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Japão não criou lei que proíbe o consumo de arroz requentado, porque faz mal à saúde

Japão criou lei para proibir pessoas de comerem arroz requentado porque faz mal, diz boato (Foto: Reprodução/X)

Boato – Lei no Japão proíbe que pessoas comam arroz requentado, porque pode fazer mal à saúde. Regra é de que produto seja consumido em até 24 horas.

Análise

O Japão é um dos grandes consumidores de arroz do mundo. Isso porque, boa parte dos pratos japoneses têm como base o produto. A paixão dos japoneses pelo cereal é tanta que até no mangá e anime Dragon Ball Z, um dos personagens recebe o nome de arroz (“Gohan”).

Mas de acordo com uma história que está circulando nas redes sociais, o Japão criou uma lei para proibir o consumo de arroz requentado no país. Segundo a história, o Japão afirma que comer o produto desta forma faz mal à saúde. Ainda segundo a publicação, o arroz requentado contém fungos que podem causar a doença beriberi, uma enfermidade que ataca o coração. Confira:

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“Não pode comer arroz de um dia pro outro. Você sabe, né? Você sabe da lei do Japão que, lá em 1921, eles proibiram todo mundo de comer arroz requentado. Porque isso aconteceu e porque eu quero que você faça isso na sua casa. Lá na década de 20, no Japão, começou a ter um surto de beriberi cardíaco, que é uma doença cardiovascular, com vários sintomas, que vai te paralisando e pode levar até a morte em alguns casos. E aí, descobriram que o arroz é um dos alimentos que mais desenvolvem fungos.

E hoje a gente sabe que se você pegar qualquer patologista e fizer uma análise de um dia pro outro do arroz, depois que você preparou, tá com fungo. Então, você pode preparar o arroz hoje de manhã e comer até o final do dia, colocando na geladeira, ou você prepara lá à noite e pode comer até de manhã no dia seguinte. Mas não pode passar de 24 horas, porque senão você vai comer arroz contaminado com fungo, com várias toxinas, incluindo, aflatoxina, que faz muito mal para a sua saúde, são até cancerígenos alguns componentes. Então, não pode comer  requentado. Sabia disso? Então, compartilhe esse vídeo com todo mundo, salva pra você não esquecer, manda pra todo mundo. Então, coma, mas na forma que te falei”.

Checagem

A partir daí, resolvemos investigar esse assunto e vamos te contar a seguir os motivos para não acreditar nessa história: 1) O Japão tem uma lei que proíbe as pessoas de comerem arroz requentado? 2) Há relação do arroz requentado com a doença citada, o beriberi? 3) Há problemas em comer o alimento que não tenha sido feito na hora?

O Japão tem uma lei que proíbe as pessoas de comerem arroz requentado?

Não. A lei citada na história de hoje é real, mas não tem nada a ver com requentar ou não arroz. Na realidade, em 1918, o Japão enviou 70 mil tropas do Exército para a Sibéria, com o intuito de lutar contra os bolcheviques. Para alimentar os soldados, o Japão precisou comprar grandes quantidades de arroz.

Por causa disso, os comerciantes japoneses começaram a estocar arroz, com o objetivo de forçar uma alta no preço do alimento e, consequentemente, vender o produto mais caro. Entretanto, a estratégia acabou prejudicando a própria população japonesa, que ficou sem arroz. A ação também elevou o valor do produto no mercado japonês. Por conta disso, a população japonesa realizou diversos protestos. Cerca de 25 mil pessoas foram presas.

Após todo o problema, o primeiro-ministro japonês Terauchi e o seu gabinete acabaram renunciando aos cargos, assumindo a responsabilidade pelo caos na ordem pública. E foi em 1921, em resposta aos protestos, que o governo do Japão criou a Lei do Arroz. A lei estabeleceu os direitos de importação e a capacidade de limitação das importações do alimento  fora do Império Japonês. A lei também permitiu que o governo japonês pudesse controlar a compra, venda, armazenamento e processamento do arroz, como também o preço.

A título de curiosidade, o editor-chefe e criador do Boatos.org, Edgard Matsuki, já morou no Japão. Ele afirma que não existe nenhuma lei que proíba os japoneses de requentar o arroz. Na realidade, no Japão, existem panelas de arroz, onde as pessoas costumam deixar o alimento pronto o dia todo, e mantêm o alimento aquecido. Segundo ele, ninguém nunca foi preso por este “crime”.

Há relação do arroz requentado com a doença citada, o beriberi?

Existem estudos que apontam uma relação indireta. O beriberi cardíaco é uma manifestação grave de deficiência de tiamina (vitamina B1). De acordo com os estudos, o arroz pode conter fungos, como Aspergillus flavus ou Fusarium species. Esses fungos produzem micotoxinas, em especial, as aflatoxinas.

Por sua vez, a aflatoxina é uma toxina que está associada à deficiência de tiamina (vitamina B1), que pode causar o beriberi. As aflatoxinas podem causar diversos problemas de saúde e uma das consequência é a interferência na absorção e no uso da tiamina (vitamina B1), levando à diminuição da biodisponibilidade da tiamina, o que contribui para a deficiência da vitamina B1. Não é uma relação, necessariamente, com requentar o arroz.

A página Nunca vi um cientista também desmentiu a história. De acordo com eles, a recomendação mais restrita é em relação ao gohan (o arroz temperado para o sushi). Por conta da manipulação e do tempero para sushi, o gohan fica mais vulnerável à contaminação. Por isso, deve ser consumido no mesmo dia.

Há problemas em comer o alimento que não tenha sido feito na hora?

De acordo com a página Nunca vi um cientista, os brasileiros podem ficar tranquilos. O arroz que costumamos preparar aqui no Brasil pode ser requentado sim. O mais importante, nesse caso, é o armazenamento. A página destaca que o tempo máximo que um alimento pode ficar fora da geladeira depois de cozido é 2 horas.

Se for uma região quente ou o dia estiver com altas temperaturas, o recomendado é guardar o alimento na geladeira em até 1 hora. Caso você não consiga comer toda a refeição em até três dias, o ideal é congelar o alimento. O armazenamento incorreto dos alimentos pode causar intoxicação alimentar. Ou seja, é só você não largar a sua refeição em cima do fogão o dia todo, que tudo vai ficar bem.

Conclusão

Fake news ❌

A prática de requentar o arroz não faz mal à saúde. O grande problema está no armazenamento.  Se isso não bastasse, a lei citada na história não tem nenhuma relação com requentar ou não. Na realidade, a lei citada fala sobre a possibilidade do Japão poder controlar o preço, a compra, a venda, o armazenamento e o processamento do arroz no país.

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail [email protected] e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610).