60 mil cientistas pedem o fim da vacinação em documento que está certo sobre a pandemia #boato

Boato – 60 mil “científicos” pedem o fim da vacinação em documento que já conta com mais de 800 mil assinaturas contra as vacinas mRNA

Nas últimas semanas, o número de casos de Covid-19 deu um salto gigantesco ao redor do mundo. O boom de infecções tem preocupado especialistas e pressionado os sistemas de saúde com a grande quantidade de pessoas sintomáticas.

Só os Estados Unidos bateram duas vezes o recorde de casos diários de Covid-19, sendo que o mais recente chegou a quase 1 milhão e meio de infectados. Em meio ao caos, as fake news sobre a pandemia e, especialmente, sobre a vacinação apenas continuam piorando todo esse cenário.

E de acordo com uma história que anda circulando nas redes sociais, 60 mil “científicos” teriam pedido o fim da vacinação em massa. Segundo a publicação, eles teriam assinado um documento (que supostamente já conta com mais de 800 mil assinaturas) solicitando o fim das vacinas do tipo mRNA. Ainda de acordo com a história, a notícia teria sido publicada, em espanhol, em um site “alternativo” europeu. Confira:

Versão 1: “E se 60 mil cientistas pedissem o fim das vacinações, você acreditaria que essas porcarias são um veneno?”. Versão 2: “URGENTE – 60 MIL CIENTISTAS PEDEM O FIM DA V4Cin4ÇAO EM MASSA !!! Uma matéria pública em um site alternativo na Europa tem chamando atenção das autoridades”.

60 mil cientistas pedem o fim da vacinação em documento que está certo sobre a pandemia?

A informação fez um enorme sucesso nas redes sociais, em especial, no Twitter e agitou os grupos negacionistas. Apesar disso, a informação não é verdadeira. A explicação fica por conta da origem da história.

Como já dissemos anteriormente, o boom de fake news sobre a pandemia e a vacinação contra a Covid-19 não é de hoje. A equipe do Boatos.org já desmentiu diversas delas, como a que dizia que um relatório do governo da Alemanha teria apontado que as vacinas causariam aids nos imunizados. Também a que indicava que cientistas teriam descoberto que a cloroquina seria a cura para a variante Ômicron e, por fim, a que apontava que milhares de cientistas e médicos teriam provado a Covid-19 seria uma farsa.

Ao analisar a história, descobrimos que o homem que aparece no vídeo está falando sobre um tal de “Manifesto Great Barrignton” e há a impressão de que a Ciência (e os cientistas) estão agindo contra as vacinas. Mas a história (verdadeira) não é bem assim.

Para começo de conversa, a fonte usada pelo homem do vídeo nada mais é do que um site negacionista em espanhol (que ele diz ser um “site alternativo”), conhecido por disseminar informações falsas sobre a pandemia.

Já em relação ao “Manifesto Great Barrignton”, existem alguns erros que precisam ser pontuados. Na realidade, o Manifesto é um documento apoiado por diversos médicos, cientistas e não-especialistas que pede para que os países reconsiderem políticas de restrição extremamente rigorosas. De acordo com os apoiadores, adotar esse tipo de política por muito tempo poderia ocasionar problemas em diversos aspectos na vida das pessoas, especialmente, as mais vulneráveis. Dentre os problemas, os especialistas destacam uma baixa procura e adesão ao tratamento de outras doenças, como o câncer, e uma baixa taxa de vacinação infantil para outras doenças.

Basicamente, o documento propõe a ideia de um isolamento vertical, que já chegou a ser debatido em determinado período da pandemia e acabou sendo deixado de lado. Com isso, o documento força a teoria da imunidade de rebanho (onde as pessoas voltariam à vida normal, adotando medidas menos rigorosas e ficando doentes, para conquistarem a imunidade contra a doença). Obviamente a teoria não faz o menor sentido e não se apoia em nenhum critério científico. De acordo com especialistas, se adotássemos um isolamento vertical, teríamos muitos casos graves entre todas as faixas etárias, além de uma enorme pressão aos sistemas de saúde, que voltariam a ficar lotados. Se isso não fosse o suficiente, o documento ainda esbarra em princípios éticos, especialmente, ao fazer uma distinção entre o valor de uma vida de acordo com sua faixa etária. Em determinado trecho, o Manifesto chega a alegar que a vida de uma pessoa mais jovem vale mais do que uma pessoa idosa.

Além disso, também existe um problema sobre as mais de 800 mil assinaturas. Segundo a história de hoje, são 60 mil “científicos” que assinam o documento. Entretanto, o próprio site usado como fonte da informação desmente a história. A página aponta que são 15 mil “cientistas” e 46 mil “médicos” (e médicos que não trabalham com pesquisas em universidades ou institutos de Ciência não são cientistas. Ponto).

Se a história acabasse aí, ainda estaria “tudo bem”. Porém, ela piora (e muito!). Pelo documento ser uma petição aberta, o site exige apenas um e-mail válido. Ou seja, qualquer pessoa poderia usar um nome falso e uma ocupação falsa. E bem, parece que isso foi feito. A prova está na lista de “médicos” que assinaram o documento. Dentre eles, existe uma lista de homeopatas (que partem de uma pseudociência), um “doutor Johnny Bananas”, um “doutor Person Fakename” (pessoa com nome falso) e diversos outros fakes. Dessa forma, não é possível dizer que os tais 15 mil “cientistas” e 46 mil “médicos”, de fato, são pessoas reais.

Por fim, a lista de assinaturas também conta com cientistas que poderiam, de verdade, rasgar os diplomas de doutores. Muitos “cientistas” que defendem o documento, na realidade, defendem pautas políticas e teorias sem nenhuma comprovação científica.

Em resumo: a história que diz que 60 mil cientistas (científicos) teriam assinado um documento, pedindo pela suspensão da vacinação contra a Covid-19 é falsa! Além do site usado como fonte ser um disseminador de fake news, a própria página desmente a história. De acordo com o site, seriam 15 mil “cientistas” e 46 mil “médicos”. Apesar disso, o tal documento assinado por esse tanto de gente é um pedido de isolamento vertical, que não possui nenhum embasamento científico. Se isso não bastasse, a lista de assinatura é uma petição pública aberta que só exige um e-mail válido. Dentre os assinantes, existem diversos fakes, homeopatas e outros pseudo especialistas. No final das contas, não é possível saber quantas pessoas reais, de fato, assinaram o documento. Mas se baseando pela quantidade de fakes, com certeza esse número é muito menor do que o divulgado. Por fim, especialistas de verdade assinaram o tal Manifesto, porém, se tratam de pessoas com interesses pessoais ou negacionistas. Ou seja, a história não passa de balela!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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