Mulher passou fome e comeu um gato por causa de lockdown em Araraquara #boato

Boato – Áudio prova que a população está passando fome por causa do lockdown em Araraquara (SP), por isso, uma mulher comeu o gato da vizinha no Jardim São Rafael.

Sem dúvidas, um dos tipos de fake news mais difíceis de desmentir é o do áudio apócrifo no WhatsApp. Não são poucas as vezes que “denúncias bombásticas” sem nenhum lastro na realidade são compradas como verdade absoluta e dão trabalho para quem faz checagem. A história de hoje é um ataque frontal ao lockdown imposto em Araraquara (SP) para conter a disseminação do coronavírus na cidade.

De acordo com um áudio que circula no WhatsApp e foi comprado por pessoas simpáticas ao presidente Jair Bolsonaro e contrárias ao lockdown, a população da cidade está “passando fome” já no segundo dia do novo fechamento na cidade.

A mulher fala, de forma indignada e chorosa, que os moradores de Araraquara foram trancados em casa, que as fronteiras da cidade foram fechadas e que, por isso, uma mulher do “Jardim São Rafael” comeu o gato da vizinha após passar fome com um dia de lockdown.

No áudio, é dito o seguinte: “Foi eu que contei a história do gato, da mulher do Jardim São Rafael, que comeu o gato da vizinha. O prefeito é tão insolente, é tão absurda a ação dele que ele fechou as fronteiras da cidade para que ninguém saia e ninguém entre”.

Mulher passou fome e comeu o gato da vizinha por causa de lockdown em Araraquara?

Há algumas mensagens que apontam supostos motivos para a ação da mulher como a miséria do lockdown ou a “proibição” de sair de casa para comprar comida. Porém, é preciso fazer algumas considerações a respeito da “denúncia bombástica”. 1) Nem há qualquer prova de alguém esteja comendo gatos por causa do lockdown. 2) As informações que estão sendo espalhadas sobre o fechamento em Araraquara são falsas.

É lamentável que as pessoas não tenham aprendido com o erro crasso cometido no Amazonas no final do ano passado. Vamos relembrar para refrescar a sua memória: no final de 2020, o governador Wilson Lima, assinou um decreto de lockdown na cidade. Não demorou muito para “empresários” e lideranças políticas negacionistas começarem uma pressão para a derrubada do decreto. O governador cedeu e não faltaram mensagens do tipo “o povo venceu”.

Vinte dias depois, Manaus sofria com uma nova onda da pandemia, uma nova variante e a falta de oxigênio. Pessoas que seriam salvas em “condições normais” morreram por não ter acesso a oxigênio, que havia acabado por causa do grande número de infecções e hospitalizações.

Na realidade, a narrativa não só serve como pressão para que Araraquara restrinja as medidas de isolamento (e coloque a população em risco) como também não é comprovada (no sentido mais primitivo da palavra, boato) e carrega contradições desmentidas pela prefeitura da cidade e mídia local.

Ao analisar o áudio, percebemos um detalhe interessante. No meio do áudio em que a mulher fala sobre “população trancada em casa”, há uma buzina ao fundo. Isso nos permite aferir que há boas chances de sequer ela ter gravado o áudio em um ambiente fechado.

Para além disso, ela cita que a prefeitura da cidade “fechou as fronteiras da cidade” para que ninguém entre ou saia. De acordo com as regras do novo lockdown (que entrou em vigência no domingo, 20 de junho), não há qualquer previsão de “fechamento de fronteiras” para sair da cidade.

De acordo com as regras do decreto, há, sim, barreiras sanitárias para entrada de pessoas. Porém, se a pessoa não-residente tiver um exame negativo ou um certificado de vacinação, pode entrar na cidade. Não há restrições previstas para sair da cidade.

Sobre as mensagens que apontam que as pessoas não estão conseguindo “comprar comida por questões logísticas”. Ninguém na cidade está proibido de fazer compras. Mercados não funcionaram com atendimento presencial por dois dias (dá para fazer uma compra maior antes ou tentar delivery).

Se a questão é financeira, também há informações não-coerentes. Vamos considerar que alguém tenha “comido um gato em Araraquara” por não ter dinheiro para comprar comida. Dá para botar a culpa no lockdown? Se pensarmos que o lockdown começou no dia 20 de junho e o áudio já circulava no dia 21, seria uma correlação, no mínimo, espúria.

Uma pessoa que chega ao ponto de ter que matar animais domésticos para se alimentar já está em um nível de miséria que não dá para colocar a culpa no lockdown. Antes disso: a falta de assistência do governo (que, por exemplo, diminuiu e restringiu o auxílio emergencial), a crise econômica causada pela pandemia (e não pelo lockdown) e principalmente desigualdades sociais históricas que temos no Brasil.

Falamos “vamos considerar que alguém tenha comido um gato” porque, para além disso, a história tem tudo para não ser verdadeira. Primeiro a fonte da informação não é nada confiável. Um áudio no WhatsApp de alguém falando que outrem comeu um gato de outra pessoa não pode ser levada a sério sem provas. Por sinal, prova do ocorrido não há.

Ao buscar na mídia local, não há qualquer informação sobre o caso (ao contrário, há desmentidos aqui e aqui). A prefeitura de Araraquara também desmentiu a informação e apontou, inclusive, que tem prestado assistência a pessoas mais pobres da cidade. Veja o que foi publicado no Facebook oficial:

A Prefeitura lamenta e reforça que trata-se de mais uma fakenews. Notícia mentirosa. Não há na cidade registro sobre essa questão ou mesmo algo semelhante. Ao contrário, Araraquara, desde 2017, vem investindo forte na política de assistência, segurança alimentar e combate à fome, além dos vários programas de combate ao desemprego e qualificação profissional como Jovem Cidadão, Frentes da Cidadania, PMAIS (Programa Municipal de Agricultura de Interesse Social) com distribuição de cestas de hortifrútis nos CRAS adquiridas da agricultura familiar, Apoiadores no Combate à Dengue e no Combate à Covid, Bolsa Cidadania, dentre muitos outros programas da nossa rede de Assistência.

No início da pandemia, a Prefeitura criou a Rede de Solidariedade, uma forma de fazer o elo de quem precisa de ajuda com quem pode ajudar, além de ampliar a compra de alimentos. Até hoje, só a Rede de Solidariedade já distribuiu 25.803 cestas de alimentos, além dos kits de higiene. Somando com as cestas de estocáveis e hortifrútis da Secretaria da Educação, são mais de 200 mil cestas/kits entregues de 2020 até agora em socorro às famílias durante a pandemia.

É lamentável o uso político da pandemia. São mais de 500 mil famílias enlutadas no país e, em vez de focar-se nas medidas, que segundo a ciência, “são remédios para este enfrentamento” – o distanciamento social e a vacina, se gasta tempo fazendo politicagem, criando fakenews e usando de instituições públicas para fazer disputa partidária, divulgando mentiras.

Resumindo: apesar do alarde que estão fazendo com o “incrível caso da mulher que comeu um gato por causa do lockdown em Araraquara”, a narrativa não tem prova (ou mesmo lastro na realidade), não tem muito sentido e não há relatos do ocorrido na cidade.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet