Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) repassa orientações da Fiocruz sobre o coronavírus #boato

Boato – O Complexo Hospitalar de Niterói enviou um e-mail para a Dra. Sandra Mara com informações da Fiocruz sobre o coronavírus. O CHN disse, entre outras coisas, que o vírus é maior do que o normal e que não se propaga no ar.

Quando falamos de fake news relacionadas à pandemia da Covid-19, o que não faltam são histórias que, depois de uma pequena modificação, voltam a circular online. É o caso da história de hoje, que cita o Complexo Hospitalar de Niterói (também chamado de CHN).

Uma imagem de um suposto e-mail enviado pelo “setor de infectologia” do hospital à “Dra. Sandra Mara” aponta que a Fiocruz fez diversas orientações sobre o coronavírus. Entre as informações, estariam a de que o coronavírus é “maior do que normal”, que não se propaga no ar, que não sobrevive a temperaturas maiores do que 26 ºC etc. Leia a mensagem que circula online:

CHN – Complexo hospitalar de Niterói. Para médicos e profissionais da área de saúde da casa: Setor de infectologia. Para setor de neurofisiologia. Dra. Sandra Mara. Com a preocupação de informar os nossos profissionais, sem assustar e esclarecer as dúvidas, o CHN repassa as informações da Fiocruz – Centro de Pesquisa e Tecnologia contra Epidemias. Orientações da Fiocruz sobre Coronavírus:

O Corona vírus é maior do que o normal; o diâmetro da célula é de 400 a 500 mícrons e, por esse motivo, qualquer máscara impede a sua entrada no organismo. O vírus não se propaga no ar. O coronavírus, quando cai sobre uma superfície de metal, permanece vivo durante 12 horas. Lavar as mãos com água e sabão é suficiente para o destruir.

O corona vírus quando cai sobre num tecido, permanece vivo durante 9 horas, portanto, lavar a roupa ou colocá-la ao sol durante 2 horas, será suficiente para o eliminar. O vírus só vive nas mãos durante 10 minutos. Assim, usar um desinfetante em gel também o eliminará. O vírus exposto a uma temperatura de 26 a 27 ° C morre.

A água que esteja exposta ao sol poderá ser consumida sem qualquer perigo. Evitar comer gelados ou pratos frios; os alimentos quentes são mais seguros, visto que o calor elimina o vírus. Gargarejar com água morna ou salgada mata os vírus que se alojem nas amígdalas e evita que passem para os pulmões. Algumas medidas são suficientes para evitar a ocorrência e propagação do vírus em qualquer parte do mundo.

Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) repassou orientações da Fiocruz sobre o coronavírus?

A mensagem que usa o nome da instituição se espalhou com muita força na internet. Mas será mesmo que o Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) repassou as tais orientações da Fiocruz sobre o coronavírus? A resposta é não. Calma aí que a gente explica tudo para vocês.

Como falamos lá no início do texto, essas “dicas” (que estão erradas) sobre o coronavírus já circularam muito na internet. Já tivemos que desmentir histórias relacionadas ao mesmo texto em quatro oportunidades. A mensagem já foi atribuída a “médicos de Wuhan”, “Hospital de Stanford”, “Unicef” e “Fiocruz”. Veja o que escrevemos em relação ao último boato e já voltamos aqui:

1 – O primeiro elemento que nos chama atenção é que o que fala sobre a sobrevivência do coronavírus (Covid-19) em temperaturas de 26 ºC ou 27 ºC. Apesar de, realmente, os coronavírus (como o Covid-19 ou o vírus da SARS) não sobreviverem a altas temperaturas, a informação não procede. O primeiro motivo é lógico: se os vírus morressem com 27 ºC, eles não sobreviveriam à temperatura corporal (em média de 36 ºC).

Ainda não há consenso de qual a temperatura que pode matar o coronavírus. Este pesquisador (que fala sobre a questão da água, que será abordada mais à frente) diz que o coronavírus morre a 56 ºC depois de 30 minutos. Esse outro estudo fala que, em superfícies, o coronavírus “morre em algum tempo” a mais de 30 ºC (mas não instantaneamente). Nada encontramos sobre 26 ou 27 ºC.

2 – Essa parte da mensagem parte de um pressuposto que toda infecção por coronavírus se torna pneumonia. A letalidade da doença, que está em um nível de 2 a 3%, já prova que não é “todo caso” que vira pneumonia. Apenas quem está imunodeprimido ou é idoso sofrem maiores consequências.

3 – Essa parte acerta ao recomendar lavar as mãos e não tocar os olhos e a boca. Essa dica você pode seguir.

4 – Apesar de o cuidado com superfícies ser uma dica importante, ainda não se sabe quanto tempo o vírus sobrevive externamente (isso depende de outros fatores). Também não achamos nada sobre o metal ser mais propício ao coronavírus do que em outras superfícies. Esse estudo não faz distinção do tipo de superfície.

5 – Essa é a parte central do boato. Beber água quente ou chá quente não mata o vírus. No artigo que fala em 56 ºC por 30 minutos matar o coronavírus aponta que ninguém consegue ficar tanto tempo exposto à água quente neste temperatura.

Há mais uma detalhe nesta última versão da história. Também está errada a informação que aponta que gargarejar água morna mata o coronavírus. Como apontam a OMS e o Ministério da Saúde, ainda não há uma cura para a doença.

Outro ponto: a informação que aponta que a célula do coronavírus é “maior do que o normal” também está errada. De acordo com o Africa Check, o Covid-19 não é “uma célula” e sim um agente infeccioso que invade células de organismos vivos. O tamanho dele é “como o da Sars”.

Agora, vamos à segunda parte: a que fala da autoria. Como era de se imaginar, não há qualquer informação sobre a Fiocruz endossar o texto em questão. A Fiocruz, em seu site oficial, endossa as orientações do Ministério da Saúde, que, por sinal, são contrárias a da mensagem que circula online.

Vale dizer mais duas coisas. A primeira é que, depois que desmentimos a versão do boato que é atribuída à Fiocruz, a Fundação fez um desmentido da história. Leia o que foi escrito no site oficial da instituição:

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) esclarece que é falsa a mensagem que vem circulando no WhatsApp e em redes sociais, atribuída à instituição, com orientações de como se proteger contra a Covid-19.

Abaixo reproduzimos as informações falsas divulgadas na mensagem e os seus respectivos esclarecimentos:

O coronavírus é maior do que o normal; o diâmetro da célula é de 400 a 500 nanômetros e, por esse motivo, qualquer máscara impede a sua entrada no organismo. FALSO, as máscaras comuns têm poros bem maiores do que isso. O uso de máscara é recomendado apenas em alguns casos. Veja mais detalhes mais nossas perguntas e respostas.

O coronavírus, quando cai sobre uma superfície de metal, permanece vivo durante 12 horas. Lavar as mãos com água e sabão é suficiente para destruí-lo. FALSO, as pesquisas até o momento indicam que o vírus sobrevive por mais tempo nas superfícies, mas lavar as mãos com frequência é realmente um modo correto de evitar sua propagação. Leia mais em nossas perguntas e respostas.

O coronavírus, quando cai sobre um tecido, permanece vivo durante nove horas, portanto, lavar a roupa ou colocá-la ao sol durante duas horas será suficiente para eliminá-lo. FALSO, as roupas usadas por doentes, pessoas que cuidam deles ou têm contato têm de ser lavadas após cada uso, com os devidos cuidados para protegem quem as manipula antes da lavagem.

O vírus só vive nas mãos durante 10 minutos. Assim, usar um desinfetante em gel também o eliminará. FALSO, o vírus pode durar mais. É fundamental lavar as mãos com frequência. Leia mais em nossas perguntas e respostas.

O vírus exposto a uma temperatura de 26° C a 27° C morre. FALSO, não há comprovação científica sobre isso.

A água que esteja exposta ao sol poderá ser consumida sem qualquer perigo. FALSO, não há embasamento científico sobre isso – e água parada pode ser foco de outras doenças, como a dengue.

Evitar comer gelados ou pratos frios; os alimentos quentes são mais seguros, visto que o calor elimina o vírus. FALSO, não há qualquer comprovação científica disso. A alimentação saudável é importante, independentemente da temperatura.

Gargarejar com água morna ou salgada mata os vírus que se alojam nas amígdalas e evita que passem para os pulmões. FALSO, não há comprovação científica sobre isso. Leia mais em nossas perguntas e respostas.

A Fiocruz reforça a importância de compartilhar informações de fontes confiáveis e seguras. No Portal Fiocruz é possível encontrar notícias e orientações sobre a doença e sobre o vírus: fiocruz.br/coronavirus

A segunda informação é que o próprio CHN desmentiu que tenha enviado qualquer e-mail com as orientações descritas na mensagem. Leia o que o Completo Hospitalar de Niterói escreveu em sua página oficial do LinkedIn:

O comunicado que está circulando em alguns grupos de WhatsApp e redes sociais, com o título “Para médicos e profissionais da área de saúde da casa”, não foi emitido pelo Complexo Hospitalar de Niterói (CHN).

Trata-se de fake news, com o uso indevido da logomarca do CHN. As providências para rastrear a origem dessa informação inverídica já estão em curso.

Todas as informações educativas elaboradas para a população sobre o coronavírus estão disponíveis nas redes sociais do hospital. Já as equipes de assistência recebem orientação e atualização constantes, pautadas nas recomendações oficiais dos órgãos sanitários.

É lamentável que, num momento de grande apreensão e cuidado com a saúde da população, pessoas levianas tentem disseminar informações falsas.

O CHN permanece adotando o protocolo de proteção indicado pelos órgãos de saúde, para garantir a segurança do ambiente hospitalar, tanto para seus pacientes como para suas equipes de assistência e toda a população.

Resumindo: a história que aponta que o Complexo Hospitalar de Niterói compartilhou informações da Fiocruz sobre o coronavírus é falsa em três níveis. As informações contidas no texto são falsas, a Fiocruz não escreveu o texto e o CHN não compartilhou nada.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99177-9164. 

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet