Harvard comprova que hidroxicloroquina é eficaz contra a Covid-19 #boato

Boato – Estudo de Harvard comprovou a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19 e culpou opinião pública e imprensa

Parece que o assunto pandemia voltou com força total ao mundo das fake news. Mais especificamente, o uso de medicamentos sem comprovação científica. Nos últimos dias, histórias falsas sobre o tema têm pipocado na internet.

Exemplo disso é a história de hoje. De acordo com uma publicação que está sendo compartilhada nas redes sociais, um estudo de Harvard teria comprovado a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19.

Segundo a história, na profilaxia pré-exposição, isto é, quando o remédio é administrado antes da exposição ao vírus, pessoas que utilizaram a hidroxicloroquina apresentaram 28% menos chances de se infectarem com a Covid-19. “Estudo de Harvard comprova eficácia da hidroxicloroquina para profilaxia da Covid-19”, diz o título do conteúdo.

Harvard comprova que hidroxicloroquina é eficaz contra a Covid-19?

A informação viralizou nas redes sociais, em especial, no Twitter e se tornou conteúdo em grupos negacionistas e antivacinas. Apesar disso, a história não é verdadeira. A explicação fica por conta da interpretação equivocada do artigo e pela falta de provas.

Não é novidade para ninguém que informações falsas sobre o uso de medicamentos contra a Covid-19 se transformaram em um verdadeiro problema ao longo da pandemia e bombaram na internet. A equipe do Boatos.org já desmentiu dezenas delas, como a que dizia que cientistas teriam descoberto que a cloroquina é a cura para a variante Ômicron. Também a que indicava que a Nitazoxanida reduziria a Covid-19 em 94% e seria a cura para a doença e, por fim, a que apontava que a farmacêutica japonesa Kowa teria comprovado a eficácia da ivermectina contra a variante Ômicron.

Ao analisar o artigo, identificamos diversos equívocos que não sustentam a tese. O estudo, que na verdade é uma meta-análise (isto é, uma técnica para integrar os resultados de dois ou mais estudos sobre a mesma questão), não confirma que a hidroxicloroquina é eficaz contra a Covid-19.

Na realidade, o artigo faz uma revisão de 11 estudos randomizados sobre o uso da hidroxicloroquina no contexto da Covid-19 (pré-exposição e pós-exposição). O artigo, liderado pelo pesquisador associado do Departamento de Epidemiologia, da Escola de Saúde Pública, da Universidade de Harvard, Xabier Garcia-De-Albeniz foi publicado como pré-print (isto é, sem a revisão de pares/outros cientistas), em 29 de setembro de 2020, na plataforma MedRxiv.

A versão final do trabalho foi publicada no dia 9 de agosto de 2022, na Revista Europeia de Epidemiologia. Basicamente, o estudo liderado pelo pesquisador Xabier Garcia-De-Albeniz apresenta estudos randomizados que buscavam descobrir se a hidroxicloroquina seria capaz de ajudar no percurso da Covid-19. De acordo com o próprio artigo, o medicamento não funcionaria na recuperação de infectados. Porém, os pesquisadores citam que os estudos selecionados mostraram indícios de que a hidroxicloroquina poderia (preste atenção, poderia) funcionar na pré-exposição ao vírus, para combater uma possível infecção por Covid-19. Daí, a afirmação de que o medicamento poderia reduzir em 28% as chances de pessoas se infectarem com a doença. Entretanto, o trabalho apresenta alguns equívocos metodológicos e ideias que não se sustentam.

1) A escolha dos estudos analisados

Os pesquisadores afirmam que selecionaram apenas 11 estudos (dos 88 disponíveis) para a análise. De acordo com eles, um dos requisitos principais para a seleção seria o uso do estudo clínico randomizado, isto é, feito de forma aleatória (onde as pessoas são alocadas nos grupos a serem investigados de maneira aleatória, sem escolha externa). Entretanto, isso não é garantia de um trabalho isento. Você pode exercer influência na seleção dos candidatos e até mesmo na exclusão dos participantes pelas mais variadas razões. Por conta disso, esses detalhes precisam estar explícitos na pesquisa. Caso isso ocorra e não esteja bem delimitado, pode levar a inferências equivocadas sobre o estudo.

Além disso, nem todos os estudos utilizados são confiáveis. Todo estudo de remédio, além de randomizado, deve ser controlado. Isto é, depois da chamada dos voluntários, há a separação de três grupos: o grupo que tem determinada comorbidade e vai receber o medicamento, o grupo que tem determinada comorbidade e vai receber o placebo e o grupo de controle. Durante o estudo, os remédios são fornecidos e as pessoas se encontram presencialmente com os pesquisadores em dias determinados. Ao longo do dias, os voluntários precisam anotar todo o seu dia, como um diário. Em um dos estudos citados pelo artigo, os pesquisadores realizaram uma chamada online e todo o processo foi feito dessa maneira (inclusive a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido). Nenhum dos voluntários se encontrou com os pesquisadores e os médicos. Os remédios eram enviados para a casa das pessoas. Somente pessoas com alto risco de exposição foram selecionadas e, durante a participação no estudo, elas não podiam usar nenhum tipo de proteção facial (máscaras) ao longo dos dias estabelecidos. Após o final do processo, os voluntários realizavam um teste PCR.

2) Sem eficácia x efeito impreciso

Na conclusão do trabalho, os pesquisadores afirmam que os resultados negativos de pesquisas sobre o uso da hidroxicloroquina no combate à Covid-19 foram interpretados de maneira equivocada. De acordo com eles, resultados como “sem eficácia” e “sem significância estatística” deveriam ter sido interpretados como “estimativa de efeito imprecisa”. Os pesquisadores se referem a estudos anteriores que atestaram a falta de eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19. Dessa forma, os pesquisadores tentam distorcer dados repetidamente testados, levando a crer que essas conclusões são resultados do acaso e não de fatores que fazem parte do estudo (que a hidroxicloroquina não funciona para o combate da Covid-19). Além disso, negam completamente a máxima de que quanto mais estudos não vão encontrando diferenças significativas na natureza, é mais provável que esse efeito não exista mesmo.

Em setembro de 2020, após divulgar a publicação do pré-print do artigo, o pesquisador Miguel Hernán, um dos participantes do trabalho, recebeu um comentário perspicaz do professor e pesquisador David Boulware, da Universidade de Minessota, citado no artigo. De acordo com Boulware, a pesquisa realizada por seu grupo constatou que os melhores resultados foram obtidos pelo grupo que tomou placebo. Isto é, as pessoas que não tomaram hidroxicloroquina. Além disso, o pesquisador também afirmou que dizer que a hidroxicloroquina funcionaria contra a Covid-19 é uma afirmação muito prematura (e que carece de mais estudos).

3) “SOLIDARITY” – Estudo realizado pela OMS comprova a ineficácia da hidroxicloroquina

Em 2020, em meio à discussão sobre a eficácia ou ineficácia de determinados medicamentos contra a Covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deu início a um estudo global, com mais de 30 países, em 405 hospitais. Mais de 11 pessoas participaram da pesquisa. No Brasil, instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) participaram do estudo. Os experimentos que tiveram início em março de 2020, foram paralisados em maio de 2020. Em 15 de outubro de 2020, a OMS divulgou os primeiros resultados provisórios do estudo SOLIDARITY, apontando que os medicamentos avaliados (remdesivir, hidroxicloroquina, lopinavir, interferon e interferon + lopinavir) ajudaram pouco ou nada na redução da mortalidade ou no tempo de internação de infectados pela Covid-19.

Posteriormente, os estudos foram retomados, mas em março de 2021, a OMS comunicou que encerraria definitivamente seus estudos com a hidroxicloroquina. Após meses de observação, os pesquisadores envolvidos no estudo concluíram que o medicamento não funciona no tratamento contra a Covid-19. O documento com todos os dados foi publicado no dia 2 de março de 2021, na revista The BMJ, uma conceituada publicação na área da medicina, no Reino Unido.

 

É importante citar que há mais alguns pontos a se levar em consideração. Ao longo de todo o artigo, os pesquisadores tecem críticas à opinião pública e à imprensa. De acordo com eles, os estudos usando a hidroxicloroquina no contexto da Covid-19 sofreram interferência por conta das inúmeras repetições de que o medicamento não era eficaz contra a doença. Se isso não bastasse, os pesquisadores também afirmaram que a baixa aderência dos voluntários aos estudos foi culpa da opinião pública e da imprensa. Entretanto, os pesquisadores parecem esquecer do boom de vendas de hidroxicloroquina e outros medicamentos não comprovados para o combate à Covid-19 no mundo todo, como EUA e Brasil. Ou seja, a aderência ao medicamento, de fato, existiu, porque muitas pessoas acreditavam, com base em fake news, que o medicamento poderia ajudar nessa situação. O que, como mostra exemplos como de Manaus no início de 2021, não ocorreu.

Por fim, a médica infectologista e atual vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, Denise Garrett, afirmou por meio de uma publicação no Twitter que a afirmação de que o estudo comprovaria a eficácia da hidroxicloroquina no combate à Covid-19 é desonesta e não deve ser levada em consideração.

Em resumo: a história que diz que um estudo de Harvard comprovaria a eficácia da hidroxicloroquina no combate à Covid-19 é falsa! O estudo usado como prova, na verdade, não prova nada. Além de apresentar claro viés ideológico, os pesquisadores utilizaram trabalhos com erros metodológicos ou apresentaram dados com inferências equivocadas. Os pesquisadores chegaram a ser contestados nas redes sociais por um dos professores citados em seu trabalho. Por fim, um estudo global realizado pela OMS confirmou que a hidroxicloroquina não tem eficácia na redução da mortalidade ou no tempo de internação de infectados pela Covid-19.

PS: Participaram da realização desta reportagem Giselle Bianco Bortoletto, biomédica e doutoranda em Genética Médica pela Faculdade de Ciências Médicas (Unicamp); Vinícius Nagy Soares, doutorando em Gerontologia pela Faculdade de Ciências Médicas (Unicamp) e especialista em Método Científico, Filosofia da Ciência e Estatística; e Beatriz Fiolo, estudante de Medicina pela Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo siteFacebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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