Dra. Stella Emanuel fala a verdade ao dizer que hidroxicloroquina é a cura da Covid-19 e que máscaras fazem mal #boato

Boato – Médica do Texas, doutora Stella Emanuel, defende o uso da hidroxicloroquina que é a cura e também prevenção da Covid-19.

A pandemia da Covid-19 veio para abalar todas as estruturas dos serviços de fact-checking do mundo inteiro. O motivo? A quantidade absurda de fake news e a insistência em relação a determinados temas que envolvem a pandemia. Depois de um dia cheio e recheado de histórias falsas aqui no Boatos.org, uma publicação acabou com o nosso sossego. Nos últimos dias, o vídeo de uma médica norte-americana ganhou as redes sociais.

No vídeo, a suposta médica Stella Emanuel defendeu com convicção o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, ao mesmo passo que condenou o uso de máscaras e do isolamento social. Segundo a mulher, a combinação de hidroxicloroquina, azitromicina e zinco já teria salvo a vida de mais de 300 pessoas no Texas. Ela ainda afirmou que o uso de hidroxicloroquina antes da infecção serviriam como prevenção à Covid-19. Confira duas versões de mensagem que circulam online e a transcrição do vídeo (que não iremos colocar aqui):

Versão 1: “O que a médica Stella Emanuel diz neste vídeo é algo que já estou convencida há algum tempo. Precisamos conter o pânico e entender que há muitos interesses por trás dessa pandemia. Interesses esses que podem ser avassaladores para o nosso País se continuarmos não enxergando o que está bem à nossa frente. É óbvio que eu entendo sobre a seriedade do vírus, mas nós precisamos parar, colocar a mão na consciência e ouvir o que o nosso Presidente tem dito desde o início. Vamos trabalhar e nos cuidar! Também acredito que a hidroxicloroquina salva vidas!”.

Versão 2: “Esta mulher é altamente defensora do uso dos famosos fármacos odiado da COVID-19. A nigeriana Stella Emanuel, médica de clínica geral em Houston, Texas, EUA, orgulha-se de ter podido curar mais de 350 doentes de COVID-19, usando hidroxicloroquina, zinco enazitromicina. Eram pacientes, diz ela, do grupo dos “condenados à morte”, diabéticos; asmáticos; hipertensos, quase todos idosos. Diz que não perdeu nenhum para a COVID-19. Todos eles ficaram curados. Esta médica, num claro exercício de campanha, desaconselha o uso da máscara e defende a reabertura das escolas”.

Transcrição: “Eu sou a doutora Stella Immanuel, sou médica clínica geral, em Houston, Texas. Eu na verdade fiz faculdade de medicina na Nigéria, África. Cuidei de pessoas com malária e tratei elas com hidroxicloroquina e outras coisas assim. Então eu na verdade, estou acostumada com essas medicações. Estou aqui porque eu pessoalmente tratei mais de 350 pacientes com Covid. Pacientes que têm diabetes, pacientes que tem pressão alta, pessoas que têm asma, pessoas idosas. Eu acho que meu paciente mais idoso tem 92 anos, outro tem 87 e o resultado tem sido o mesmo. Eu coloquei eles na hidroxicloroquina, em zinco, com azitromicina, e eles estão todos bem. Nos últimos meses eu tratei mais de 350 pacientes e não perdi nenhum. Nem diabético, nem alguém com pressão alta, nem uma pessoa com asma, nenhuma pessoa. Nós não perdemos nenhum paciente. 

Além disso, eu coloquei a mim mesmo, minha equipe e vários médicos que conheço na hidroxicloroquina por prevenção. Porque pelo mecanismo de ação que funciona cedo, e como profilaxia. Nós atendemos 10 a 15 pacientes com Covid todo dia. Nós damos a eles tratamento respiratório e usamos apenas máscaras cirúrgicas, nenhum de nós ficou doente. Ela [hidroxicloroquina] funciona! Então, eu vim até aqui em Washington para dizer para a América. Ninguém precisa morrer Eu estou chateada, e a razão é que eu vejo pessoas que não conseguem respirar. Eu vejo pais e diabéticos sentarem no meu consultório sabendo que isso é uma sentença de morte. E eles não conseguem respirar. E eu abraço eles, e eu digo que vai ficar bem, você já vai embora. E nós os tratamos, e eles vão embora. Nenhum morreu. 

Então, se algum falso cientista vier, alguém patrocinado por essas falsas farmacêuticas, vier e dizer “ah, nós fizemos estudos e descobrimos que não funciona”. Eu posso dizer que categoricamente “é ciência falsa”. Eu quero saber quem está patrocinando esse estudo, quero saber quem está por trás dele porque não há como eu tratar mais de 350 pacientes e contando e ninguém está morreu e todos eles melhores. E você vai me dizer que testou 20 ou 40 e não funcionou? Esse vírus tem cura e se chama hidroxicloroquina, zinco e o azitromicina. Eu sei que você querem falar de máscara, ALÔ! Você não precisa de máscara, existe uma cura! Eu sei que você não quer abrir as escolas. Não! Você não precisa colocar as pessoas em lockdown, existe uma prevenção e existe uma cura”.

Dra. Stella Emanuel fala a verdade ao dizer que hidroxicloroquina é a cura da Covid-19 e que máscaras fazem mal?

O vídeo fez sucesso nas redes sociais e até foi compartilhado pelo filho do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas será que essa história de que a hidroxicloroquina teria salvado diversas vidas nos EUA e seria a solução para combater a Covid-19 é real? A resposta é um grande NÃO!

Vamos aos detalhes! Nos dias de hoje, o que não falta na internet são histórias falsas relacionadas a medicamentos “milagrosos”. De coração, a grande verdade é que ninguém dessa equipe queria estar aqui, MAIS UMA VEZ, desmentindo o mesmo assunto. Então, para poupar a sua paciência, querido leitor, eu deixo aqui um combo de desmentidos sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina produzidos pela equipe do Boatos.org ao longo da pandemia.

Assim como já dissemos em outros vídeos, não podemos questionar resultados que não acompanhamos. Os pacientes podem, de fato, ter se recuperado. Mas a grande questão aqui é que experiência pessoal não refuta Ciência. E bem, a Ciência existe por um motivo: construir conhecimentos sólidos acerca de um assunto, objeto ou tema. Já falamos aqui sobre o trabalho de um cientista e do processo científico. O fato é que pessoas que se dedicam à essa área, em média, estudam e trabalham por 10 anos (ou seja, não é pouca coisa). Além disso, o percurso de uma pesquisa é bastante rígido e o trabalho final sempre passa por revisão e validação de outros pesquisadores. Dessa forma, não tem como publicar algo só pelo simples fato de que você gosta ou não de determinada coisa. São necessárias provas, dados, resultados consistentes. Ciência é coisa séria!

Dito isso, vamos analisar algumas afirmações feitas ao longo do vídeo para mostrar os motivos pelos quais ele não só é uma fake news, como também realiza um desserviço nessa pandemia. Vamos lá!

1) “Eu coloquei eles na hidroxicloroquina, em zinco, com azitromicina, e eles estão todos bem”

De cara, a gente já começa com três histórias desmentidas. Não só no Boatos.org, nem só no Brasil, mas no mundo todo. Recentemente, uma pesquisa que reuniu os maiores hospitais do Brasil e grupos de estudos em infectologia e terapia intensiva confirmaram que a hidroxicloroquina foi ineficaz no tratamento de quadros leves ou em estágio inicial. O estudo também avaliou a associação da substância com a azitromicina. Após duas semanas de análise, o grupo tratado com a combinação foi o que teve o menor percentual de recuperados. A própria OMS já desaconselhou o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 por “não observar os benefícios do medicamento”. Outros estudos, inclusive, dos EUA, também já indicaram que a substância não serve como profilaxia (prevenção).

Além disso, o uso indiscriminado de hidroxicloroquina pode ocasionar problemas cardíacos. Na França, um estudo sobre efeitos colaterais da hidroxicloroquina e azitromicina (finalizado em março de 2020) mostrou que dezenas de pacientes desenvolveram problemas no coração. Alguns, inclusive, morreram. A hidroxicloroquina pode interferir no bom funcionamento do coração e causar arritmias que, por sua vez, podem levar à morte.

Em relação ao zinco, é apenas mais do mesmo. O Ministério da Saúde já desmentiu essa história de que o zinco poderia tratar a Covid-19. Vale lembrar que outras vitaminas e micronutrientes já foram usados em informações falsas sobre prevenção e cura da doença, como a vitamina C e a vitamina D. É importante ressaltar também que ingerir zinco em quantidade excessiva pode comprometer o sistema imunológico e também interferir na absorção de cobre, levando à anemia.

2) “Esse vírus tem cura e se chama hidroxicloroquina, zinco e o azitromicina”

Não. Infelizmente, não temos uma cura para a Covid-19 e muito menos um tratamento eficaz. O que temos, até o momento, são estudos que conseguiram provar que a administração de determinados medicamentos podem reduzir a taxa de mortalidade da doença. Para se falar em cura, precisamos de uma vacina. Até o momento, temos vacinas em estágios bastante avançados, mas ainda são necessários vários testes para se comprovar se elas, de fato, são eficientes. E mesmo com um resultado positivo ainda neste ano, a disponibilidade para uma imunização em massa só deve ocorrer em 2021. Além disso, ainda não sabemos como o sistema imunológico se comporta a longo prazo após a infecção pelo vírus. Por isso, a própria OMS evita em falar em “pessoas curadas”, mas sim em “recuperados”.

3) “Você não precisa de máscara, existe uma cura!”

Como a cura ainda não existe, você precisa de máscara sim! De acordo com um estudo da Universidade de Cambridge, o uso de máscaras (mesmo as caseiras) pode reduzir “drasticamente” a taxa de transmissão do vírus. Isso se um número considerável de pessoas usarem o equipamento. Dessa forma, o uso da máscara é uma das melhores formas de prevenção.

4) “Você não precisa colocar as pessoas em lockdown”

A mesma pesquisa da Universidade de Cambridge também destaca que a associação do uso de máscara e do isolamento social reduz ainda mais a taxa de transmissão do vírus. Outro estudo sobre o assunto, da Universidade Texas A&M, mostrou que o isolamento social, junto da quarentena e do rastreamento de contatos poderia ser uma “oportunidade de parar a pandemia”. Se isso não fosse suficiente, uma pesquisa publicada na Science, uma das revistas científicas da área da saúde mais conceituadas do mundo, indica que o isolamento social no Brasil reduziu a transmissão do SARS-CoV-2 no país pela metade.

Pois bem, se tudo isso não bastasse, a médica (que, na verdade, se chama Stella Immanuel) tem se envolvido em diversas confusões nos últimos anos. Além de médica, Stella é fundadora da igreja dos Ministérios do Poder de Fogo. Em seus vídeos na internet, ela defende que manter relações íntimas com “espíritos atormentadores” é a causa de problemas ginecológicos, abortos e impotência. A lista de absurdos não acaba por aí. A médica Stella Immanuel também acredita que tumores fibróides e cistos são causados pelo o que ela chama de “esperma demoníaco”. Para completar, ela chegou a afirmar em um vídeo que médicos estão usando DNA alienígena em tratamentos e pretendem instalar microchips nas pessoas.

Em resumo: a história que diz que a médica Stella Emanuel (que sequer se chama assim) falou a verdade ao dizer que a hidroxicloroquina é a cura da Covid-19 é falsa! Sempre vale lembrar: experiências pessoas não refutam Ciência. E o que a Ciência diz é exatamente o contrário de que Stella Immanuel (ou Emanuel) defende. A verdade é que não temos uma cura para a Covid-19 (muito menos um tratamento). Além disso, o uso da máscara e a prática do isolamento social são as medidas mais efetivas, até o momento, para evitar a contaminação. Independente de ser médica, o que Stella Immanuel diz não só é duvidoso, como é falso e completamente insano. Não acredite e não compartilhe!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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