Sangue de boi é colocado no café a vácuo do Brasil #boato

Boato – Para deixar o café vendido e embalado a vácuo mais barato, produtores de café estão colocando sangue de boi no produto na hora em que ele é moído.

Dentro de todas as publicações da nossa categoria clássico (que engloba conteúdos desmentidos há mais de um ano que voltam aos nossos “trends”), a história de hoje é uma das mais proeminentes. Desmentida originalmente em 2020, ela aponta para uma suposta “maracutaia” de cafeicutores.

O áudio que deu origem a história é de um caminhoneiro que denuncia que produtores de café estão colocando sangue de boi no produto para deixar mais barato. Depois que o conteúdo circulou, áudios e textos falando mais do mesmo também viralizaram online. Como tratam-se de conteúdos redundantes, veja o que foi escrito na história que deu origem a tudo:

Confira o desmentido em vídeo

“Eu fui carregar um café lá no Espírito Santo, ali em Vitória. Aí, eu cheguei lá. Tá na câmara fria. Eu cheguei lá e encostei a carreta. Aí, dali a pouco, encostou duas carreta-tanque. Aquilo me encucou. Carreta-tanque? Em fábrica de café? Falei: porra que negócio é esse aí. Vai carregar pó de café dentro dessas p* aí ou descarregar pó de café? Aí eu tava fazendo café de manhã cedo. Fui lá e chamei o motorista: ô, irmão, bora tomar um café lá comigo, lá na gaveta. Ô, beleza, cê tá fazendo café, então. Vamos lá tomar um café. Aí tá. Dali a pouco chegou mais duas carreta, quatro carreta-tanque com aquela p* daquela serpentina, sabe?

Aí, beleza. Tomei um café e falei: vem cá, fazer uma pergunta pro cê, meio indiscreta. Você vai carregar o quê? Eu falei. Não, eu vou descarregar. Pra descarregar?. É, falou, sangue de boi. A gente coleta em todos os frigoríficos aí, carrega da Friboi, os frigoríficos aí carrega. Traz pra cá o sangue de boi. Eles torram ele e moe e põe à vácuo junto com café, pra dar peso e volume. Eu não acreditei e ele falou: é, o café que cê tá tomando aí à vácuo é café com sangue de boi. Eu falei: é brincadeira, cara. Aí, eu vi os cara descarregando. Ligou a serpentina, porque o sangue de boi talha, né? Liga aquela serpentina, ele vai descoalhando e soltando lá dentro. Lá, ele falou: cê quer tomar um café puro? É aquele café que cê vê no mercado que tem o grão que moe na hora. Até o sabor é diferente. Esses que cê compra à vácuo, qualquer um deles à vácuo, todos eles nós fornecemos sangue de boi pra todos os, as fábrica de pó de café que é a vácuo. Falei: cê tá brincando, irmão.

Ele falou: é.. Eu falei: eu não vou duvidar de você, porque cê tá com a carreta aqui, você tá descarregando aí. E eu tô vendo o sangue lá trás, pingando lá, chega a feder carniça. Aí, eles torram aquele aquele sangue de boi, entendeu? Que ele fica coalhadão, tipo aquela gelatina. Torra ele e bota junto com o café à vácuo. Então, o café você só toma puro, aquele que você vê os grãos que moe na hora, lá na vendinha, lá na padaria, lá no mercadinho que tem aqueles grãos, mas à vácuo todos eles são com sangue de boi. Ainda mistura um monte de química que é pra não feder, entendeu? Que é pra não feder. Cê pode ver que o gosto do café mesmo, do pó de café à vácuo, ele não é tão suave como era uns anos atrás. Hoje é tudo misturado com sangue de boi”.

Sangue de boi é colocado no café a vácuo do Brasil?

Em 2020, a história circulou muito (tanto que o artigo de desmentido do Boatos.org acabou sendo, na época, o mais lido de toda nossa história). Em 2022, o causo voltou a circular. Por isso mesmo que cá estamos para reforçar que a informação em questão é falsa. Inicialmente, relembre o que escrevemos sobre o assunto:

Ao analisar o áudio, percebemos que a fonte apresentada era um motorista de caminhão que falou com outro motorista e assim o telefone sem fio foi se construindo. Além disso, é impossível que a produção de café esteja sendo feita, sistematicamente, com sangue de animal. Existem regulamentos e resoluções que não permitem a presença de qualquer produto de origem animal no café.

Há apenas uma tolerância (de apenas 1%) para certas impurezas, como cascas e paus (do próprio café) e também torrões, serragem e grãos de outras espécies. Porém, nesse caso, nada é colocado de forma dolosa. Além disso, também existe a fiscalização que, certamente, identificaria algo como sangue de boi no produto.

E foi ao procurar por mais detalhes que chegamos à uma possível explicação para toda essa história. Em 2016, um site brasileiro entrevistou a barista e empresária Isabela Raposeiras sobre a qualidade do café brasileiro. Na época, ela disse que o “café brasileiro de supermercado é sangue de boi”. Entretanto, a página só mostra o título (com a declaração) e o subtítulo da matéria, não o conteúdo.

Mas não desistimos. Ao procurar por mais informações sobre a matéria em questão, encontramos outro site que mostra uma afirmação parecida. Em 2018, em uma entrevista, o cafeicultor Hugo Wolff afirmou que, em comparação ao vinho, muitos cafés nas prateleiras de supermercados são Sangue de Boi. Isto é, a qualidade de muitos cafés é comparada com a marca de vinho de qualidade inferior. Com isso, temos a nossa resposta. A comparação da barista não era com o sangue do animal, mas sim com a marca do vinho.

Há alguns pontos extras a se destacar. O primeiro é que, depois que desmentimos a história, a própria ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café) desmentiu a história (e citou o Boatos.org). Mais do que isso: foi aberto um Boletim de Ocorrência para apurar quem espalhou a balela. Veja o que foi escrito:

Recebemos, por meio das redes sociais, um áudio de um suposto carregador de café afirmando que o café moído e embalado a vácuo teria adição de sangue de boi para dar peso e volume. Tais informações SÃO FALSAS. Reforçamos a necessidade dos industriais, profissionais do agronegócio e dos consumidores de não compartilhar informações que possuam origem duvidosa ou que não sejam fidedignas, tendo em vista a crescente distribuição deliberada de desinformação e boatos, as fake news (notícias falsas).

Com o advento da internet, a pulverização de informações falsas produz percepções equivocadas sobre a realidade e, em tempos de redes sociais, boatos são divulgados como se fossem fatos, sendo desmistificados posteriormente em sites de monitoramento de fake news, como no caso “Café com sangue de boi”: https://www.boatos.org/saude/cafe-moido-vacuo-feito-sangue-boi.html Destacamos mais uma vez que o áudio em questão trata-se de FAKE NEWS e salientamos que os cafés certificados pela ABIC são analisados e monitorados periodicamente com a garantia da pureza e qualidade do produto.

Segundo, um tipo de fake news similar começou a circular online. Era de uma espécie de teste para ver a solubilidade do café e que mostraria qual era o “sangue de boi”. O Boatos.org desmentiu a balela. A ABIC também desmentiu essa tese. Veja o que foi escrito:

O método de análise sugerido pelo vídeo se trata de uma fake news. Isso porque a metodologia recomendada para a análise da pureza de um café é realizada por microscopia, em laboratório. Destacamos que para verificar a pureza de um café é necessário o uso de técnicas e equipamentos específicos (microscópio, balanças de precisão, capela de exaustão, estufa, etc), além de profissionais microscopistas capacitados tecnicamente. O método de análise recomendado e utilizado pelos laboratórios baseia-se (fundamenta-se) no princípio da extração de gordura do café com solvente orgânico, eliminação do pó fino por peneiração e a determinação por catação pelo uso de microscópio estereoscópico.

O que ocorre nesse vídeo em que o pó de café desce para o fundo do copo tem a ver com o grau de solubilidade, granulometria, densidade, umidade do pó e com a temperatura da água. Aqui na ABIC, desenvolvemos há mais de 30 anos o Selo de Pureza, por meio do qual já realizamos mais de 90 mil análises e certificamos 1.200 marcas. A análise da pureza atesta se o produto é puro, sem adulteração ou misturas, oferecendo segurança alimentar, qualidade e respeito ao consumidor.

Desde que criamos o Selo de Pureza, possuímos um Comitê de Autofiscalização e Autorregulamentação, com as normas e condições para obtenção do direito ao uso do Selo de Pureza. Coletamos as amostras de café em pontos de venda por auditores independentes e as coletas são codificadas e analisadas em laboratórios credenciados, garantindo total isenção do processo. Só é fornecida autorização de uso do Selo de Pureza na embalagem aos produtos puros. A lista de empresas com o Selo de Pureza está em nosso site, em https://www.abic.com.br/certificacao/pureza/marcas-autorizadas/. Reforçamos que caso o consumidor tenha alguma dúvida a respeito de determinada marca, que é possível enviar a embalagem com o café para a nossa sede, no Rio de Janeiro, solicitando a análise daquele produto. […]

Terceiro e não menos importante: não há qualquer comprovação de que, de fato, produtores estejam colocando sangue de boi no café. Assim como em 2020, a tese continua sendo uma cascata em 2022.

Resumindo: é falsa a história que aponta que sangue de boi está sendo colocado no café que é embalado em vendido a vácuo. Trata-se de uma fake news que desmentimos lá em 2020 e voltou a circular em 2022.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet