Nostradamus previu a chegada do coronavírus em livro de 1555 #boato

Boato – Nostradamus previu em um livro de 1555 a chegada do novo coronavírus (Covid-19). Isso é mostrado por meio de um texto que cita o “ano de gêmeos” e outro que fala de “cidade marítima”.

Desde que o novo coronavírus (responsável pela Covid-19) surgiu na China e se espalhou pelo mundo, o que não tem faltado por aí são textos falando de supostas previsões em relação à doença. Já desmentimos aqui no Boatos.org mensagens que falavam de previsões em um livro de ficção científica, Asterix e Simpsons. Na história de hoje, vamos citar o “pai das previsões”: Nostradamus.

De acordo com mensagens que estão circulando em redes sociais, o médico francês que viveu no século XVI e é famoso pela sua suposta clarividência teria previsto a chegada no novo coronavírus. A tal tese se utilizou de dois caminhos para viralizar.

No primeiro deles foi dito que Nostradamus citou, em um livro de 1555, que uma rainha “no ano de gêmeos” surgiria e espalharia uma praga à terra das sete colinas. Na mensagem que está circulando no Brasil (e tem trechos em espanhol) há uma espécie de “tradução” do que teria sido escrito. Leia:

Nostradamus – Profecia de 1555. E no ano de gêmeos (2020) surgirá uma rainha (coroa-corona) desde o oriente que estenderá sua praga desde o oriente (China) que estenderá sua praga (vírus) vinda dos seres da noite (morcegos) à terra das sete colinas (Itália) transformando o pó (morte) aos homens do crepúsculo (ansiões) para culminar na sombra da ruína (fim da economia mundial). El símbolo que acompaña su publicación original de 1555 es increíblemente parecido y similar al CoronaVirus.

A segunda tese tem como base um livro chamado As Profecias em que Nostradamus teria previsto o novo coronavírus como uma “grande praga da cidade marítima”. Leia esta outra mensagem que circula por aí:

A PROFECIA DA PRAGA No livro de Nostradamus chamado “As Profecias”, o profeta escreveu algo que agora chama a atenção do mundo. Em uma de suas passagens, consta o seguinte trecho: “a grande praga na cidade marítima não cessará até que se vingue a morte de um justo aprisionado e condenado por crime algum; a grande senhora é ofendida pela pretensão”.

Nostradamus previu a chegada do coronavírus em profecia de 1555?

As duas versões se espalharam (cada uma ao seu modo) por aí. Mas será mesmo que Nostradamus previu a chegada do novo coronavírus em 2020? A resposta é não. Calma aí que a gente explica tudo para vocês.

Dado o histórico recente de “previsões falsas” em relação à chegada do novo coronavírus, já ficamos desconfiados da tal história. Bastou uma busca mais apurada para descobrir que as versões apresentadas acima são, respectivamente, falsa e exagerada. Vamos começar com a falsa.

O tal texto que fala de Nostradamus, ano de gêmeos, rainha e tudo mais nunca foi escrito pelo profeta. Na verdade, ele é um texto satírico (muito questionado na Espanha) publicado na página do personagem Gaturro.

No Brasil, a mensagem foi publicada na página do historiador Leandro Karnal, mas veja que o comentário dele sobre o assunto, que cita o erro de digitação em “ansião” (algo típico em fake news), denota que se tratava de uma ironia. “Minha aluna Beth enviou. Fiquei alarmado com o fim do mundo. Acho inevitável! Quando alguém escreve “ansiões” eu sinto que o Apocalipse está em curso. Nostradamus tinha razão: acabou”, diz o comentário.

Vale dizer que, mesmo descobrindo a fonte da mensagem, tentamos procurar por qualquer referência em relação ao suposto trecho do livro de Nostradamus e nada encontramos. Vale dizer, ainda, que a tese de que o coronavírus veio “do morcego” ainda não é completamente fechada (não se sabe com certeza de onde o vírus surgiu).

Agora vamos ao “segundo texto”. Ele, sim, está em um livro de Nostradamus de 1555. É fato, como mostra essa matéria, que Nostradamus publicou, mais exatamente em “Centúrias II”, a tal mensagem sobre cidade marítima. Porém, ele ter publicado não significa que ele previu o novo coronavírus.

Poderia ficar falando da forçação de barra que é falar que a cidade marítima seria Wuhan (que não é marítima e que está justificada por causa do “mercado de peixes”) e que a mensagem é tão subjetiva que as pessoas podem entender o que quiserem. Porém, achei este artigo do site Truthmeter, da Macedônia (que é uma reprodução do site, também macedônio, Crithink), que deixa as coisas tão claras que faço das palavras deles as minhas. Leia um trecho do que é escrito:

Nem um único grande evento do mundo passa sem Nostradamus e suas previsões. Como muitas vezes antes, a mídia conseguiu vincular o coronavírus ao Nostradamus, e o objetivo é único – através do sensacionalismo, com o mesmo número de cliques e leitura dos textos.

O trabalho de Nostradamus é expresso em tom, ou seja, versos de quatro linhas na forma de versos e quebra-cabeças, que não são organizados cronologicamente. De fato, a maioria das profecias de Nostradamus é mal traduzida, vaga e vagamente redigida, portanto aberta a várias leituras e interpretações, que por sua vez deixam espaço suficiente para um monte de especulações. 

Resumindo: a história que aponta que Nostradamus previu a chegada do novo coronavírus em um livro de 1555 é falsa. Uma das versões é um exagero de dar dó. A outra é falsa, no melhor (ou pior) sentido da palavra mesmo.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99177-9164. 

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet