Desenvolvedor prova que há fraude no código-fonte das urnas eletrônicas no Brasil #boato

Boato – Desenvolvedor de sistemas mostra a fraude nas urnas eletrônicas. Ele aponta que é possível direcionar votos a um candidato no código-fonte, que houve fraude em 2018 e que quem cuida dos códigos são três venezuelanos e um português.

Como falamos neste texto de ontem (que falava da ameaça de o “Brasil virar uma Venezuela”), falta mais de um ano para as eleições presidenciais do ano que vem, mas fake news tradicionais no pleito eleitoral já começam a circular. E, no caso de hoje, vamos falar de (mais) uma história que envolve urnas eletrônicas.

Um vídeo de um sujeito que se diz desenvolvedor de sistemas está sendo utilizado como se fosse a prova de que houve fraude nas urnas eletrônicas nas eleições de 2018 e que apenas o “voto impresso” seria a solução. No vídeo (que não será exibido aqui), ele faz diversas simulações de como seria feita a fraude durante a votação.

Em uma situação hipotética, ele aponta que votos podem ser desviados a um candidato em especial durante certos intervalos (no exemplo, ele mostrou que um voto estaria sendo direcionado a cada três votos) ou votos dados a um certo candidato poderiam ser anulados depois de um intervalo.

Após mostrar a situação, ele aponta que essa seria a prova de que o sistema das urnas eletrônicas é completamente fraudável, que quem cuida dos códigos da urna eletrônica são três venezuelanos e um português e, no final, ele é enfático ao dizer que a “solução” seria o voto impresso. Ele também crava ao dizer “urnas eletrônicas fraudadas. Elas, sim, estão sendo fraudadas debaixo do nosso próprio nariz” e pede compartilhamento.

Especialista prova que há fraude no código-fonte das urnas eletrônicas no Brasil?

Ao assistir o vídeo, é possível ficar impressionado. Muito engenhoso o sistema do rapaz. Porém (e ao contrário do que o vídeo dá a entender), o fato de ele ter construído um sistema com um código que desvia votos não prova que todas as urnas eletrônicas do Brasil foram fraudadas nas eleições de 2018.

Em nenhum momento, o sujeito prova que a simulação feita por ele foi, de fato, aplicada em alguma urna eletrônica no Brasil. Lembrando que, como o sistema de votação eletrônico não é “ligado em rede”, as urnas teriam que ser alteradas uma por uma para a “grande fraude” dar certo. Isso exigiria uma logística monstruosa (e mais do que “cinco minutos”) e, com certeza, deixaria furos.

Falando em “deixar furos”, sabe quantas denúncias comprovadas de fraudes em urnas eletrônicas temos na história das eleições no Brasil? Zero. Ninguém (nem mesmo o sujeito do vídeo) conseguiu comprovar que as urnas desviam votos ou que anulam votos para certos candidatos. Ou seja: falar em tese é fácil. Difícil é provar de verdade.

É tão difícil provar ser verdade que o próprio rapaz que gravou o vídeo se desculpou pelo trecho em que “cravou” que havia fraude nas urnas. Em vídeo enviado ao Boatos.org pelo pesquisador Cleber Moreira (que escreveu uma dissertação de mestrado sobre o trabalho da Justiça Eleitoral relacionado ao ambiente da internet e tem alguns arquivos relacionados a fake news nas eleições de 2018), o sujeito diz o seguinte:

Eu tô aqui hoje para corrigir e tentar amenizar um erro ali, que eu falei no final do vídeo. Ali no finalzinho mesmo, nos 15 ou 10 segundos finais, onde eu afirmo que as urnas foram fraudadas. Na realidade, nós não podemos afirmar nada se a gente não tiver prova.

No mesmo vídeo (que também não iremos publicar aqui), o rapaz aponta que não é possível saber se há fraudes nas urnas eletrônicas e que não teve acesso ao código-fonte utilizado nas urnas eletrônicas para as eleições.

Em um desmentido de uma fake news semelhante, o TSE, inclusive, apontou que o que é mostrado nestes exemplos não pode ser, de fato, aplicado nas urnas eletrônicas. Relembre o que escrevemos sobre “essas simulações”:

[A urna] se trata de um computador simples, e sim, de um dispositivo projetado conforme exigências estabelecidas pelo TSE para garantir a segurança de seu hardware. Dentre as várias especificidades, o aparelho é feito com perímetro criptográfico, além de ter teclado diferente do apresentado no vídeo (com microcontrolador próprio e perímetro criptográfico que o identifica como teclado de urna, e não como um teclado qualquer), proteção que evita que softwares alheiros à Justiça Eleitoral sejam carregados e executados no sistema e perfis operacionais exclusivos e limitados para fabricantes, desenvolvedores e testadores.

Os códigos-fonte dos softwares e dos firmwares das urnas eletrônicas são abertos à consulta durante seis meses antes das eleições para qualquer pessoa que queira verificar a existência de qualquer mecanismo malicioso e comunicar à Justiça Eleitoral. Antes do pleito, também são realizados testes públicos de segurança, nos quais os participantes podem expor vulnerabilidades que alterem o resultado da votação ou revelem o voto, quebrando o seu sigilo.

Vale apontar que o próprio TSE já refutou a informação de que “três venezuelanos e um português” detém o código-fonte das urnas eletrônicas. A informação já foi, inclusive, desmentida pelo Boatos.org em 2018.

Por fim, é importante frisar que é preciso cuidado com os pedidos de voto impresso nas eleições. Se o voto “impresso” for para as mãos do eleitor e servir como “comprovante de voto”, pode ser utilizado como ferramenta de prova no caso de “compra de votos” ou de coação para que se vote em certo candidato.

Mesmo que não seja esse o mecanismo, a votação impressa poderia (além de aumentar os custos das eleições) ser passível de fraudes se não for bem administrada. Por isso, qualquer decisão deve ser muito bem pensada.

Resumindo: por mais interessante que possa parecer o sistema mostrado no vídeo, ele não prova que houve fraude nas urnas eletrônicas nas eleições de 2018. Além de o sistema utilizado ser diferente do TSE e ser falso que o código-fonte das urnas está nas mãos de estrangeiros, o próprio rapaz do vídeo desmentiu a informação dita por ele.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet