Boi sequestro, morto na estrada, é a causa da carne podre no Brasil #boato

Boato – Carne podre vendida no Brasil e desbaratada na fiscalização da Operação Carne Fraca vem do boi sequestro, aquele que morre a caminho do abate.

Não é preciso nem falar que a Operação Carne Fraca, a maior da história da Polícia Federal, está causando o maior rebuliço. As denúncias de fraudes na fiscalização de grandes frigoríficos e de venda de carnes que não deveriam serem vendidas têm feito diversas denúncias aparecerem na internet.

Uma delas vem por meio de um áudio no WhatsApp e dá conta que a carne podre do Brasil tem procedência no “boi sequestro”. De acordo com o áudio, gravado por uma mulher que disse ter trabalhado no frigorífico LX (que depois teria virado Friboi) por mais de 10 anos, o boi que morre na estrada vai para a mesa das pessoas. Leia a transcrição:

Vou te explicar melhor, meu celular estava descarregando por isso vou fazer mensagem de voz. Eu ja trabalhei 10 anos em frigorífico. Trabalhei no frigorífico do LX por 10 anos, que hoje é a Friboi. Eu trabalhei 5 anos na desossa e 5 anos na inspeção. Na verdade, essas carnes podres que hoje estão aí e que vieram à tona, na verdade nós sempre consumiu esta carne. Veja bem, essa carne podre vem do boi sequestro.

O que é boi sequestro. O boi sequestro é aquele boi que morre na estrada. Tipo assim, vai uma viagem de boi daqui para São Paulo. A maioria deles, morre de 80 a 100 bois na viagem. Morre de sede, de fome, de raiva de ir, entendeu. Por está muito apertado dentro do carro, o baque, a quentura. Então, o gado morre e o frigorífico não pode perder nada. Imagina que um frigorífico vai perder 80 a 100 bois que morrem. Mas nunca. Então, nós já cansemo de lidar assim com esse gado. Então, chama assim: boi sequestro.

Quando ele chega no frigorífico, ele está a uma, duas, três horas, até cinco horas morto. Então, esse tipo de gado é levado para inspeção. Lá tem a pessoa própria para poder lidar com eles. Aí, eles é escarneado, tudo, porque já tá morto. Entendeu? A carne deles é podre. O sangue tá um fedor imenso porque é podre. Você não tem noção.

Então tirando a carne deles porque tá tudo escarneado, a carne deles vai para um tanque. Então, aquela carne vai para um tanque imenso com uma água quente e um corante vermelho, que representa que tá uma carne linda, bonita, uma carne fresca. Mas, na verdade, não é. Depois, ela vai para a selovac. Nem todas elas vai para a selovac. A carne é vácuo, entendeu.

Então, na verdade, essa carne de boi sequestro não pode ser transportada para fora, pros outros países, entendeu? Essa carne é consumida aqui no Brasil. Se o boi sequestro foi até São Paulo, ele é consumido aqui. Se foi em Mato Grosso, é consumido aqui. Porque a inspeção bate em cima. Ou seja, se é exportado lá fora, é uma multa tão grande que o frigorífico nunca consegue pagar. Ele vai a falência. Então, o frigorífico nunca perde nada. Então a gente consome essa carne podre, que é do gado sequestro, que é o gado morto há duas, três, quatro horas e já tá até desfigurando, entendeu? é isso aí.

Boi sequestro, morto na estrada, é a causa da carne podre no Brasil?

É claro que o tal áudio passou a circular pelos quatro cantos do WhatsApp. Mas será mesmo que é real a história que fala sobre o tal boi sequestro e a carne podre no Brasil? A resposta é não. Vamos aos fatos.

Começamos a análise do áudio pelas informações passadas pela mulher. A primeira é em relação ao termo “boi sequestro”. Não achamos nada a respeito em períodos anteriores ao áudio. O único termo que achamos relacionado a “sequestro” está nas câmaras de sequestro, que são os locais onde a carne tenha que aguardar uma avaliação final como, por exemplo, exame laboratorial.

Outra informação que não conseguimos encontrar foi em relação ao “LX que depois virou Friboi”. Das duas uma, ou não ouvimos corretamente o que a mulher falou no áudio (mas parece ser LX) ou ela se confundiu (o que é bem estranho para quem trabalhou por 10 anos no local). Não achamos nenhum frigorífico com esse nome (muito menos que virou Friboi).

Outros pontos no áudio não estão muito claros. A mulher diz que morrem “de 80 a 100 bois por viagem”. Mas não diz quantos viajam, por exemplo. Isso é muito ou pouco? Também não explica direito como funciona o uso do selovac (equipamento de embalagem a vácuo). Essas informações vagas e de “floreio” só ajudam a denunciar a farsa.

Vamos ao segundo ponto: de fato, a viagem do gado até o abate é muito estressante (documentários que defendem o fim do consumo de carne batem nessa tecla. Se tiver coragem, assista um deles) e, de fato, alguns morrem no caminho. Porém, a “Operação Carne Fraca” não cita nada do que foi dito no áudio em seu relatório.

De acordo com a decisão judicial que deflagrou a operação (leia a parte 1 e parte 2), há uma série de irregularidades encontradas na produção dos alimentos como, por exemplo, o embalamento de carne vencidas e o uso de ácido ascórbico para deixar a carne com uma aparência melhor. Porém, nada foi dito sobre gado que morreu a caminho do abate. Se há algo, não foi divulgado.

Só para terminar, a imagem utilizada em postagens relacionadas ao áudio nada tem a ver com gado morto em caminho do abate. Ela é de um caso de bois que foram mortos após uma tempestade no Acre. 

Resumindo: o áudio que circula pelo WhatsApp não tem procedência, tem uma série de erros de informações e a Operação Carne Fraca não fala em nada sobre as acusações. Além disso, o termo “boi sequestro” não tem registro algum antes do áudio circular. Boato dos grandes.

PS.: esse artigo é uma sugestão de diversos leitores via WhatsApp. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook ou WhatsApp no telefone (61) 99331- 6821.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet