Ken Frazier, da Merck, disse que pressa para vacinar é para liberar o carnaval brasileiro #boato

Boato – Para presidente da Merck, Ken Frazier, Brasil só tem pressa para vacinar população por causa do Carnaval 2021 e por questões meramente financeiras. 

E seguimos de vacina! Como já falamos anteriormente, a corrida pela liberação da primeira vacina contra a Covid-19 está a todo o vapor. Já temos algumas boas candidatas e todo o processo de desenvolvimento do imunizante está acontecendo em tempo recorde.

Apesar disso, nem tudo são flores. Muitas pessoas andam criticando o trabalho feito pelos pesquisadores, seja por puro preconceito (devido à origem de determinada vacina) ou meio por acreditar em fake news absurdas sobre o assunto (como a mudança do DNA).

Nos últimos dias, uma história, em particular, tem feito sucesso nas redes sociais. De acordo com a publicação, o presidente da farmacêutica alemã Merck, Ken Frazier, teria afirmado que a pressa para vacinar a população brasileira seria meramente financeira. O motivo? Segundo o texto, Ken Frazier teria dito que a pressa estaria relacionada com a liberação do Carnaval 2021 e que os agentes de saúde estariam mentindo “criminosamente” para o povo brasileiro. Confira:

“Prometer vacina para Covid em 2020 é grave desserviço ao público, avalia Presidente da Merck… “A pressa para vacinar é meramente financeira, para poder liberar o CARNAVAL, mentindo criminosamente para o povo brasileiro.” Kenneth Carleton Frazier, Presidente e CEO da principal produtora de vacinas do mundo, a gigante farmacêutica Merck”.

Ken Frazier, da Merck, disse que pressa para vacinar é para liberar o carnaval brasileiro?

A suposta declaração caiu como uma bomba nas redes sociais, em especial, no Facebook. As publicações já somam centenas de compartilhamentos. Apesar disso, a história não tem nada de real.

Basta olhar para a publicação para perceber alguns equívocos. O texto apresenta diversas características de fake news na internet, como o caráter vago, bastante alarmista e a falta de fontes confiáveis.

Além disso, fake news sobre as vacinas contra a Covid-19 não tem faltado na internet. A equipe do Boatos.org já desmentiu inúmeras delas, como a que dizia que a vacina poderia alterar o DNA e causar “homossexualismo”. Também a que indicava que um dos voluntários que participou da fase de testes da vacina de Oxford teria morrido em decorrência da vacina e, por fim, a que apontava que uma vacina contra a Covid-19 teria matado três jovens e destruído uma família.

Ao procurar por mais informações, descobrimos que a história surgiu após uma entrevista do presidente da farmacêutica Merck, Ken Frazier. Em julho de 2020, Frazier concedeu uma entrevista onde falava sobre a corrida das vacinas contra a Covid-19. Em determinado momento, Frazier afirmou que pessoas que possuem (e estão dando) esperanças de que uma vacina seria desenvolvida até o fim de 2020 estariam prestando “um grave desserviço ao público”. Na época, o presidente da Merck fazia uma crítica à urgência que o mundo teria colocado sobre o processo de desenvolvimento de uma vacina, afirmando que era preciso cuidado. Não demorou muito para grupos antivacina se apropriarem da entrevista e iniciarem um compartilhamento em massa da fala de Ken Frazier. Retirada de contexto, claro.

Vale ressaltar que para uma vacina ser aprovada, ela precisa passar por diversas etapas de estudos, testes e aprovações. Nada acontece de um dia para o outro. Basicamente, para chegar ao mercado, uma nova vacina precisa ser aprovada nos testes laboratoriais (in vitro), em animais, em humanos (para identificar a segurança e reações adversas), em humanos (para comprovar a eficácia em um grande número de pessoas) e, por fim, na liberação pela agência de saúde responsável (no caso do Brasil, a Anvisa). Ou seja, há um longo processo até a vacina, de fato, ser aplicada na população. Além disso, se a agência de saúde responsável pela liberação não achar que a vacina é segura, ela pode decidir por não liberar o uso do imunizante.

Também é importante destacar que existe uma grande diferença entre a pressa que negligencia as etapas e a velocidade respeitando todos os protocolos (onde mais profissionais são envolvidos e acabam trabalhando, às vezes, o dobro do tempo estipulado). No primeiro exemplo, temos a vacina desenvolvida pela Rússia. Os primeiros resultados foram divulgados apenas no início de setembro de 2020 (em agosto, o grupo de pesquisadores havia divulgado que a vacina estaria pronta em meados de outubro de 2020). Na época, diversos cientistas criticaram o modo como o processo de desenvolvimento da vacina russa estava ocorrendo, indicando que o estudo teria pulado algumas etapas (o que colocaria em cheque o potencial e a segurança do imunizante).

No segundo caso, temos as vacina de Oxford (AstraZeneca) e a parceria entre a China e o Brasil (CoronaVac). Como é possível observar, ambas as vacinas cumpriram (e ainda estão cumprindo) todas as etapas necessárias para o desenvolvimento de um imunizante. O que ocorre aqui, na verdade, são estratégias para diminuir o tempo até se chegar em uma vacina eficaz. Dentre essas estratégias, está a realização, simultânea, da pesquisa em diversos centros de pesquisas espalhados ao redor do mundo. Com um maior número de cientistas envolvidos no estudo, além de maiores investimentos financeiros, a velocidade para o desenvolvimento da vacina se acelera.

E bem, não faz muito sentido que o presidente da Merck, Ken Frazier, esteja tão preocupado assim com o Brasil. E muito menos que brasileiros estejam apoiando a fala de Frazier. Até ontem, grande parte da população era contra o lockdown, porque “a economia não pode parar”. Agora, essas mesmas pessoas não querem uma vacina, porque ela poderia fazer a economia voltar a girar. Juramos que não entendemos nada por aqui.

Vale ressaltar ainda que a imunização por meio de uma vacina segura é muito mais eficaz do que a chamada “imunidade de rebanho”. Isso porque a vacina passa por diversas etapas que mostram não só a segurança como a eficácia do imunizante. Em contrapartida, a “imunidade de rebanho” coloca vidas em risco (uma vez que não é possível garantir se todas as pessoas vão sobreviver após contraírem a doença).

Por fim, apesar do posicionamento de Ken Frazier (que também está desenvolvendo uma vacina contra a Covid-19), o presidente da Merck não disse a tal frase e muito menos citou o Carnaval ou o povo brasileiro durante a entrevista. Todas essas informações foram inventadas por quem começou a compartilhar a entrevista de Ken Frazier, lá em julho de 2020. Em algum momento, essas informações viraram aspas e, a partir daí, a gente já conhece bem o processo: todo mundo começou a achar que o presidente da Merck, realmente, teria dito tudo isso.

Em resumo: a história que diz que o presidente da farmacêutica Merck, Ken Frazier, teria dito que a pressa para vacinar o povo brasileiro é meramente financeira, para o Carnaval 2021 poder ocorrer, é falsa! Descobrimos que Ken Frazier, de fato, condenou a pressa para o desenvolvimento de uma vacina. Entretanto, ele falava sobre os estudos que estariam pulando e negligenciando etapas, como a vacina da Rússia. Além disso, Ken Frazier nunca citou o Carnaval ou o povo brasileiro na entrevista. Todas essas informações foram adicionadas ao longo do processo de compartilhamento nas redes sociais e, em algum momento, se transformou em aspas, como se Ken Frazier realmente teria dito tudo isso. Ou seja, a história não passa de balela. Até a próxima!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164.

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