Pular para o conteúdo
Você está em: Página Inicial > Mundo > É falso que Japão tenha formalizado um novo sistema educacional com cinco matérias hoje

É falso que Japão tenha formalizado um novo sistema educacional com cinco matérias hoje

Japão formalizou novo sistema educacional com 5 disciplinas hoje, diz boato (Foto: Reprodução/Facebook)

Boato – Novo sistema educacional do Japão, que prevê cinco matérias e zero lições de casa, foi formalizado hoje no país. 

  Introdução

Tem voltado a circular na internet uma mensagem que aponta para uma suposta “revolução” do Japão (o que volta e meia ocorre na internet). Textos apontam que o país lançou um “novo sistema educacional” hoje e que iria valorizar alguns pontos.

O texto cita que o sistema acabaria com as lições de casa e “disciplinas de preenchimento”. Haveria apenas cinco matérias: aritmética comercial, leitura, educação cívica, informática e idiomas.

Vídeo: é falso que imagens mostram Lulinha agredindo a esposa

Ao final, o texto aponta para o “perigo do Japão” (sempre com um pouco de preconceito do tipo “irão roubar nossos empregos) e faz críticas às “coisas que os jovens gostam” como moda, artistas, futebol, smartphones, skates etc. Leia o texto que está circulando por aí:

Confira o desmentido em vídeo:

Hoje o Japão formaliza seu NOVO SISTEMA EDUCACIONAL. O antigo sistema educacional japonês já era muito bom, mas este é tão revolucionário que treina as crianças como “Cidadãos do Mundo”, não como japoneses. Um esquema piloto revolucionário chamado “Brave Change” (Futoji no henko), baseado nos programas educacionais Erasmus, Grundtvig, Monnet, Ashoka e Comenius, está sendo testado no Japão. Trata-se de uma mudança conceitual. Eles entenderão e aceitarão culturas diferentes e seus horizontes serão globais, não nacionais, e o programa de 12 anos é baseado nesses conceitos:

– Zero matérias de preenchimento. – Zero lição de casa. – E tem apenas 5 matérias, que são: 1. Aritmética comercial. As operações básicas e o uso de calculadoras financeiras. 2. Leitura. Começam com o livro de escolha de cada criança e terminam com a leitura de um livro por semana. 3. Educação cívica. Isso é entendido como respeito total à lei, valores civis, ética, respeito às regras de convivência e tolerância, altruísmo e respeito à ecologia e ao meio ambiente. 4.  Conhecimento de informática. Escritório, Internet, redes sociais e negócios on-line. 5. Idiomas. 4 ou 5 alfabetos, culturas e religiões, incluindo japonês, latim, inglês, alemão, chinês e árabe; com visitas de intercâmbio social às famílias de cada país durante o verão.

Qual será o resultado desse programa? Jovens que, aos 18 anos, falam 4 idiomas, conhecem 4 culturas e 4 alfabetos. – São especialistas em usar seus computadores e telefones celulares como ferramentas de trabalho. – Eles leem 52 livros por ano. – Respeitam a lei, a ecologia e a convivência. – Conhecem a aritmética comercial e as finanças por dentro e por fora. Nossos filhos competirão com eles! 

E quem são nossos filhos? – Crianças que sabem mais do que as fofocas do show business da moda, que sabem e conhecem os nomes e as vidas de artistas famosos, mas nada sobre história, literatura ou matemática, entre outros? – Crianças que só falam mais ou menos português, que têm uma ortografia terrível, que odeiam ler livros, que não sabem fazer contas, que são especialistas em “trapacear” durante as provas e que desrespeitam as regras aos olhos dos pais e educadores. – Crianças que passam mais tempo assistindo e aprendendo as besteiras da Internet, da televisão ou dos jogos e ídolos do “futebol” do que estudando ou lendo, quase sem entender o que leem e, portanto, acreditam que um jogador de futebol é superior a um cientista. – Crianças que são os chamados homo-videos, porque não são socializadas adequadamente, mas são estupidificadas, zumbis.

São estupidificados, zumbis do iPhone e Android, tablets, skate, facebook, Instagram, chats; onde só falam das mesmas estupidezes que listamos antes ou com jogos de computador, em um claro isolamento que conhecemos como autismo cibernético e que atenta contra a liberdade, a educação, contra sua autoestima, autonomia, contra o respeito aos pais ou aos outros, contra o meio ambiente, a solidariedade, a cultura, e promove um egoísmo alarmante deixando uma sociedade cega. Acho que temos muito trabalho a fazer. Passe adiante se você achar que tem valor.

A mensagem consegue ter todas as principais características de fake news na internet. Ela é vaga, alarmista, tem erros de português e não cita qualquer fonte confiável que confirme a história. Não bastasse isso, ainda tem o pedido de compartilhamento. Sobre histórico de fake news nem vamos falar agora (leia mais um pouco e verás).

Checagem

Na parte da checagem do conteúdo, vamos responder às seguintes questões. 1) É verdade que o Japão formalizou o novo sistema educacional hoje? 2) Quais são os erros contidos no texto que fala sobre o novo sistema educacional do Japão? 3) As críticas aos jovens são justas?

É verdade que o Japão formalizou o novo sistema educacional hoje?

Nem o Japão “formalizou o novo sistema” tampouco o texto tem alguma coisa de nova. Na realidade, essa história de mudanças da educação do país é algo que circula, na internet, no mínimo, desde 2011. Em 2020, inclusive, o Boatos.org, desmentiu a informação e listou uma série de erros no texto. 

Quais são os erros contidos no texto que fala sobre o novo sistema educacional do Japão?

Vamos colocar novamente os itens que listamos em nosso texto de 2020, que foi escrito pela Raiane Gonoli, que trabalhou um período conosco. Spoiler: eles mostram, inclusive, que o texto foi escrito por pessoas que não entendem nada de Japão.

Nome errado do “novo sistema” do Japão

O termo “Futoji no henko” foi equivocamente traduzido como “Brave Change” (“Brava Mudança”), quando, na verdade, em japonês, a palavra significa “A mudança em Negrito” ou “A mudança do Negrito”, fazendo alusão à fonte escura que usamos em processadores de textos.

Patriotismo

No Japão, sequer se canta o hino nacional, idolatra a bandeira ou mesmo se tem um exército, já que a Constituição japonesa proíbe a participação do país em guerras após a derrota na Segunda Guerra Mundial;

Globalização (“crianças entenderão e aceitarão diferentes culturas e seus horizontes serão globais”)

Na verdade, apesar de ter se aberto ao exterior após o fim do Bakufu, em 1867, o Japão continua sendo um país fechado, o que ajudou a preservar os seus costumes, mas o que também dificultou a comunicação com outros países e aceitação de outras culturas.

Idiomas

No país, de fato, há ensino de inglês (a partir da quarta série e não é obrigatório todos os anos), mas não é lá essas mil maravilhas, já que a língua é ensinada por professores japoneses que não dominam o idioma e é lecionada apenas uma vez na semana.

Disciplinas

Matemática é ensinada desde o ensino fundamental, mas não há ensino de negócios; Computação a partir da quarta série (apesar de a maioria das escolas sequer terem laboratório de informática); e não há ensino de culturas, já que o Japão carece de significado religioso.

Além disso, o sistema educacional japonês atual ultrapassa a quantidade de cinco disciplinas, como descrito no boato, variando entre as séries de cada grau escolar. O currículo escolar japonês é constituído de matérias básicas, educação moral e atividades especiais pré-estabelecidas pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes , Ciência e Tecnologia do Japão. Elas totalizam 22, sendo 11 no Nível Primário e 11 no Nível Ginasial.

Duração

O sistema educacional japonês também não compreende 12 anos, como aponta o textão. Na verdade, são 17 anos (os alunos começaram aos 3 anos de idade no nível primário e terminam o período profissionalizante aos 20).

Atividades extracurriculares (“fillers”)

Por fim, o que os japoneses chamam de “fillers” são as atividades extracurriculares e elas não estão “zeradas”, como diz a publicação falsa. Lá, no Japão, elas acontecem após o horário normal de aulas, o que significa que o ensino funciona em período integral.  Quem quiser (sim, são disciplinas facultativas), pode praticar esportes ou aprender um instrumento musical na escola, por exemplo. Logo, também é falsa a informação de que há “zero fillers” no sistema de educação do Japão, uma vez que, inclusive, elas contam com 90% de participação dos alunos.

As críticas aos jovens são justas?

Mais do que não entenderem de Japão, as pessoas não entendem sequer de jovens. É claro que temos que orientar as crianças e adolescentes e fazer com que elas estudem (afinal, é com a educação que temos o futuro). Porém, criar um clima de pressão e acabar com todo tipo de entretenimento é a receita pronta para criar crianças tristes que vão resultar em adultos problemáticos. Vai dizer que você também não gostar de um “smartphone” ou um “zapzap”?

Conclusão

Fake news ❌

É falso que o Japão tenha criado um novo sistema educacional com cinco disciplinas e outras coisinhas mais. O texto é uma fake news que circula há mais de 10 anos e já foi desmentido aqui no Boatos.org.

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo siteFacebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

 – Siga-nos no Facebook http://bit.ly/2OU3Zwz
 – Siga-nos no Twitter http://bit.ly/2OT6bEK
 – Siga-nos no Youtube https://bit.ly/3vZsrnd
 – Siga-nos no Instagram http://bit.ly/2syHnYU
 – Grupo no WhatsApp https://bit.ly/3ounmCN
 – Lista no Telegram https://bit.ly/2VSlZwK
 – Siga-nos no TikTok https://bit.ly/3yPELWj
 – Siga-nos no Kwai http://bit.ly/3zGePPm