Chile vai abolir Forças Armadas em nova Constituição #boato

Boato – Documento prova que membros da nova Constituição do Chile já decidiram que vão abolir as Forças Armadas e que o “chefe” das “Forças de Paz” será o presidente Gabriel Boric.

Quando falamos em boatos relacionados a governos de esquerda de outros países sul-americanos, vemos uma intenção clara aqui no Brasil: a de tentar provar que “a esquerda é péssima” e que “se alguém de esquerda for eleito no Brasil, o nosso país vai sofrer como os vizinhos”. É uma pena que muitos dos argumentos utilizados em publicação na internet são falsos.

A última história bombástica que circula na internet aponta que o presidente do Chile, Gabriel Boric, vai dar um golpe no país. A estratégia perpassa por acabar com as Forças Militares Armadas no país, instaurar as Forças de Paz e fazer do presidente líder desta força. Textos e mensagens apontam, inclusive, que isso já está posto e que será aprovado na próxima Constituição. Leia algumas das mensagens que circulam por aí:

Versão 1: O marxista Gabriel Boric, eleito presidente no ano passado, dará as cartas no Alto Comando do Exército, visto que também ocupará o cargo de Chefe do Estado-Maior. Perceberam a estratégia? O GOLPE TÁ Aí… Chile vai abolir as Forças Militares Armadas No lugar das Forças Armadas, serão instauradas as “Forças de Paz” e policiais subordinadas ao Poder Executivo. O marxista Gabriel Boric, dará as cartas no Alto Comando do Exército, visto que também ocupará o cargo de Chefe do Estado-Maior. De acordo com os signatários, as Forças Armadas não devem ser permanentes e a redução dos gastos militares será uma consequência natural nas mudanças propostas.

Versão 2: MARXISMO | CHILE VAI ABOLIR AS FFAA DO PÁIS. BRASIL PODERÁ SEGUIR O MESMO CAMINHO CASO A AMÉRICA DO SUL SEJA 100% MARXISTA COM A ELEIÇÃO DO EX-PRESIDIÁRIO LULA Os signatários da Convenção Constitucional do Chile apresentaram na última terça-feira, 1º, uma proposta que visa a abolir as Forças Militares Armadas (FFAA) do país. Em seu lugar, serão instauradas as Forças de Paz e Policiais, subordinadas ao Poder Executivo Versão 3: Este é o novo governo de esquerda do Chile. Muito provavelmente é o que o Lula tentará fazer no Brasil, caso vença a eleição. Lula, como qualquer outro bandido, já mostrou total desprezo pelas Forças Armadas e pelas polícias. Quem deseja acabar com os militares bem intencionado não está.

Chile vai abolir Forças Armadas em nova Constituição?

O que não faltou foi “especialista em política internacional” falando sobre a tal história e cravando que isso “vai acontecer”. Só há um detalhe: não só o Chile não decidiu que vai abolir as Forças Armadas na nova Constituição como também é possível que a tal proposta sequer entre em votação para a nova Constituição.

Mais uma vez, o que houve foi uma estratégia de apontar o que é uma proposta (que, neste caso, é iniciativa popular e sequer é ligada a políticos como o presidente Gabriel Boric) como algo “já posto”. Há pouco tempo, desmentimos um boato muito parecido, que apontava que o Chile iria acabar com a polícia no país.

Temos exemplos também no Brasil como em casos que apontavam que foi aprovada a lei que “permite que pessoas matem invasores”, que agora há um 14º salário e mesmo que o Senado havia acatado a proposta do voto impresso. A história de hoje tem elementos de todos os casos citados. Para tanto, precisamos fazer uma contextualização.

Para quem não se lembra, o Chile passou por protestos violentos em 2019 e 2020 que acabaram apenas quando o presidente Sebastián Piñera (de direita e que será substituído por Gabriel Boric, de esquerda nos próximos dias) aceitou algumas exigências como, por exemplo, promulgar uma nova Constituição com apoio popular (a Constituição atual do Chile é do tempo da Ditadura).

Para tanto, o Chile realizou um plebiscito em 2020 para escolher se a população desejava uma nova Constituição e como seria redigida. O povo optou pela criação de uma nova Constituição e pela eleição de membros de uma Convenção Constitucional Chilena (a eleição para escolha ocorreu em maio de 2021).

Como parte do processo, a Convenção abriu uma plataforma de participação popular na qual cidadão podem enviar propostas para serem votadas no site https://plataforma.chileconvencion.cl/. De acordo com este artigo do La Tercera, cada pessoa pode sugerir até sete propostas para serem discutidas.

A tal proposta de “fim de Forças Armadas”, que está sendo apresentada como algo “líquido e certo”, não passa de mais uma destas propostas de cidadãos. Esta é a página da proposta, que foi feita em 26 de janeiro de 2022 e é de número 64.102. A proposta teve 461 apoios públicos. Detalhe: a página aponta que a proposta não aceita mais apoios (o prazo se encerrou em 1º de fevereiro)).

O baixo número de apoio denota que a proposta (prestem atenção!) não deve seguir em frente. Como aponta o artigo do La Tercera, que linkamos lá em cima, é preciso 15 mil apoios de, no mínimo, quatro regiões para a proposta ser, ao menos, apreciada em um segundo momento. Esta matéria da CNN Chile aponta que 78 propostas alcançaram a marca e vão seguir sendo discutidas.

Aí está outro ponto: o fato de ter os 15 mil apoios não garante que a proposta vai virar lei. Só para citar um exemplo: uma proposta pró-aborto e uma proposta contra aborto foram aprovadas. Obviamente, não haverá como aprovar as duas. A única proposta relaciona a Forças Armadas que teve mais de 15 mil apoio é de, olha só, manutenção das Forças Armadas. Ou seja: se a Constituição depender da plataforma em questão (o que pode, não necessariamente, ocorrer), as Forças Armadas devem continuar no país.

Vale apontar que todo o sensacionalismo sobre o absurdo de “Gabriel Boric” virar líder das Forças de Paz do país é apenas retórica reacionária. Falamos isso porque, hoje, as Forças Armadas são submissas em tempos de paz pelo Ministro da Defesa (que é nomeado pelo presidente). Em tempos de guerra, é o presidente mesmo que assume a chefia. Vale citar que, no Brasil, a incumbência é parecida.

Resumindo: é falsa a informação que aponta que o Chile vai abolir as Forças Armadas do país. O que está circulando online é uma proposta de iniciativa popular que sequer alcançou o número mínimo de assinaturas para prosseguir sendo discutida no país. Ou seja: o documento que circula por aí não prova nada.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet