Raoni Metukire mora na França, é dono de ONG em Paris e vendeu aldeia por 120 milhões #boato

Boato – Raoni Metukire vendeu reservas na Amazônia por R$120 milhões, possui uma ONG em Paris e luta que o Xingu vire um país com apoio da França.

O líder indígena Raoni Metukire tem se tornado destaque, nos últimos anos, pela sua luta em prol da preservação da biodiversidade da Amazônia e dos povos que ali residem. Em meio à crise das queimadas na região, o nome de Raoni .

Crítico do governo Bolsonaro, o líder indígena não esconde sua insatisfação com o modo como o presidente brasileiro tem tratado as questões indígenas e também relacionadas à Amazônia. Por outro lado, Raoni parece ter se aproximado das lideranças europeias. Em maio de 2019, ele se encontrou com o presidente francês Emmanuel Macron para discutir apoio à sua luta em prol da proteção à reserva do Xingu.

Mas, de acordo com uma história que está circulando nas redes sociais, parece que a aproximação de Raoni com o líder francês envolveria outros interesses. Segundo publicações, ele teria vendido reservas indígenas na Amazônia pelo valor de R$120 milhões e teria ido morar na França. Além disso, as mensagens ainda apontam que Raoni seria presidente de uma ONG em Paris e estaria lutando pela independência do Xingu com apoio da França. Confira:

Versão 1: “DA SÉRIE CURIOSIDADES CURIOSAS: O que está por trás do Cacique de 89 anos chamado RAONI? Quem banca? Vive fora do Brasil há anos e é presidente de uma ONG em Paris….vc sabia? Além disso, ele advoga a independência da reserva Florestal do Xingu, a maior e mais rica reserva florestal do planeta! Eles querem se tornar um país independente do Brasil, e tem apoio dos Franceses para isso.

Não é incrível? Como somos feitos de trouxa, ou melhor, FOMOS feitos, pq agora, BOLSONARO detonou uma bomba que explodiu na cara dos globalistas! Por isso esse frenesi todo.NÃO QUEREM PERDER A BOQUINHA! O problema não é o desmatamento, é o desmamamento! Esse CACIQUE ANCIÃO RAONI, está servindo de bucha, de laranja. Esse amor todo pelo cacique que vc vê nas fotos dos presidentes que passaram pela história da França esses anos todos, é muito conveniente. Interesseiro! […]

Pois é minha gente, temos que abrir os olhos e entender que estamos em guerra. Temos que proteger nosso país das garras desses gringos, que ainda por cima estão tendo a ajuda dessa ESQUERDALHA sórdida! Eles não amam o país, amam seu projeto de poder. #AmazoniaSemOngs #AmazoniaÉdoBrasil”.

Versão 2: “Raoni ‘Metinukuenaotire’ vendeu metade da Reserva Indígena dos Caiapó, no Xingu e Bolsonaro mandou Ele devolver os 120 milhões! É natural ele espernear! Agora, acionar o lixo humano chamado Sting, que serviu de ‘corretor’ no negócio sujo é canalhismo barato! Como se o maconheiro tivesse moral pra reverter a situação! CAIAPÓ, única tribo brasileira onde o cacique mora em Paris… BRASIL, único País onde o poste mija no cachorro! Vão vendo!”.

Raoni Metukire mora na França, é dono de ONG em Paris e vendeu aldeia por 120 milhões?

Em meio à crise pela qual passa a Amazônia, a informação caiu como uma bomba para os brasileiros. Diversos internautas compartilharam as mensagens e se mostraram indignados com a situação. Mas será que essa história do cacique Raoni ter vendido “um trecho da Amazônia” para viver na França, ser dono de uma ONG em Paris e lutar pela independência do Xingu é real? Não é!

Vamos aos fatos! Ao ler os textos que falam sobre o líder indígena, percebemos diversos detalhes que deixam dúvidas. Em geral, as mensagens são vagas (apenas tecem acusações, mas não indicam lugares, datas ou nomes precisos). Também são bastante alarmistas, possuem erros de português e não citam fontes confiáveis, seguindo aquele velho roteiro de fake news na internet.

Não é nem preciso dizer que, nas últimas semanas, a equipe do Boatos.org tem se debruçado para dar conta de tantas informações falsas relacionadas à Amazônia. Reflexo disso é a matéria especial que reúne o compilado de 31 textos desmentidos sobre o assunto, nos últimos dias, no site. Além desses, ainda tivemos a história de que a França teria enviado militares à Amazônia.

Foi aí que decidimos buscar mais informações sobre o cacique Raoni (que ficou conhecido mundialmente, em 1977, após ser retratado em um filme que venceu o Festival de Cannes e, em 1989, após lançar uma campanha, junto do cantor Sting, em prol da Amazônia).

Ao investigar os detalhes da vida do líder indígena, a equipe do Boatos.org descobriu que ele não mora na França (assim como aponta a história). Tanto é que a visita de Raoni à Europa e seu encontro com o presidente francês Macron, em maio de 2019, se transformou em notícia. Caso o cacique realmente morasse na França, a notícia teria outro viés (e não a novidade de um líder indígena visitar a União Europeia). Além disso, outras reportagens apontam que Raoni continua morando na aldeia Xingu, levando uma vida simples e vivendo em uma cabana no local.

É importante destacar também que a tese de que Raoni é dono de uma ONG, em Paris, é falsa. Por ser mundialmente conhecido como um defensor da floresta amazônica, o cacique é presidente de honra de algumas organizações não-governamentais, como a brasileira Floresta Protegida e a francesa Forêt Vierge. Ou seja, ele não mora em Paris e muito menos exerce a função, já que o cargo é apenas simbólico.

Também buscamos por mais informações sobre a venda do Xingu ou independência da região, mas nada encontramos. O mesmo vale para o valor de R$120 milhões citado na história. Não conseguimos encontrar nenhuma matéria (além das publicações nas redes sociais) que pudessem embasar a informação (que, com certeza, caso fosse verdade, estaria nos veículos de comunicação). O mais próximos que conseguimos chegar disso é a informação de que há uma tentativa de levantamento de recursos para evitar que madeireiros invadam a região do Xingu.

Em resumo: a história que diz que Raoni Metukire mora na França, é dono de ONG em Paris e vendeu aldeia por 120 milhões é falsa! Além da história ser bastante alarmista, nenhuma informação citada no texto procede. Raoni não mora na França, não é dono de uma ONG, não vendeu reservas indígenas pelo valor de R$120 milhões e nem está pedindo a independência do Xingu com apoio da França. Tudo não passa de #boato. Sendo assim, não compartilhe!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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