O melhor de 2021 no Boatos.org, por Kyene Becker

Na quarta parte da nossa retrospectiva das fake news, Kyene Becker lista as cinco notícias falsas que mais chamaram a sua atenção em 2021. 

De longe, o ano de 2021 não foi nada daquilo que boa parte dos brasileiros esperava. Após um ano intenso, marcado pelo luto e pelo medo causados por uma pandemia que afetou o mundo inteiro, muita gente esperava o retorno do “antigo normal”.

A normalidade veio em partes, depois da terceira onda da Covid-19 deixar mais de 600 mil mortos no Brasil. A vacina trouxe esperança e possibilitou o retorno de muitas atividades, mas as fake news seguiram dificultando as coisas.

Ao longo de 2021, as histórias falsas não só causaram desinformação, como também colocaram a vida de muitas pessoas em risco. Em especial, as fake news sobre as vacinas (que dominaram a internet neste ano). Para relembrar as principais histórias falsas de 2021, a equipe do Boatos.org preparou uma lista especial. Vem conferir a minha!

Confira o vídeo da Retrospectiva 2021

Confira também:

Página da Retrospectiva 2021 das fake news

#5 – Brasil está em alerta vermelho com greve de caminhoneiros, falta de remédios e guerra com a China #boato

Ao longo de 2021, as fake news falaram sobre diversas coisas, como a pandemia da Covid-19, as vacinas contra a doença, supostos feitos do presidente Jair Bolsonaro e as descobertas da sonda Perseverance, em Marte. Mas se existe um tipo de história falsa que causou preocupação nos brasileiros e que vem se repetindo nos últimos anos, essa é a fake news sobre greves de caminhoneiros e suas implicações.

Neste ano, não foi diferente. Uma história que indicava que o Brasil entraria em alerta vermelho com uma suposta greve de caminhoneiros, que causaria a falta de remédios e de mantimentos, e começaria uma greve contra a China circulou nas redes sociais na véspera do feriado do dia 7 de setembro. O áudio que acompanhava a publicação afirmava que o Brasil estava em um estado iminente de guerra e que as pessoas deveriam estocar remédio e comida, porque os caminhoneiros iriam parar e apoiar o Brasil.

Muitas pessoas ficaram preocupadas e algumas até chegaram a comprar mais medicamentos e alimentos do que o necessário. Apesar disso, a história não passou de balela. Além do Brasil nunca ter ficado em estado de guerra (naquele momento), os protestos (que deram origem à fake news) foram superdimensionados. Se isso não bastasse, na época, os principais representantes dos caminhoneiros já haviam informado que não participariam de nenhuma manifestação. No final das contas, os protestos foram pontuais e a tal greve dos caminhoneiros não foi para frente. Para mais detalhes sobre a história, clique aqui.

#4 – Bolsonaro ganha selo de honestidade durante reunião do G20 #boato

Nem só de pandemia vivemos em 2021. Apesar do assunto ter dominado (novamente!) o debate público, alguns eventos mundiais também chamaram a atenção da população brasileira. Um exemplo foi o primeiro encontro presencial do G20, após o início da pandemia da Covid-19. O momento foi bastante esperado pelas principais lideranças do mundo, mas não pelo presidente Jair Bolsonaro. Com uma agenda vazia, Bolsonaro teve apenas duas reuniões bilaterais e deixou de participar do tradicional passeio com outros líderes do G20.

O desprestígio internacional e as críticas por parte dos veículos de comunicação do mundo todo colocaram o exército online de Bolsonaro para trabalhar. Durante o encontro do G20, uma publicação a favor do presidente do Brasil começou a circular nas redes sociais. De acordo com ela, Bolsonaro teria ganhado um selo de honestidade ao longo de uma reunião entre os líderes do G20.

Apesar do anseio dos seguidores do presidente Jair Bolsonaro, a história passou longe da realidade. A publicação se baseava em um vídeo do presidente da Caixa. Uma pesquisa reversa mostrou que o vídeo original foi publicado no dia 22 de maio de 2021 (beeeeeem antes do encontro dos líderes do G20). Além disso, o vídeo falava sobre um suposto selo concedido à Caixa Econômica. E nem precisamos falar que o tal selo de honestidade do G20 não existe, né? Para mais detalhes sobre a história, clique aqui.

#3 – Nebulização caseira com bicarbonato de sódio e água oxigenada previne e cura Covid-19 #boato

Muita gente esperava que o ano de 2021 fosse diferente de 2020 em relação à pandemia da Covid-19. Infelizmente, em muitos aspectos, a situação foi igual. Dentre eles, as fake news. Com o desenvolvimento das vacinas e de campanhas intensas de vacinação, se esperava que alguns tipos de histórias falsas acabassem. Por exemplo, o caso de tratamentos alternativos.

Não só não acabaram, como trouxeram teorias cada vez mais malucas e perigosas. De acordo com uma publicação que circulou bastante nas redes sociais, fazer nebulização caseira com bicarbonato de sódio e água oxigenada poderia ajudar a prevenir e curar a Covid-19. A história ganhou ainda mais proporção, porque o vídeo que acompanhava a publicação mostrava um médico ensinando a realizar o procedimento.

Após a checagem, foi possível constatar que nem o bicarbonato de sódio e nem a água oxigenada possuem comprovação científica para o tratamento da Covid-19. Além disso, Conselhos de Enfermagem e a própria Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia alertaram para o uso de nebulizadores em portadores de Covid-19. De acordo com as instituições, realizar nebulizações em pessoas infectadas requer cuidados, pois o procedimento gera micropartículas que podem levar o vírus ao pulmão e ao restante do ambiente. Para mais detalhes sobre a história, clique aqui.

#2 – Moeda gruda no braço de quem tomou vacina contra Covid-19 #boato

Sem dúvida alguma, o ano de 2021 foi marcado por fake news sobre as vacinas. No início do ano, muita gente vivia a esperança da imunização e a possibilidade da volta do “antigo normal”. A vacinação em massa começou. Mas com ela, uma onda de desinformação contra os imunizantes. Tivemos histórias que falavam em substâncias tóxicas e até em vírus e doenças que supostamente estariam presentes nos frascos dos imunizantes.

Mas uma das fake news que mais circulou sobre o assunto e deixou muita gente preocupada foi a história que dizia que seria possível grudar uma moeda no local da aplicação da vacina contra a Covid-19. De acordo com a informação falsa, as vacinas contra a Covid-19 seriam capazes de criar campos magnéticos devido a presença de algumas substâncias, como chumbo, líquido magnético e nanopartículas.

Na realidade, a história não passava de balela. A informação acabou desmentida em diversos serviços de checagem nos Estados Unidos. Segundo especialistas, seria impossível acrescentar esse tipo de substância em uma vacina e não ser identificado. Além disso, os especialistas também destacaram que a maioria dos alimentos que ingerimos são feitos de moléculas semelhantes às vacinas e ao próprio corpo humano. Então, seria impossível uma moeda grudar no braço de uma pessoa por causa de uma vacina. E é claro que a equipe do Boatos.org também testou a teoria do uso do suor, que funcionou perfeitamente. Para mais detalhes sobre a história, clique aqui.

#1 – Áudio da “bióloga Mônica Travassos” sobre variante Ômicron acerta ao falar sobre casos, mortalidade e prevenção #boato

O ano de 2021, assim como o de 2020, foi inundado por informações falsas sobre a Covid-19. A sensação de segurança, proporcionada pela vacinação, levou muitas pessoas a abandonarem outras medidas de proteção, como o uso da máscara. Entretanto, muitos países enfrentaram dificuldades em imunizar sua população por conta das fake news sobre as vacinas. Além disso, muitos países também tiveram problemas com a desigualdade na distribuição dos imunizantes. Isso levou ao aparecimento da variante Ômicron, que é resistente às vacinas atuais.

O assunto, que apareceu no final de novembro de 2021, levou à disseminação de inúmeras fake news. Dentre elas, a história que dizia que a bióloga Mônica Travassos teria gravado um áudio onde acertava ao falar sobre os casos, a mortalidade e a prevenção contra a nova cepa da doença. No áudio, a mulher se apresentava como doutora, indicava que a  variante Ômicron era tão mortal quanto a Covid-19 e afirmava que todo o litoral do país já apresentava casos da nova variante.

Na realidade, a bióloga e doutora Mônica Travassos não existe. Não encontramos nenhuma referência à mulher no banco de dados do Cadastro Nacional de Biólogos ou em programas de pós-graduação. Além disso, na época, apenas 6 casos da variante Ômicron tinham sido registrados no Brasil. Se isso não bastasse, depois de semanas com a nova cepa circulando, não existem evidências de que a variante Ômicron seja mais mortal que outras variantes, como a Delta e a Gama. Para mais detalhes sobre a história, clique aqui.