Centro de Epidemiologia de Milão escreve texto comparando tratamento contra Covid-19 em fevereiro e agosto de 2020 #boato

Boato – Centro de Epidemiologia de Milão (Itália) escreveu um texto informando cinco motivos de porque há mais chance de sobrevivência da Covid-19 em agosto de 2020 do que havia em fevereiro de 2020.

Estamos quase completando seis meses do anúncio do primeiro caso de infecção pelo novo (que já não é mais tão novo) coronavírus no Brasil. Com mais de 100 mil mortos, o país ainda sofre com as consequências da doença (e de uma má gestão dela). Porém, nesse período, pode-se aprender muita coisa para combater a Covid-19.

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Ainda não temos vacina ou mesmo um remédio 100% eficaz contra a doença, mas é fato que médicos estão sabendo combater a doença de uma forma mais eficaz. Neste cenário, um texto começou a circular na internet e dá conta de que o Centro de Epidemiologia de Milão escreveu um texto apontando os motivos para a queda da letalidade da doença. Leia a mensagem que circula online:

Confira o desmentido em vídeo:

VALE A PENA Do Centro de Epidemiologia de Milão. Para esta pandemia, há uma probabilidade maior de sobrevivência para aqueles que serão infectados 5 meses depois, como em agosto de 2020, do que para aqueles que foram infectados 5 meses antes, digamos em fevereiro de 2020. A razão para isso é que médicos e cientistas sabem muito mais sobre COVID-19 agora do que 5 meses atrás e, portanto, são capazes de tratar melhor os pacientes. Vou listar 5 aspectos importantes que sabemos agora e que não conhecíamos em fevereiro de 2020:

1. O COVID-19 foi inicialmente pensado como causador de mortes por pneumonia – uma infecção pulmonar – e assim os ventiladores foram considerados a melhor maneira de tratar pacientes doentes que não podiam respirar. Agora sabemos que o vírus causa coágulos sanguíneos nos vasos sanguíneos dos pulmões e outras partes do corpo, o que provoca oxigenação reduzida. Agora sabemos que simplesmente fornecer oxigênio por meio de ventiladores não vai ajudar, mas temos que prevenir e dissolver micro coágulos nos pulmões. É por isso que estamos usando medicamentos como * Aspirina e Heparina (anticoagulantes que evitam a coagulação) como um protocolo nos regimes de tratamento a partir de julho de 2020. *

2. Anteriormente, os pacientes caíam mortos na rua ou mesmo antes de chegarem ao hospital devido a redução do oxigênio no sangue – SATURAÇÃO DE OXIGÊNIO. Isso aconteceu pelo que é conhecido como HAPPY HYPOXIA, onde embora a saturação de oxigênio fosse gradualmente reduzida, os pacientes com COVID-19 não apresentavam sintomas até que estivessem criticamente reduzidos, como às vezes em até 70%. * Geralmente ficamos sem fôlego se a saturação de oxigênio cair abaixo de 90%. * * Essa falta de ar não é desencadeada em pacientes COVID e é por isso que trouxemos pacientes doentes aos hospitais no final de fevereiro de 2020. […]

3. Não tínhamos medicamentos para combater o coronavírus em fevereiro de 2020. Tratamos apenas complicações causadas por hipóxia. Portanto, a maioria dos pacientes ficou seriamente infectada. * Agora temos 2 medicamentos importantes FAVIPIRAVIR E REMDESIVIR *, que são ANTIVIRAIS que podem matar o coronavírus. Usando esses dois medicamentos, podemos evitar que os pacientes se infectem seriamente e, portanto, curá-los ANTES DE IR PARA HIPÓXIA. Tivemos esse conhecimento em agosto de 2020 … não em fevereiro de 2020.

4. Muitos pacientes com COVID-19 morrem não apenas por causa do vírus, mas também pela resposta do próprio sistema imunológico dos pacientes, de uma forma exagerada chamada de TEMPESTADE DE CITOCINA. Essa violenta tempestade da resposta imunológica não apenas mata o vírus, mas também mata pacientes. Em fevereiro de 2020 não sabíamos como evitar que isso acontecesse. Agora, em agosto de 2020, sabemos que os medicamentos facilmente disponíveis chamados esteróides, que médicos em todo o mundo vêm usando há quase 80 anos, podem ser usados ​​para prevenir a tempestade de citocinas em alguns pacientes.

5. Agora também sabemos que as pessoas com hipóxia melhoram apenas fazendo com que deitem de bruços, o que é conhecido como posição prona. Além disso, alguns dias atrás, cientistas israelenses descobriram que uma substância química conhecida como Alpha Defensin, produzida pelos glóbulos brancos, pode causar micro coágulos nos vasos sanguíneos dos pulmões e isso poderia ser prevenido por um medicamento chamado Colchicina, usado por muitas décadas no tratamento da gota.

Portanto, agora sabemos, com certeza, que os pacientes têm uma chance melhor de sobreviver à infecção por COVID-19 em agosto de 2020 do que em fevereiro de 2020. Continue tomando precauções. Saia apenas para o essencial! Não há festa, chá de bebê ou formatura do jardim de infância essencial !!!!!!!!!!! Vamos parar de ser superficiais! É melhor estar infectado daqui a mais 6 meses do que agora. Vamos dar tempo à ciência para nos ajudar e aos sistemas de saúde a descongestionar! Atualmente também é necessário analisar a Saturação Hospitalar e o desgaste físico e mental do Pessoal de Saúde (Informações do bate-papo de especialistas do COVID-19) […]

Centro de Epidemiologia de Milão escreve texto comparando tratamento contra Covid-19 em fevereiro e agosto de 2020?

É fato que a mensagem (inclusive trechos suprimidos) acerta em muitas informações que precisamos destacar antes de derrubar o que há de falso. 1) É fato que é melhor pegar a doença daqui a seis meses do que hoje (quando teremos, quem sabe, até uma vacina ou um remédio eficaz). 2) É fato que o isolamento e o uso de máscaras são importantes. 3) É fato, sim, que a ciência e a medicina estão utilizando a curva de aprendizado prático para combater mortes. 4) É fato que a taxa da letalidade (número de mortos em relação ao número de casos) diminuiu. Porém, há também de informações erradas na mensagem.

Para começar, vamos falar no texto de âmbito geral. Não é possível aferir a queda na taxa de letalidade da Covid-19 apenas à melhora de tratamento. Esse é um dos fatores. Os outros são o aumento da testagem (com mais casos confirmados em pacientes assintomáticos ou com sintomas leves, a letalidade cai) e ao fato da Covid-19 atingir países com menor número de pessoas acima de 80 anos em relação, por exemplo, à Itália (pega em cheio pela doença em março).

Não bastasse isso, os aspectos citados estão, no mínimo, imprecisos. Sobre o item 1, há impressão de que todas as mortes são causadas pela coagulação e que a pneumonia não é o mais preocupante e que respiradores não são importante. A informação não procede. Os respiradores ainda são essenciais em alguns casos de tratamento da doença e a pneumonia causada pelo coronavírus ainda mata muita gente, infelizmente. Há um fake muito parecido com esse desmentido no Boatos.org.

Sobre o item 2, está quase tudo certo. O que não está certo é o trecho que fala que “pacientes caíam mortos na rua” por Covid-19. Na realidade, essa ideia vem de um vídeo falsamente atribuído a doentes por coronavírus na China. Ele foi desmentido aqui. O item 3 erra ao dizer que há remédios que curam com 100% de eficácia a doença. Apesar de serem apontados como possíveis remédios para o tratamento, o Remdesivir e o Favipiravir ainda não têm a eficácia 100% comprovada.

Os itens 4 e 5 estão quase certos. O único escorregão (por assim dizer) está na recomendação de remédios. A colchicina, por exemplo, pode causar problemas graves à saúde se tomada indiscriminadamente.

Como vocês viram, o texto tem um “cadinho” de incorreções, mas existem mais dois erros “decisivos” para que ele chegasse ao Boatos.org. 1) Nem a comparação em questão é entre fevereiro e agosto. 2) Nem a autoria do texto é do Centro de Epidemiologia de Milão.

Ao procurar pelo artigo em inglês, encontramos uma versão mais antiga dele de junho de 2020. Na época, o texto (que tinha o mesmo teor) comparava junho e março. Detalhe: a versão não foi criada pelo Centro de Epidemiologia de Milão. Foi um texto que surgiu anônimo na internet mesmo.

Resumindo: apesar de o texto em questão ter algumas informações corretas (sim, estamos evoluindo e é preciso manter o isolamento social) sobre tratamento contra o coronavírus, o número de informações erradas e o crédito errado fazer a história da “carta” do Centro de Epidemiologia de Milão cair na seara do “boato”.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61)99177-9164. 

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet