Diretoria do hospital de Stanford divulga mensagem sobre o novo coronavírus #boato

Boato – A diretoria do hospital de Stanford publicou uma mensagem com recomendações sobre o novo coronavírus como fazer um teste prendendo a respiração, beber água a cada 15 minutos e beber chá quente.

Desde o dia 11 de março de 2020, a situação do novo coronavírus chegou a um novo patamar. Depois de a OMS declarar pandemia mundial, as autoridades estão mais apreensivas em relação ao novo coronavírus e mensagens que circularam lá na primeira fase da doença (quando tomou conta da China) voltaram a circular com uma “roupagem nova”. É o caso de hoje.

De acordo com uma mensagem que está circulando na internet, a diretoria do hospital de Stanford (localizado nos EUA) divulgou um longo documento que apontaria para dicas para combater o novo coronavírus. As principais informações são três. 1) Que é possível fazer um autoteste do coronavírus prendendo a respiração por 10 segundos. 2) Que é possível se prevenir do vírus tomando água de 15 em 15 minutos. 3) Que o vírus não sobrevive a temperaturas maiores de 26 ºC. Leia a mensagem que circula online:

Atenção! Não acredite em cura milagrosa do novo coronavírus

Atenção: Mensagem interna da diretoria do hospital de Stanford: O novo Coronavírus pode não mostrar sinais de infecção por muitos dias. Como alguém pode saber se está infectado? Quando se chega ao ponto de ter febre e/ou tosse e ir ao hospital, o pulmão geralmente já tem 50% de fibrose e é tarde demais. Os especialistas de Taiwan fornecem uma verificação simples que podemos fazer todas as manhãs: respire fundo e prenda a respiração por mais de 10 segundos. Se você conseguir completá-lo sem tossir, sem desconforto, rigidez ou aperto, etc., isso prova que não há fibrose nos pulmões, basicamente indica que não há infecção. Neste momento crítico, examine-se todas as manhãs num ambiente com ar limpo e siga os conselhos sérios dos médicos japoneses que tratam os casos de COVID-19: todos devem garantir que sua boca e garganta estejam úmidas e nunca secas.

Tome alguns goles de água a cada 15 minutos, pelo menos. Por quê? Mesmo que o vírus entre na sua boca, a água potável ou outros líquidos os lavarão pela garganta e pelo estômago. Uma vez lá, o ácido do estômago matará todo o vírus. Se você não beber água suficiente com mais regularidade, o vírus pode entrar na traquéia e entrar nos pulmões. Isso é muito perigoso.

IMPORTANTE: 1. Se você tem corrimento nasal e escarro, tem resfriado comum 2. A pneumonia por coronavírus é uma tosse seca, sem coriza. 3. Este novo vírus não é resistente ao calor e será morto a uma temperatura de apenas 26/27 graus. Odeia o sol. 4. Se alguém espirrar com ele, leva cerca de três metros para cair no chão e não está mais no ar. 5. Se ele cair em uma superfície de metal, ele permanecerá por pelo menos 12 horas – portanto, se você entrar em contato com qualquer superfície de metal – lave as mãos o mais rápido possível com sabão bacteriano. 6. No tecido, ele pode sobreviver por 6 a 12 horas. detergente para a roupa normal irá matá-lo. 7. Beber água morna é eficaz para todos os vírus. Tente não beber líquidos com gelo. 8. Lave as mãos com freqüência, pois o vírus só pode sobreviver por 5 a 10 minutos, mas – muita coisa pode acontecer durante esse período – você pode esfregar os olhos, enfiar o nariz inconscientemente e assim por diante. 9. Você também deve gargarejar como prevenção. Uma solução simples de sal em água morna será suficiente. 10. Não é possível enfatizar o suficiente – beba bastante água!

OS SINTOMAS: 1. Ele primeiro infecta a garganta, então você terá uma dor de garganta com duração de 3/4 dias 2. O vírus então se mistura a um líquido nasal que entra na traquéia e depois nos pulmões, causando pneumonia. Isso leva cerca de 5/6 dias a mais. 3. Com a pneumonia vem febre alta e dificuldade em respirar. 4. A congestão nasal não é do tipo normal. Você sente que está se afogando. É imperativo que você procure atenção imediata. (COMPARTILHE COM A FAMÍLIA E OS AMIGOS)

Diretoria do hospital de Stanford divulgou mensagem sobre o novo coronavírus?

A mensagem se espalhou muito pela internet e chamou atenção das pessoas. Mas será mesmo que o hospital de Stanford publicou as tais dicas e será mesmo que essas informações procedem? A resposta é não. Calma aí que a gente explica tudo para vocês.

Um detalhe apenas já derruba toda a tese que está descrita na mensagem. Antes de circular como se fosse do “hospital de Stanford”, a primeira parte da mensagem foi desmentida aqui no Boatos.org sem assinatura alguma. Já a segunda parte da mensagem tinha, inicialmente, a assinatura de “um médico de Wuhan”. Ou seja: a mensagem que circula como se fosse do hospital de Stanford já circulou com “outros autores por aí”.

Vale dizer que, só por desencargo de consciência, resolvemos buscar informações para saber se alguém do hospital endossava a informação. Como desconfiávamos, a resposta também era não. Tanto que a história foi desmentida pela instituição aqui.

Já falamos da autoria. Agora, vamos ao conteúdo. Como esses temas já foram tratados aqui, veja o que escrevemos em relação às teses que estão na mensagem:

1) Em relação à primeira parte do texto:

De cara, a mensagem já nos causa desconfianças. Ela, assim como tantas outras relacionadas à doença (e que podem ser vistas no vídeo), tem características de boatos online como ser vaga (não diz sequer quem são os médicos), alarmistas, com erros de português, pedido de compartilhamento e não cita fontes confiáveis.

Ao buscar pelas recomendações apresentadas na mensagem, nada encontramos nas cartilhas da OMS ou do Ministério da Saúde. Como não existe uma cura para a doença, as principais recomendações de prevenção são relacionadas à higiene e, no caso de suspeita de doença, à busca por autoridades médicas.

Buscando mais sobre o assunto, descobrimos que, em Taiwan (local no qual são citados os médicos em questão), a história foi desmentida pelo Centro de Verificação de Fatos de Taiwan (uma associação criada por jornalistas locais para checar informações na internet).

Após consultar médicos locais, o site em questão apontou que a mensagem contém diversos erros. O primeiro está em apontar o pulmão apresenta “fibrose sem aviso prévio no caso do coronavírus”. Um médico consultado disse que “é impossível não apresentar sintomas”. Também é errado dizer que “50% dos pulmões se mostraram fibróticos no caso do coronavírus”.

Saindo um pouco do artigo de Taiwan, é importante ressaltar que, apesar de causar uma preocupação mundial (justamente por ser um vírus novo), o coronavírus não tem mostrado uma taxa de letalidade alta. A letalidade tem se mostrado nos mesmos níveis da gripe comum.

Voltando ao artigo de checagem de Taiwan, os médicos locais não só reforçaram que não existiu recomendação em relação ao “método de respirar fundo” como também apontaram que desconhecem a tal técnica. Para julgar se um pulmão está fibrótico (seja por coronavírus ou outro motivo), é preciso ir a um hospital e fazer exames específicos.

A segunda parte do boato foi desmentida neste outro artigo de checagem, da AFP Fact Check. Assim como apontamos, o serviço de checagem da agência de notícias não achou nenhuma recomendação em fontes confiáveis sobre o assunto.

2) Sobre a segunda parte do texto:

É importante citar que dois fatores já nos deixam desconfiados da veracidade da informação. O primeiro deles está nas características da mensagem (vaga, alarmista, com erros de português, com pedido de compartilhamento e sem citar fontes confiáveis). Além disso, histórias falsas relacionadas ao coronavírus são comuns na internet.

Quando começamos a buscar por mais detalhes, nossas desconfianças viraram certezas. Ao buscar sobre o assunto, descobrimos que o texto que está viralizando no Brasil é uma versão reduzida de outro viral no WhatsApp muito mais rebuscado (que está como “versão 2” acima e que, se for preciso, trataremos dele por aqui).  Como o texto está em tópicos, vamos desmentir também em tópicos.

1 – O primeiro elemento que nos chama atenção é que o que fala sobre a sobrevivência do coronavírus (Covid-19) em temperaturas de 26 ºC ou 27 ºC. Apesar de, realmente, os coronavírus (como o Covid-19 ou o vírus da SARS) não sobreviverem a altas temperaturas, a informação não procede. O primeiro motivo é lógico: se os vírus morressem com 27 ºC, eles não sobreviveriam à temperatura corporal (em média de 36 ºC).

Ainda não há consenso de qual a temperatura que pode matar o coronavírus. Este pesquisador (que fala sobre a questão da água, que será abordada mais à frente) diz que o coronavírus morre a 56 ºC depois de 30 minutos. Esse outro estudo fala que, em superfícies, o coronavírus “morre em algum tempo” a mais de 30 ºC (mas não instantaneamente). Nada encontramos sobre 26 ou 27 ºC.

2 – Essa parte da mensagem parte de um pressuposto que toda infecção por coronavírus se torna pneumonia. A letalidade da doença, que está em um nível de 2 a 3%, já prova que não é “todo caso” que vira pneumonia. Apenas quem está imunodeprimido ou é idoso sofrem maiores consequências.

3 – Essa parte acerta ao recomendar lavar as mãos e não tocar os olhos e a boca. Essa dica você pode seguir.

4 – Apesar de o cuidado com superfícies ser uma dica importante, ainda não se sabe quanto tempo o vírus sobrevive externamente (isso depende de outros fatores). Também não achamos nada sobre o metal ser mais propício ao coronavírus do que em outras superfícies. Esse estudo não faz distinção do tipo de superfície.

5 – Essa é a parte central do boato. Beber água quente ou chá quente não mata o vírus. No artigo que fala em 56 ºC por 30 minutos matar o coronavírus aponta que ninguém consegue ficar tanto tempo exposto à água quente neste temperatura.

Também é importante citar que tanto a OMS como o Ministério da Saúde desmentiram informações que apontam que chás curam o coronavírus. Isso também já foi tratado em outros desmentidos no Boatos.org (leia aqui e aqui).

Resumindo: não só o hospital de Stanford não publicou nenhuma informação a respeito do coronavírus como também as informações que circulam na mensagem que está por aí são falsas. Não acredite e não compartilhe.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99177-9164. 

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet

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