China vai usar vacina de Oxford em vez da chinesa em toda população #boato

Boato – A China decidiu comprar a vacina de Oxford para distribuir à sua população em vez de usar a vacina produzida no país. A vacina chinesa vai para o Brasil. Isso é uma bomba e uma incoerência.

Já falamos, mais de uma vez, que os boatos sobre o coronavírus estão tão esgotados que, neste instante, o que mais estamos vendo são “reciclagens” (no sentido mais real da palavra) de fake news. A mais nova ressuscitou uma teoria da conspiração falsa desmentida lá em agosto.

Após a empresa Shenzhen Kangtai Biological Products anunciar um acordo para produzir a vacina da AstraZeneca (também chamada de vacina de Oxford) na China, começaram a circular insinuações de que essa seria a prova de a vacina chinesa não funciona. Mais do que isso, seria a prova de uma “malandragem”: os chineses se imunizariam com a vacina da Suécia e mandariam a vacina chinesa ao Brasil.

Na época, fizemos um desmentido e achávamos que tudo tinha acabado. Porém, uma “bela alma” resolvemos escrever a seguinte mensagem (em tom de novidade) em outubro de 2020: “BOMBA: CHINA COMPRA VACINA DE OXFORD PRA DISTRIBUIR A SUA POPULAÇÃO E VENDE A CHINESA AO BRASIL”. A mensagem ainda falava em “incoerência”.

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China vai usar vacina de Oxford em vez da chinesa em toda população?

A nova versão da história circulou com muita força na internet e, claro, já deixou margem para inúmeros comentários. Porém, a aquisição do direito de produzir a vacina de Oxford em seu território não significa que as “vacinas chinesas” não serão utilizadas, não se trata de uma “bomba” e tão pouco aponta incoerência. Boa parte da explicação feita na versão anterior do boato se aplica à história de hoje. Por isso, relembre o que foi dito:

Basta uma rápida leitura para perceber que alguns detalhes não fazem o menor sentido. Atualmente, estamos em uma espécie de “corrida” por uma vacina. Seis delas já estão na fase três dos testes, ou seja, em estágio avançado. Três dessas vacinas são chinesas (entre elas, a CoronaVac) e uma é inglesa (a ChAdOx1 nCoV-19, também conhecida como “vacina de Oxford”). Nesse cenário, apostar as fichas em apenas uma vacina (que ninguém sabe se terá o melhor desempenho) é insano e irresponsável. Apostar as fichas em apenas uma possibilidade diminui, completamente, as chances de cura. O próprio Brasil é um exemplo. Os governos federal e estaduais estão investindo em diferentes opções de imunização, para garantir que a cura chegue ao nosso país.

Além disso, a desenvolvedora da vacina CoronaVac não é a mesma empresa que fez o acordo de produção da vacina ChAdOx1 nCoV-19. É importante ressaltar que as vacinas são bastante diferentes. A vacina CoronaVac é produzida pela empresa chinesa Sinovac e usa o vírus inativo do SARS-CoV-2 para gerar uma resposta imune do organismo. Esse tipo de vacina é considerada a mais segura e a tecnologia já é utilizada em outras vacinas, como da Influenza e algumas hepatites. A empresa Sinovac é conhecida mundialmente por ter sido o primeiro laboratório a desenvolver uma vacina contra a hepatite A e a H1N1.

Já a vacina ChAdOx1 nCoV-19, desenvolvida por um laboratório ligado à Universidade de Oxford, teve suas doses de testes fabricadas pela empresa italiana Advent-IRBM. Caso ela funcione, será distribuída pela empresa sueco-britânica AstraZeneca. A vacina ChAdOx1 nCoV-19 usa uma tecnologia mais atual, utilizando um adenovírus de chimpanzés que contém a proteína Spike (a qual o vírus SARS-CoV-2 usa para se ligar e infectar as células humanas). Dessa forma, não existe qualquer tipo de ação no sentido de abrir mão de algo para se investir em outra coisa. Até porque sequer as vacinas partem da mesma tecnologia.

O terceiro argumento é que o acordo de produção prevê 200 milhões de doses (mas, até o momento, o laboratório chinês confirmou somente 100 milhões) e a China possui mais de 1,3 bilhão de pessoas. Ou seja, mesmo que a vacina ChAdOx1 nCoV-19 funcione, a China ainda vai precisar de muitas (mas muitas mesmo!) outras doses.

Por fim, além da acusação ser esdrúxula, o fato é que não existem provas de que a vacina CoronaVac não funciona. Muito pelo contrário, estudos têm indicado um bom desempenho na fase de testes. Nesse sentido, o ônus da prova é de quem acusa e já que não temos provas em nenhuma das publicações, acho que já dá para entender que elas não passam de boato.

É importante citar que, mais recentemente, o Projeto Comprova fez um desmentido sobre o assunto. Além do que já havíamos apontado em agosto, a publicação reforçou que a prática de trabalhar com uma diversidade de fornecedores é comum em diversos países (foram citados Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Índia, Brasil, Canadá e Japão) e que a produção da vacina de Oxford na China ainda depende da comprovação da eficácia do produto.

Resumindo: ao contrário do que apontam mensagens que circulam por aí, não há nada de “bomba” ou de “incoerência” na aquisição da vacina de Oxford por parte de um laboratório chinês. Além de a produção estar condicionada à eficácia do imunizante, a quantidade não é suficiente para a população da China e a prática não é exclusividade do país. Até o Brasil utiliza uma estratégia parecida. Vale dizer que a mensagem que circula em outubro é uma reciclagem de um boato já desmentido em agosto deste ano.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet