Estudo alemão prova que altas taxas de vitamina D diminuem taxa de mortalidade por Covid-19 #boato

Boato – Estudo alemão prova que pessoas com altos níveis de vitamina D no organismo possuem menos chances de morrer por Covid-19 e apresentarem sintomas da doença.

Nessa pandemia da Covid-19, nós já passamos por muitas dúvidas e incertezas sobre o SARS-CoV-2, mas também descobertas sobre o funcionamento do novo coronavírus e também sobre substâncias em relação ao vírus. E, hoje, temos um novo capítulo dessa história. Quer dizer, um velho capítulo que parece ter conquistado a confiança de muitos brasileiros.

Nos últimos dias, uma história viralizou nas redes sociais. De acordo com uma publicação, um suposto estudo alemão teria conseguido provar a relação entre a taxa de letalidade da Covid-19 e a quantidade de vitamina D disponível no corpo de uma pessoa. Segundo o texto, pacientes com uma grande quantidade de vitamina D no organismo teriam mais chance de sobreviver à uma infecção pela Covid-19. Confira:

“COVID-19. TAXA DE MORTALIDADE vs NÍVEIS DE VITAMINA D. Estudos realizados na Alemanha e conduzidos por Dr. Bernd Glauner e Lorenz Borsche com 780 pacientes com COVID-19, chegou a seguinte conclusão: – VITAMINA D acima de 34ng/ml: Zero mortes. – VITAMINA D acima de 60ng/ml: Sintomas de gripe. – VITAMINA D acima de 80ng/ml: Nenhum sintoma. – VITAMINA D acima de 80ng/ml: Nenhum sintoma”.

Altas taxas de vitamina D diminuem taxa de mortalidade por Covid-19?

A informação acabou circulando bastante nas redes sociais e tem levado muita gente a acreditar nessa relação. Mas será que essa história de que um estudo alemão teria identificado que altos níveis de vitamina D no organismo reduzem a mortalidade por Covid-19 é real? NÃO É!

Vamos aos detalhes! Para começo de história, é preciso esclarecer que o estudo, de fato, existiu. E tem mais: os resultados foram esses mesmo. Mas então, o que essa história está fazendo no Boatos.org? Calma que eu te explico. Apesar do estudo existir e os resultado serem esses, isso não significa que a vitamina D, por si só, tenha influenciado na redução da taxa de mortalidade por Covid-19.

O primeiro erro do texto é o local do estudo. A pesquisa foi realizada na Indonésia e não na Alemanha. Além disso, o estudo não foi conduzido pelos pesquisadores Bernd Glauner e Lorenz Borsche, mas sim pelos pesquisadores Prabowo Raharusun, Sadiah Priambada, Cahni Budiarti, Erdie Agung e Cipta Budi. A pesquisa em questão é uma pré-publicação e faz parte de um estudo preliminar. Ou seja, ainda não há nada de concreto e os resultados podem mudar. A publicação original, inclusive, foi retirada do ar.

Já Bernd Glauner e Lorenz Borsche apenas fizeram um texto com dados estatísticos sobre a pandemia. Os dois citam o estudo comandado pelo pesquisador Prabowo Raharusun para defender o uso da vitamina D no combate à Covid-19. O site pessoal de Borsche é recheado de textos sobre vitamina D e a Covid-19 e nenhum deles pode ser considerado um estudo científico (uma vez que nunca foram publicados em revistas científicas).

É importante ressaltar ainda que nem Glauner e muito menos Borsche são médicos. De acordo com a Agência Lupa, os dois trabalham como desenvolvedores de software. Ainda segundo a Lupa, Bernd Glauner diz ter feito bioquímica na Universität Tübingen. Já Lorenz Borsche informou em seu currículo que estudou matemática, física, sociologia e ciência política, mas sem citar a instituição de ensino. E bem, parece que a gente já conhece essa história, não é mesmo?

Sobre a pesquisa na Indonésia realizada sob o comando de Prabowo Raharusun, existem algumas informações que foram suprimidas pela história de hoje e também pelo texto de Glauner e Borsche. lém disso, o próprio estudo apresenta inconsistências. A primeira delas é que a vitamina D não foi o único fator determinante na pesquisa.

As pessoas selecionadas para compor o grupo de deficiência de vitamina D eram muito mais velhas do que as escolhidas para os grupos de insuficiência e taxas normais. A diferença entre elas era maior do que 20 anos (46,6 anos contra 66,9 anos). O grupo de deficiência de vitamina D também apresentava mais pré-condições do que os outros grupos. A porcentagem de pessoas que apresentavam outras doenças no grupo de deficiência chegou a 80%. Claramente, a pesquisa apresenta problemas no método, o que dificulta ainda mais estabelecer uma relação de causa e consequência entre a vitamina D e a Covid-19.

Isso nos leva ao segundo ponto. A pré-publicação do estudo foi publicado no dia 30 de abril de 2020, mas até o momento não foi revisado por pares, sequer foi publicado em uma revista científica indexada. Pelo contrário, a pré-publicação original foi retirada do ar a pedido dos pesquisadores.

Se isso não fosse suficiente, um estudo realizado por cientistas dos Estados Unidos, Reino Unido e outros países da Europa indicou que não existe correlação entre a substância e a diminuição na taxa de letalidade da doença. O artigo foi publicado no final de maio de 2020 em um conceituado jornal científico.

Além disso, as próprias autoridades de saúde não recomendam o uso de vitamina D para prevenir ou tratar a Covid-19. O Ministério da Saúde, inclusive, publicou um desmentido sobre o assunto. A equipe do Boatos.org também já havia desmentido a informação quando uma história sobre o uso da vitamina D e do zinco para prevenir o novo coronavírus começou a circular nas redes sociais.

É claro que ter bons níveis de vitamina D no organismo é extremamente importante, uma vez que a substância ajuda a regular os níveis de cálcio e fosfato no corpo. Níveis insuficientes de vitamina D podem levar ao raquitismo ou à osteoporose. Entretanto, altos níveis da substância por meio de suplementos também podem causar problemas. Nesse caso, os altos níveis de vitamina D podem levar ao aumento da quantidade de cálcio no sangue que, por sua vez, pode ocasionar pedras nos rins, sangramentos excessivos, músculos e ossos fracos.

Em resumo: a história que diz que altas taxas de vitamina D podem diminuir o risco de morte pela Covid-19 é falsa! A pesquisa não foi feita por Bernd Glauner e Lorenz Borsche e não é alemã. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Indonésia. Glauner e Borsche sequer são profissionais da área da saúde. Além disso, o estudo original possui diversos problemas de método, como diferenças de idade e doenças pré-existentes, o que enfraquece seus resultados. O estudo foi retirado do ar a pedido dos pesquisadores. Por fim, o próprio Ministério da Saúde não recomenda o uso de vitamina D para prevenir ou tratar a Covid-19. Recentemente, um estudo envolvendo diversos países acusou que não existe relação entre o uso de vitamina D e a redução da taxa de letalidade pela Covid-19. Ou seja, tudo não passa de balela (e das grandes). Não compartilhe!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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