Arnaldo Jabor escreveu texto sobre gaúchos e Rio Grande do Sul #boato

Boato – Em homenagem ao povo gaúcho e ao Rio Grande do Sul, Arnaldo Jabor escreveu um texto chamado “Os Gaúchos” falando sobre as maravilhas do estado mais ao sul do país.

Falamos, agora há pouco, que a morte de Arnaldo Jabor suscitou diversas fake news de textos que teriam sido escritos por ele. Tanto que hoje, depois de relembrar um texto ufanista sobre Bolsonaro falsamente atribuído a ele, vamos falar sobre um texto sobre “o Rio Grande do Sul”.

Mensagens em redes sociais apontam que Arnaldo Jabor escreve um texto falando sobre as peculiaridades do Rio Grande do Sul. Que ele seria o “filho que saiu diferente da família”, teria o “clima diferente”, gastronomia distinta, hábitos diferentes e muita qualidade de vida. Leia o texto que circula por aí:

Arnaldo Jabor O Rio Grande do Sul é como aquele filho que sai muito diferente do resto da família. A gente gosta, mas estranha. O Rio Grande do Sul entrou tarde no mapa do Brasil . Até o começo do século XIX, espanhóis e portugueses ainda se esfolavam para saber quem era o dono da terra gaúcha. Talvez por ter chegado depois, o Estado ficou com um jeito diferente de ser. Começa que diverge no clima: um Brasil onde faz frio e venta, com pinheiros em vez de coqueiros, é tão fora do padrão quanto um Canadá que fosse à praia.

Depois, tem a mania de tocar sanfona, que lá no RS chamam de gaita, e de tomar mate em vez de café. Mas o mais original de tudo é a personalidade forte do gaúcho. A gente rigorosa do sul não sabe nada do riso fácil e da fala mansa dos brasileiros do litoral, como cariocas e baianos. Em lugar do calorzinho da praia, o gaúcho tem o vazio e o silêncio do pampa, que precisou ser conquistado à unha dos espanhóis. Há quem interprete que foi o desamparo diante desses abismos horizontais de espaço que gerou, como reação, o famoso temperamento belicoso dos sulinos.

É uma teoria – mas conta com o precioso aval de um certo Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo que recebia seus pacientes de bombacha e esporas, berrando: “Mas que frescura é essa de neurose, tchê?” Todo gaúcho ama sua terra acima de tudo e está sempre a postos para defendê- la. Mesmo que tenha de pagar o preço em sangue e luta. Gaúcho que se preze já nasce montado no bagual (cavalo bravo). E, antes de trocar os dentes de leite, já é especialista em dar tiros de laço. Ou seja, saber laçar novilhos à moda gaúcha, que é diferente da jeito americano, porque laço é de couro trançado em vez de corda, e o tamanho da laçada, ou armada, é bem maior, com oito metros de diâmetro, em vez de dois ou três.

Mas por baixo do poncho bate um coração capaz de se emocionar até as lágrimas em uma reunião de um Centro de Tradições Gaúchas, o CTG, criados para preservar os usos e costumes locais. Neles, os durões se derretem: cantam, dançam e até declamam versinhos em honra da garrucha, da erva-mate e outros gauchismos. Um dos poemas prediletos é “Chimarrão”, do tradicionalista Glauco Saraiva, que tem estrofes como: “E a cuia, seio moreno/que passa de mão em mão/traduz no meu chimarrão/a velha hospitalidade da gente do meu rincão.” (bem, tirando o machismo do seio moreno, passando de mão em mão, até que é bonito). Esse regionalismo exacerbado costuma criar problemas de imagem para os gaúchos, sempre acusados de se sentir superiores ao resto do País. Não é verdade – mas poderia ser, a julgar por alguns dados e estatísticas.

O Rio Grande do Sul é possuidor do melhor índice de desenvolvimento humano do Brasil, de acordo com a ONU, do menor índice de analfabetismo do País, segundo o IBGE e o da população mais longeva da América Latina, (tendo *Veranópolis a terceira cidade do mundo em longevidade*), segundo a Organização Mundial da Saúde. E ainda tem as mulheres mais bonitas do País, segundo a Agência Ford Models. (eu já sabia!!! rss) Além do gaúcho, chamado de machista”, qual outro povo que valoriza a mulher a ponto de chamá-la de prenda (que quer dizer algo de muito valor)? Macanudo, tchê. Ou, como se diz em outra praças: “legal às pampas”, uma expressão que, por sinal, veio de lá. Aos meus amigos gaúchos e não gaúchos, um forte abraço! Arnaldo Jabor – Os Gaúchos

Arnaldo Jabor escreveu texto sobre gaúchos e Rio Grande do Sul?

Não demorou para a história se espalhou com muita força na internet (principalmente entre gaúchos, sejam morando no Rio Grande do Sul ou não). Porém, o texto em questão não é de Arnaldo Jabor. Mais do que isso: já desmentimos essa mesma balela em 2018. Como o desmentido de outrora vale para hoje, relembre o que foi dito:

De cara, tentamos buscar pelo texto nos locais onde o jornalista tem coluna. Procuramos e, como era de se esperar, não encontramos nada. Ao buscarmos pela origem do texto, encontramos registros desde 2006, alguns são de autoria desconhecida e outros foram atribuídos a Arnaldo Jabor.

É claro que essa não é a primeira vez que o jornalista aparece nas páginas do Boatos.org. Lembra do texto de Arnaldo Jabor denunciando ameaças de morte? Pois é, também não era dele. Assim como o texto “Que Tiro Foi Esse” e “a lei do caminhão de lixo”.

Como se não bastasse tudo isso, o próprio jornalista negou a autoria do texto durante uma transmissão de um programa da Rádio CBN. No programa, Arnaldo diz que “nega ter escrito aos bigodudos” e comenta ainda sobre outros artigos que já foram atribuídos a ele. E ainda diz que recebe elogios de textos que não são dele. Confira no vídeo:

E não publicam só textos safadinhos, mas até coisas épicas, como uma esplendorosa Ode aos Gaúchos que eu teria escrito, o que já me valeu abraços apertados de machos bigodudos em Porto Alegre, quebrando-me os ossos:

”Tchê, tua escritura estava macanuda, trilegal!”. Eu nego ter escrito aquele ditirambo meio farroupilha aos bigodudos, mas nego num tom vago, para não ser esculachado: ”Tu não escreveste? Então tu não amas nossas ”prendas” lindas, e negas ter escrito aquele pedaço em que tu dizes ”que a gente já nasce montado num bagual’? Aquilo fez meu pai chorar, e o pedaço em que falas que ”por baixo do poncho também bate um coração?” Tu tá tirando da reta, tché?”, e me aponta o dedo, de bombachas e faca de prata.

Resumindo: é falsa a informação que aponta que Arnaldo Jabor escreveu um texto sobre o Rio Grande do Sul e os gaúchos. O texto em questão é mais uma mensagem (das muitas) que foi falsamente atribuída ao cineasta falecido em fevereiro de 2022.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet