Rita Lee escreve texto que começa com “Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor” #boato

Boato – Em texto, Rita Lee critica o poder masculino sobre o corpo das mulheres e faz desabafo emocionante. Texto começa com o trecho “Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor”.

Nos últimos anos, temos percebido que, apesar das inúmeras conquistas por conta da pressão feminina, o mundo está longe de se ver livre do machismo (ou do poder masculino) sobre a vida das mulheres.

Isso traz consequência graves, seja pela construção de relacionamentos abusivos ou até dinâmicas dentro de uma relação que levam a mulher à morte. E eu não estou falando apenas de relações amorosas, mas também de familiares e “amigos”. Infelizmente, muitos homens ainda vêem as mulheres como uma posse e, dessa forma, pensam ter controle sobre seus corpos e suas ações.

E parece que uma artista bastante famosa resolveu evidenciar essa triste situação com uma crítica na internet. De acordo com uma história que está circulando nas redes sociais, a cantora Rita Lee teria escrito um texto o poder dos homens sobre o corpo das mulheres. O texto, supostamente escrito pela cantora, começa com “eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor”. Confira:

“RITA LEE- mais uma vez, dizendo muito! “Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais Virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos Bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres? Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem iirresistíveis diante dos homens. E, com isso,Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres – as baixinhas, as gordas, as de óculos – um sentimento de perda de auto-estima”. […]

Rita Lee escreve texto que começou com “Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor”?

Pois bem, apesar da mensagem ser bastante real, atual, comovente e poderia muito bem ter sido escrita por Rita Lee, a verdade é que o texto não foi feito pela cantora.

Basta ler a publicação para entender. De cara, você identifica algumas características de fake news na internet. A publicação é vaga (apenas mostra o texto e diz que ele foi escrito pela cantora. Sem mais, nem menos), alarmista e não possui fonte confiável.

Além disso, não é novidade para ninguém a existência de textos com autorias falsas circulando nas redes sociais. A equipe do Boatos.org já desmentiu inúmeras histórias como essa, como a que dizia que o jornalista Luís Ernesto Lacombe teria escrito o texto “estamos aprendendo: Covid-19 um vírus muito louco”. Também a que indicava que Fernando Pessoa teria escrito um texto sobre amizade e amigos loucos e santos e, por fim, a que apontava que Alexandre Garcia teria feito um texto desejando que “Bolsonaro caia logo e não deixe Mourão assumir”.

Não foi preciso ir muito longe para descobrir a verdade sobre a autoria do texto. Ao buscar por um trecho da publicação na internet, descobrimos que o texto foi escrito pela escritora Heloneida Studart e publicado, originalmente no Jornal do Brasil, em 2001. O título original do texto é “O poder desarmado”. Heloneida Studart nasceu em Fortaleza (CE), em 1095. Desde cedo, era apaixonada pela literatura e adorava escrever.

Foi alfabetizada de forma clandestina, estudou em segredo para que sua mãe não descobrisse, foi aprovada em um concurso para o Ministério da Fazenda, enfrentou sua família (que não aprovava que ela se tornasse uma mulher pública e que trabalhasse fora de casa) e até chegou a ser presa durante a Ditadura Militar. Junto com suas amigas, Heloneida ainda fundou a primeira entidade feminista no Brasil: o Centro da Mulher Brasileira (CMB). A partir daí, se dedicou a escrever, ainda mais profundamente, sobre a condição da mulher no país e seus corpos. Em 1978, se elegeu deputada estadual e, em 1988, ajudou a fundar o PSDB. A escritora morreu em 2007, vítima de uma parada cardíaca.

Por fim, vale ressaltar que o texto não faz lá muito sentido. Rita Lee nasceu e cresceu em São Paulo (SP) e não em Fortaleza (CE). Ou seja, não teria como a cantora observar tudo aquilo descrito no texto se não morasse na cidade cearense.

Em resumo: a história que diz que Rita Lee escreveu o texto “eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor”, falando sobre o poder masculino sobre o corpo das mulheres é falsa! O texto, ao contrário do que indica a publicação, foi feito pela escritora Heloneida Studart. Ele foi publicado, originalmente, em 2001, com o título “O poder desarmado”, no Jornal do Brasil. Heloneida Studart nasceu e cresceu em Fortaleza (CE) e tem vários trabalhos falando sobre a condição da mulher e seus corpos. Rita Lee sequer cresceu em Fortaleza (CE). A cantora é paulistana. Ou seja, a história não passa de balela. Até a próxima!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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