Usar álcool gel (ou líquido) na chave do carro causa incêndios na ignição #boato

Boato – Higienizar as chaves do carro com álcool em gel (ou líquido) e, em seguida, acionar a ignição pode causar incêndios. 

Em tempos de pandemia, quem possui carro ou moto precisa ter atenção redobrada aos cuidados com a higiene do veículo. Isso porque é bastante comum que as pessoas esqueçam de higienizar as mãos antes de entrar no carro.

Por conta disso, é necessário sempre higienizar e limpar bem o veículo com produtos adequados (álcool 70%, álcool isopropílico, sabão neutro e desinfetantes automotivos). Inclusive, as chaves, pois elas podem armazenar sujeira, bactérias e até o novo coronavírus.

Mas de acordo com uma história que está circulando nas redes sociais, parece que higienizar as chaves com álcool 70% pode não ser uma boa ideia. Segundo uma publicação, um incêndio teria ocorrido em Belém (PA), após uma pessoa limpar as chaves do carro com álcool em gel. Ainda de acordo com o texto, o acidente teria ocorrido, porque ao colocar a chave na ignição, o veículo teria gerado uma faísca e começado um incêndio de grandes proporções. Confira:

Confira o desmentido no vídeo

“Não higienizem a chave do carro com álcool gel ou líquido 70%. Muitos acidentes estão ocorrendo por isso. O incêndio que houve em uma garagem aqui em Belém foi decorrente de uma chave de carro higienizada com álcool gel e ao ser colocada na ignição do veículo gerou uma faísca e incendiou o carro e vários outros estacionados próximo. Tomem cuidado. Chave de carro deve ser higienizada com água e sabão neutro!”.

Usar álcool gel (ou líquido) na chave do carro causa incêndios na ignição?

Pois bem, o “alerta” viralizou nas redes sociais e tem deixado muita gente preocupada. Mas será que essa história de que carros teriam pegado fogo após a limpeza das chaves com álcool em gel? A resposta é não!

Vamos aos fatos! Nas últimas semanas, diversos incêndios envolvendo veículos em Belém (PA) chamaram a atenção. No dia 3 de junho de 2020, dezenas de carros de luxo foram destruídos em um incêndio que começou na garagem de um prédio. Já no dia 31 de maio de 2020, diversos ônibus foram carbonizados após um incêndio de grandes proporções. Acreditamos que a história de hoje tenha surgido, especialmente, após esses incidentes.

O próprio texto já deixa muitas dúvidas. Ele apresenta as principais características de fake news na internet, como o caráter vago, alarmista, os erros de português e a falta de fontes confiáveis.

Além disso, o histórico de alertas falsos sobre o uso do álcool em gel é vasto. A equipe do Boatos.org já desmentiu inúmeras histórias sobre isso, como a que dizia que deixar o frasco de álcool em gel dentro do carro exposto ao sol pode causar explosões. Também a que indicava que o uso do álcool em gel poderia resultar em multa e até prisão em blitz da lei seca e, por fim, a que apontava que o álcool em gel não seria capaz de matar o novo coronavírus e nem outras bactérias.

É fato que o álcool em gel 70% se trata de um material que pode pegar fogo facilmente. Porém, essa história de que um incêndio teria começado após a limpeza das chaves do carro com o produto é bem sem sentido.

Primeiro, porque o álcool é uma substância altamente volátil, isto é, ela consegue passar do estado líquido para o gasoso de forma bastante rápido. Nesse sentido, o álcool consegue evaporar rápido, muito dificilmente restando em quantidade suficiente na chave para causar um incêndio.

Segundo, porque, ao contrário do que aponta a mensagem, a tal faísca gerada pela partida da chave na ignição não acontece no comutador da ignição, mas sim na vela, já no motor. Em um carro com motor à combustão (também conhecido como ciclo de quatro tempos ou Otto), quando você aciona a chave na ignição, o circuito elétrico é fechado, acionando a bateria que, por sua vez, envia energia à bobina. Ela, por sua vez, transforma a energia de baixa tensão enviada pela bateria em alta tensão. Essa energia é enviada às velas (ou, antes, ao distribuidor, no caso de carros mais antigos). A vela, localizada em cima do cabeçote, gera a faísca responsável pela explosão que faz o motor funcionar. Nos motores de ciclo Otto (os mais comuns em automóveis), antes da faísca ser gerada, há o ciclo da admissão no motor (onde o pistão suga o ar e o combustível dentro do cilindro), depois a compressão dessa mistura, ocasionando a combustão após a faísca ser gerada. Por fim, há o ciclo da exaustão, onde os gases são liberados do cilindro. O carro em bom funcionamento sabe o momento exato em que a faísca precisa ser gerada.

Se isso não fosse suficiente, nenhum dos incêndios relatados com automóveis em Belém (PA) foram causados por causa do álcool em gel. Uma reportagem sobre o tema mostrou que, no caso do incidente com os carros de luxo, um morador chamou o Corpo de Bombeiros após perceber que alguns carros estavam pegando fogo na garagem. Isso já elimina por completo a tese de que o acidente teria acontecido após o acionamento da ignição. Se uma pessoa tivesse tentado ligar o carro e percebido o fogo, certamente, teria ligado de forma imediata para as autoridades responsáveis.

É importante destacar que incidentes envolvendo carros e fogo podem ocorrer. No final de 2019, a GM precisou suspender as vendas do novo Onix e convocar um recall após dois carros pegarem fogo. Entretanto, no caso de Belém (PA), sequer sabemos se foi exatamente um dos carros ou ônibus que iniciaram o incêndio. A resposta só será dada após uma perícia rigorosa no local e nos automóveis.

Vale ressaltar que o próprio Corpo de Bombeiros do Pará orientou que é necessário ter cuidados com o armazenamento do álcool em gel e ter cuidado com vazamentos do produto dentro do carro.

Por fim, o uso do álcool 70% continua sendo uma ótima opção para higienizar as mãos e as chaves do carro. Entretanto, o uso do álcool em concentração tão grande pode acabar desgastando ainda mais as peças já deterioradas do automóvel, pois ressecam o plástico e podem deteriorar o couro. Nesse caso, você pode usar água, sabão neutro e desinfetantes de uso geral (com quartenário de amônia) ou específico para carros para a higienização no interior do automóvel.

Em resumo: a história que diz que usar álcool 70% para higienizar chaves de carro pode causar incêndios é falsa! O texto não faz o menor sentido e os incidentes que ocorreram em Belém (PA) não têm relação com o uso do álcool em gel em chaves de carro. Continuar usando álcool em gel e líquido para higienizar superfícies continua sendo a melhor alternativa. Ou seja, a história não passa de balela. Não compartilhe!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99177-9164.

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