Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) vai implantar o comunismo no Brasil #boato

Boato – Partidos estão se reunindo com a China para criar a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) e implantar o comunismo no Brasil.

O ano é de 2021, mas não é de hoje que há muita gente de olho em 2022. Tanto que as FPE (fakes pré-eleições) já começam a circular na internet. Uma delas fala sobre um tema que “fez sucesso” nas eleições de 2018: a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina).

Mensagens soltas que circulam em redes sociais falam de uma suposta ameaça da Ursal na implantação do comunismo no Brasil. Em uma delas, há o texto que aponta que já há reuniões entre Brasil e China para colocar o plano em prática. Leia uma das versões do tipo de mensagem que está circulando online:

GENTEEE URGENTE:. ESTÃO QUERENDO IMPLANTAR O COMUNISMO NO BRASIL. O PMDB e muitos outros partidos daqui e fora do Brasil se reuniram na China para este fim. Estão querendo implantar a chamada “ursal” união das repúblicas socialistas da Am. Latina, assim como foi na antiga URSS.

Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) vai implantar o comunismo no Brasil?

Não pela mensagem em questão, mas pela tese tem muita gente acreditando na tal história de Ursal. Só que a existência do tal plano não só foi desmentida aqui no Boatos.org em 2018 como também virou piada na internet posteriormente. Relembre o que falamos sobre o assunto. Primeiramente, vamos falar sobre um resumo do que consiste a tese (que foi publicada em um site chamado Dossiê Ursal):

Resumo da 1ª parte: Os 100 links apontam, entre outras teses, que o PT foi criado para ser subordinado ao Foro de São Paulo, que as urnas eletrônicas são amplamente fraudáveis, que Dilma quis encobrir o acidente de Eduardo Campos, que o Brasil optou por ser parceiro de países da América Latina, que houve a criação da Unasul (essa é importante) e outros itens.

Resumo da 2ª parte: O texto detalha como seria o “golpe comunista do PT no Brasil”. Basicamente, essa parte reforça a tese de que o PT quer dar um golpe no país, que o PSDB também faz parte do socialismo, que a solução seria uma intervenção militar e que há uma lista de 10 passos para a implantação da ditadura comunista na América Latina (o 9º passo seria Incorporação do Brasil e demais países da América Latina à URSAL).

Resumo da 3ª parte: Essa parte detalha como seria o contragolpe dos “defensores da pátria”. De início, o texto rechaça a ideia de que houve um golpe militar em 1964. Depois de citar ações para “enfraquecer a população” (como o desarmamento), o texto fala, novamente, que a solução está nos brasileiros irem às ruas e tomar o poder. Ao final, o texto tem uma suposta bandeira da URSAL com o slogan “O Império Comunista do Foro de São Paulo. Uma prisão de onde ninguém poderá escapar”.

Agora que vocês já sabem o que seria o suposto plano da Ursal, veja o que escrevemos em 2018 sobre tais acusações. Spoiler: tudo não passa de uma termo pejorativo que virou “realidade” por meio de perfis e sites conspiracionistas na internet.

O dossiê se baseia, basicamente, em duas coisas: em informações falsas e/ou não comprovadas e na opinião de quem segue a corrente de que a intervenção militar é a solução.

Muitas das “provas utilizadas” pelo dossiê passam pela denúncia de que as urnas são “fraudáveis” (algo não comprovado), de Dilma querer encobrir a morte de Eduardo Campos, de que Lula é sócio da Friboi e do PT ter um plano de dominação comunista. Em comum entre estas teses, está o fato de todas elas terem sido desmentidas no Boatos.org. Há muitas afirmações não comprovadas que estão na lista do dossiê, mas que não foram desmentidas por aqui. Ou seja: não é possível dizer que o dossiê se baseou em fontes confiáveis.

Segundo ponto: ao buscar sobre qualquer plano de criação da URSAL, só encontramos teorias da conspiração criadas no Brasil. Antes do Dossiê URSAL de 2014, o termo reverberou na internet em blogs que defendem a intervenção militar na época das conversas para a criação da Unasul em 2007 e 2008. Ou seja: não há qualquer registro para além de teorias criadas em blogs. Novamente, não há fontes confiáveis.

Voltando mais um pouco no tempo, descobrimos, com a ajuda desta matéria da Folha de S. Paulo, que o termo URSAL nasceu de uma ironia em um artigo opinativo de uma socióloga crítica ao PT em 2001. Na entrevista para a Folha, Maria Lucia Victor Barbosa afirmou que perdeu o controle do compartilhamento do termo: “Eu falava para as pessoas ‘não passa isso’ [adiante], mas não teve jeito, de repente espalhou”.

Mais algumas buscas e descobrimos o artigo, chamado Os Companheiros. O trecho que fala de URSAL é o seguinte: “Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?”. Deu para sacar o tom opinativo e jocoso?

Já deu para ver que o Dossiê Ursal não faz muito sentido, mas será que seria viável a tal União de Repúblicas Socialistas da América Latina? No contexto geopolítico atual, podemos dizer que chance é ZERO. Não vamos nos estender muito, mas pensa aí em três motivos:

1) A região tem governos de esquerda (como da Bolívia e da Venezuela) e de direita (como Argentina e Chile). Como que esses políticos iriam entrar em “acordo” para a criação de uma república? Vale dizer que os países da região (pelo menos os democráticos) passam por constantes alternâncias de poder. O que é esquerda hoje pode ser direita amanhã (o caso do Brasil é bem exemplar, por sinal).

2) Alguns países da região têm inimizades históricas. Só dois exemplos: a disputa da Bolívia e do Chile por uma saída para o mar e a rixa entre os governos da Colômbia e da Venezuela (recentemente, Maduro chegou acusar o ex-presidente da Colômbia Juan Manuel Santos de planejar um atentado). Como que países como esse iriam entrar em acordo?

3) Apesar de estarmos em uma mesma região, há inúmeras barreiras entre os países. Além da questão econômica (que contém inúmeras variáveis), tem a questão do idioma, barreiras culturais e de política interna. Desemaranhar isso em uma “união” seria quase impossível (para não dizer impossível).

Vale apontar que a história que era falsa em 2018 continua sendo falsa em 2020. Não há qualquer indício em fontes confiáveis que aponte para reuniões de partidos ou planos de ameaças de comunistas da Ursal no Brasil. Tudo que estamos vendo não passa de teoria da conspiração ou pura zoeira sobre o assunto.

Resumindo: a história que aponta que há um plano chamado Ursal que prevê trazer o comunismo ao Brasil é falsa. Em 2021, a história que está reverberando não passa de uma reciclagem de uma fake news que já circulava por aí desde 2018.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet