humanos) para afirmar que a ivermectina funciona contra a Covid-19.

Além disso, uma pesquisa publicada no New England Journal of Medicine mostrou que a automedicação com ivermectina provocou diversos casos de intoxicação, levando as pessoas à UTI. Em Pernambuco, no Brasil, centenas de pessoas apresentaram um surto de sarna humana. De acordo com um estudo publicado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o caso pode ter relação com o uso indiscriminado de ivermectina. Segundo os pesquisadores, o uso sem orientação do medicamento pode causar resistência, gerando “super parasitas”.

Se isso não fosse suficiente, as histórias citadas na mensagem também são falsas. Aqui no Boatos.org já desmentiu a história de que a Índia teria controlado a pandemia com o uso da ivermectina. Como explicamos no desmentido, além da Índia intensificar a vacinação de seus habitantes, o país também parou de recomendar o uso da ivermectina para o tratamento da doença. A equipe do Boatos.org também desmentiu a história de que a África teria tido sucesso com o uso do medicamento. Assim como explicado no texto, a doença demorou a se espalhar no continente, por causa das medidas impostas no início da pandemia. Atualmente, a África enfrenta um dos piores surtos da Covid-19, resultado da baixa vacinação, que é explicada pelo monopólio das vacinas por parte dos países ricos, problemas na distribuição de imunizantes, falta de recursos para grandes campanhas de imunização e a falta de uma estratégia clara (o que gera desconfiança e uma ideia de que se vacinar fora dos surtos da doença não é algo necessário, uma vez que a doença “já passou”). Já o México tem adotado ações bastante parecidas com o Brasil quanto à obrigatoriedade da vacina e os passaportes de imunização. O governo do país não tornou obrigatória a imunização e nem adotou o passaporte vacinal. A vacinação atingiu apenas metade da população e o número de mortos já chega a quase 300 mil. Entretanto, em março de 2021, o próprio governo do México admitiu que há subnotificações e o número real pode ser 60% maior do que o divulgado.

Por fim, a história se espalhou em inglês nas redes sociais. A publicação acabou desmentida por vários serviços de checagem, como o Full Fact, da Inglaterra; o Fact Check, dos EUA; o USA Today, dos EUA; e a Forbes, dos EUA. Como bem lembrado por todos os sites, a Covid-19, até o momento, não tem cura. O que existem são vacinas para evitar mortes e casos graves e medicamentos para evitar mortes pela doença. Os serviços também destacaram que, em setembro de 2021, o governo do Japão suspendeu a aplicação de quase 2 milhões de doses da vacina Moderna, após o órgão regulatório identificar um contaminante em um frasco do imunizante. Apesar disso, a vacinação não foi suspensa, porque o país autorizou o uso das vacinas da Astrazeneca e da Pfizer. E é claro que os serviços de checagem também foram categóricos sobre o uso da ivermectina: o medicamento não possui eficácia e nunca foi aprovado como tratamento no Japão.

Em resumo: a história que diz que o Japão venceu a pandemia usando a ivermectina como tratamento é falsa! Ao contrário do que prega a história, o Japão nunca suspendeu a vacinação. Em setembro de 2021, o governo suspendeu a aplicação de doses da vacina da Moderna, após identificar uma contaminação. Mas o país ainda faz uso das vacinas da Astrazeneca e da Pfizer, nunca suspendendo sua campanha de imunização. Além disso, a ivermectina nunca foi autorizada como opção de tratamento no país. Se isso não bastasse, diversos estudos já comprovaram que o medicamento não possui eficácia contra a Covid-19. Ou seja, a história não passa de balela.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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