Japão formaliza novo sistema educacional com cinco disciplinas e patriotismo #boato

Boato – O Japão formalizou um novo sistema educacional com cinco disciplinas e patriotismo. É tão revolucionário que treina as crianças como “cidadãos do mundo” e não apenas como japoneses.

No Japão, a educação é prioridade entre os direitos fundamentais do cidadão. Não à toa, reconhecemos a população japonesa por sua inteligência e o seu sistema educacional (bastante diferente de como é aqui no Brasil) como um espelho para o mundo todo, o que inspira a curiosidade de muitos brasileiros em saber como funciona o ensino naquele país, com direito até a fake news circulando nas redes sociais com teorias um tanto “desconexas” sobre o assunto.

Uma publicação que começou a circular entre os internautas nos últimos dias, especialmente no WhatsApp, traz um textão informando que, supostamente, o Japão teria formalizado um novo sistema educacional composto por cinco disciplinas e com base no patriotismo. De acordo com o texto, o objetivo do novo modelo de ensino japonês seria treinar as crianças para se tornarem “cidadãos do mundo”, e não apenas japoneses.

Para isso, supostamente, o tal sistema, chamado “Brave Change” (Futoji no henko), teria a duração de 12 anos, traria conceitos como “zero fillers” (atividades extracurriculares) e “zero tarefas”, e os alunos aprenderiam apenas Aritmética de Negócios, Leitura, Cidadania, Computação e Idiomas.

De acordo com a postagem, que, inclusive, compara o suposto novo sistema educacional do Japão ao do Brasil, o resultado seria de jovens que, aos 18 anos, falam 4 línguas, conhecem 4 culturas e 4 alfabetos, em contrapartida aos jovens brasileiros, que seriam, em termos gerais, “zumbis de internet”. Confira, a seguir, o textão original da publicação que está rodando online:

Hoje o Japão formaliza o NOVO SISTEMA EDUCACIONAL NO JAPÃO É tão revolucionário que treina as crianças como “Cidadãos do mundo”, não como japoneses. Um esquema piloto revolucionário chamado “Brave Change” (Futoji no henko), baseado nos programas educacionais Erasmus, Grundtvig, Monnet, Ashoka e Comenius, está sendo testado no Japão. É uma mudança conceitual. Eles compreenderão e aceitarão culturas diferentes e seus horizontes serão globais, não nacionais. O programa de 12 anos é baseado nos seguintes conceitos: – Zero fillers. – Zero tarefas. – E tem apenas 5 disciplinas, que são: 1. Aritmética de negócios. Operações básicas e uso de calculadoras financeiras. 2. Leitura. Eles começam lendo uma folha diária do livro que cada criança escolhe e terminam lendo um livro por semana. 3. Cidadania. Entendendo isso, como total respeito às leis, valor civil, ética, respeito às regras de convivência, tolerância, altruísmo e respeito à ecologia e ao meio ambiente. 4. Computação. Escritório, internet, redes sociais e negócios online. 5. Idiomas. 4 ou 5 alfabetos, culturas, religiões, entre japonês, latim, inglês, alemão, chinês, árabe; com visitas de intercâmbio de socialização a famílias de cada país durante o verão. Qual será o resultado desse show? Jovens que aos 18 anos falam 4 línguas, conhecem 4 culturas, 4 alfabetos. – Eles são especialistas em utilizar seus computadores e telefones celulares como ferramentas de trabalho. – Eles lêem 52 livros todos os anos. – Respeitadores da lei, ecologia e convivência. – Eles lidam com aritmética de negócios e finanças na ponta dos dedos. Contra eles vão competir nossos filhos! E quem são nossos filhos? • Caras que sabem mais sobre as fofocas do desfile, que conhecem e conhecem os nomes e a vida de artistas famosos, mas sem história, literatura ou matemática, entre outros … • Meninos que falam apenas mais ou menos espanhol, que soletram mal, que odeiam ler livros, que não podem pagar a falência, que são especialistas em “trapacear” nos exames e em desrespeitar as regras aos olhos dos pais e educadores. • Meninos que passam mais tempo assistindo e aprendendo as bobagens da internet, televisão ou jogos de “futebol” e ídolos, do que estudando ou lendo, quase sem entender o que lêem, e por isso acreditam que um jogador de futebol é superior um cientifico. • Meninos que são chamados de homo-vídeos, uma vez que não são adequadamente socializados, mas sim que eles são estúpidos, zumbis de iPhone e Android, tablets, skates, Facebook, Instagram, chats; onde só falam das mesmas bobagens que enumeramos antes ou com jogos de computador, num claro isolamento que conhecemos como autismo cibernético e que ameaça a liberdade, a educação, contra a sua autoestima, autonomia, contra o respeito pelos pais ou pelos outros , contra o meio ambiente, a solidariedade, a cultura e promover um alarmante egoísmo deixando uma sociedade cega Acho que temos muito trabalho a fazer. Passe adiante se você o considerar valioso

Japão formalizou novo sistema educacional com cinco disciplinas e patriotismo?

A publicação chamou a atenção e viralizou rapidamente, rendendo vários compartilhamentos no “Zap”. Porém, apesar de encher os olhos, a informação sobre o funcionamento do sistema de educação japonês não procede.

E desconfiamos disso, a princípio, por conta de alguns indícios comumente vistos em publicações com fake news: a mensagem é vaga (a começar pelo termo “hoje” no início do texto, que, inclusive, como você vai ver mais à frente, não tem nada de recente), alarmista, possui erros de português e não cita fontes confiáveis de notícias que possam confirmar a veracidade da informação.

E foi aí que, ao buscarmos sobre a história, confirmamos o seu caráter vago: o texto existe há muitos anos, no mínimo, desde 2011. Mais intrigante ainda é que, aos pesquisarmos sobre o assunto, descobrimos que a única informação que circula sobre o tal “novo sistema” (que, se fosse real, não seria tão “novo” assim) é o próprio texto ou desmentidos dele, como esses aquiaqui e aqui.

Nesses sites, são citadas várias informações falsas descritas no texto, que, claramente, demonstram que quem o escreveu desconhece totalmente o funcionamento do ensino japonês, tais como:

Nome errado do “novo sistema” do Japão

O termo “Futoji no henko” foi equivocamente traduzido como “Brave Change” (“Brava Mudança”), quando, na verdade, em japonês, a palavra significa “A mudança em Negrito” ou “A mudança do Negrito”, fazendo alusão à fonte escura que usamos em processadores de textos.

Patriotismo

No Japão, sequer se canta o hino nacional, idolatra a bandeira ou mesmo se tem um exército, já que a Constituição japonesa proíbe a participação do país em guerras após a derrota na Segunda Guerra Mundial;

Globalização (“crianças entenderão e aceitarão diferentes culturas e seus horizontes serão globais”)

Na verdade, apesar de ter se aberto ao exterior após o fim do Bakufu, em 1867, o Japão continua sendo um país fechado, o que ajudou a preservar os seus costumes, mas o que também dificultou a comunicação com outros países e aceitação de outras culturas.

Idiomas

No país, de fato, há ensino de inglês (a partir da quarta série e não é obrigatório todos os anos), mas não é lá essas mil maravilhas, já que a língua é ensinada por professores japoneses que não dominam o idioma e é lecionada apenas uma vez na semana.

Disciplinas

Matemática é ensinada desde o ensino fundamental, mas não há ensino de negócios; Computação a partir da quarta série (apesar de a maioria das escolas sequer terem laboratório de informática); e não há ensino de culturas, já que o Japão carece de significado religioso.

Além disso, o sistema educacional japonês atual ultrapassa a quantidade de cinco disciplinas, como descrito no boato, variando entre as séries de cada grau escolar. O currículo escolar japonês é constituído de matérias básicas, educação moral e atividades especiais pré-estabelecidas pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes , Ciência e Tecnologia do Japão. Elas totalizam 22, sendo 11 no Nível Primário e 11 no Nível Ginasial.

Duração

O sistema educacional japonês também não compreende 12 anos, como aponta o textão. Na verdade, são 17 anos (os alunos começaram aos 3 anos de idade no nível primário e terminam o período profissionalizante aos 20).

Atividades extracurriculares (“fillers”)

Por fim, o que os japoneses chamam de “fillers” são as atividades extracurriculares e elas não estão “zeradas”, como diz a publicação falsa. Lá, no Japão, elas acontecem após o horário normal de aulas, o que significa que o ensino funciona em período integral.  Quem quiser (sim, são disciplinas facultativas), pode praticar esportes ou aprender um instrumento musical na escola, por exemplo. Logo, também é falsa a informação de que há “zero fillers” no sistema de educação do Japão, uma vez que, inclusive, elas contam com 90% de participação dos alunos.

Resumindo: A publicação que dá conta de que o Japão formalizou “hoje” o novo sistema educacional com cinco disciplinas e patriotismo é falsa. Além de o texto ser antigo, o atual sistema de ensino japonês não é composto somente por cinco disciplinas (são 22, na verdade), não há patriotismo (pelo menos não o ufanismo que muitos desejam) e quase tudo o que citam no texto é falso. Ou seja, trata-se de um textão velho e cheio de informações infundadas.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99458-8494.

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