Boato – A árvore de natal teria origem na história de Ninrode e que suas bolas decorativas representavam testículos de crianças.
Análise
Mesmo fora do período das festividades de fim de ano, um vídeo com teor polêmico ganhou repercussão expressiva nas redes sociais ao contestar os símbolos tradicionais do mês de dezembro. A gravação associa elementos clássicos da ornamentação natalina a rituais da antiga Mesopotâmia, afirmando que as práticas adotadas hoje em lares e cidades trazem consequências espirituais negativas para quem as reproduz.
O relato afirma que a árvore de Natal nasceu a partir de uma lenda envolvendo as figuras históricas e mitológicas de Ninrode, Semíramis e Tamuz. De acordo com o conteúdo compartilhado, a montagem do pinheiro, o uso de guirlandas e a imagem do Papai Noel teriam raízes sombrias, alegando inclusive que as tradicionais bolas decorativas carregam um significado biológico e sacrificial alarmante. Leia:
A história foi iniciada na família de Ninrode casada com Semíramis, após a morte de Ninrode ( proclamado deus sol), Semíramis diz está grávida, onde nasceu Tamuz, que jovem ainda, during uma caçada perde a vida, no lugar de sua morte nasceu um pinheiro, que sua mãe começou enfeita-lo, oferecer sacrifícios e mais tarde aquela tradição foi trazida para dentro dos lares e hoje em todas as cidades…
“Quem celebra Natal está trazendo maldição para sua vida, essa que é a grande verdade. Aquela bendita árvorezinha foi Semíramis que botou o pinheiro e colocou bolinhas de crianças. E aquela guirlandazinha, né, alemã, é o que a gente bota, aquelas coroas de defunto. A pessoa que bota aquilo na porta tá dizendo que está morrendo alguém naquela família. Ok? As crianças sentam no colo do Papai Noel e choram, ok? Porque ele é um demônio. Papai Noel é um demônio.
Percebeu? Ok? É grave.” “O Natal não tem uma origem cristã, é uma origem pagã.” “Pagã, isso vem dos idos lá de 1600 na Alemanha. E aí as pessoas têm que lembrar que Jesus não nasceu em dezembro, né cara? Ele nasceu próximo da festa de Tabernáculo ali.” “Setembro/Outubro, né?” “Isso aí. Nosso amigo Silas Malafaia falou que ele tem lá uma árvore de 2,5 m, não sei o quê, e que ele celebra e que a festa é dele, que o problema é dele, ele só tem que dar conta disso depois.”
Checagem
Para compreender o cenário real por trás dessa gravação, faremos uma verificação detalhada baseada em fatos históricos e registros documentados. Vamos responder às seguintes questões ao longo do texto: 1) Árvore de Natal de Ninrode foi decorada com testículos de crianças? 2) Qual é a verdadeira origem da árvore de Natal? 3) Há outras fake news sobre coisas que seriam do diabo?
Árvore de Natal de Ninrode foi decorada com testículos de crianças?
A afirmação de que o pinheiro enfeitado surgiu com a figura de Ninrode e que os adereços redondos representavam testículos de crianças não possui qualquer sustentação histórica. Essa narrativa mistura mitologias de épocas e regiões diferentes de maneira forçada para assustar quem assiste ao conteúdo. Toda a história descrita sobre as esferas decorativas ignora a evolução cronológica dos ornamentos festivos.
Na realidade, a introdução das esferas coloridas nos pinheiros ocorreu muitos séculos depois e possui uma explicação estritamente prática e comercial. Conforme aponta o registro sobre a origem das bolas de Natal, no princípio da tradição na Europa, as famílias costumavam decorar as árvores com alimentos de verdade. O item principal eram maçãs vermelhas, utilizadas para simbolizar a árvore do paraíso e o conceito do pecado original.
A substituição das frutas por objetos de vidro aconteceu por conta de um imprevisto climático em meados do século XIX. Uma forte seca na Europa Central prejudicou drasticamente as colheitas, tornando as frutas escassas e excessivamente caras para serem usadas como enfeite. Para solucionar o problema e não deixar os pinheiros vazios, um artesão soprador de vidro da cidade de Lauscha, localizada na Alemanha, teve a ideia criativa de produzir esferas de vidro colorido para imitar o formato das maçãs. O design inovador alcançou um sucesso estrondoso, fazendo com que a fábrica local passasse a exportar o produto para diversos países, consolidando o costume global que perdura até hoje.
Qual é a verdadeira origem da árvore de Natal?
O desenvolvimento da árvore natalina como conhecemos hoje passou por diversas fases históricas bem documentadas, divididas entre rituais antigos e a posterior adoção no Velho Continente. Antes mesmo do surgimento da celebração cristã, na Antiguidade, múltiplos povos recorriam a plantas perenifólias — vegetais que permanecem verdes mesmo durante invernos rigorosos — para ornamentar suas moradas. Árvores como o pinheiro funcionavam como um símbolo natural de fertilidade, resiliência e prosperidade diante do frio. Os romanos, por exemplo, decoravam seus templos durante as festividades da Saturnalha; os egípcios empregavam palmeiras nas celebrações ao deus Rá; e os povos nórdicos costumavam ornar árvores no período do solstício de inverno.
O processo de aproximação com a fé cristã envolve uma lenda do século VIII protagonizada por São Bonifácio, um missionário inglês que atuava na conversão de povos germânicos. Ao se deparar com um ritual de sacrifício realizado sob um carvalho consagrado ao deus Thor, Bonifácio derrubou a árvore utilizando um machado. No exato local, brotou um pequeno pinheiro. O religioso declarou que aquela nova árvore, com sua copa apontada para os céus e sua resistência ao período frio, representaria a fé no menino Jesus, marcando o início da ligação do pinheiro com o imaginário cristão.
A consolidação da árvore moderna ocorreu no século XVI, na região do Sacro Império Germânico e em localidades vizinhas, como a Estônia e a Letônia. Registros históricos apontam uma árvore montada formalmente na Catedral de Estrasburgo no ano de 1539. O pinheiro acabou sendo escolhido devido ao seu formato triangular, que os religiosos associavam diretamente à Santíssima Trindade. Naquele período, a montagem recebia velas para simbolizar a luz de Cristo, hóstias e as já mencionadas maçãs.
A internacionalização definitiva desse hábito aconteceu no século XIX, impulsionada pela Rainha Vitória do Reino Unido e seu cônjuge, o Príncipe Albert, que tinha raízes alemãs. Em 1848, a publicação de uma ilustração mostrando a família real britânica reunida em volta de um pinheiro decorado causou grande impacto na sociedade da época. A influência cultural da monarquia transformou o hábito em uma tendência de alcance global de maneira imediata, fixando o pinheiro como o símbolo máximo das celebrações de fim de ano.
Há outras fake news sobre coisas que seriam do diabo?
A estratégia de associar marcas famosas, roupas ou tradições populares a elementos ocultistas e teorias conspiratórias é um expediente antigo na internet. O caso envolvendo a árvore não é isolado e segue um padrão recorrente de boatos que buscam espalhar pânico moral por meio de falsas conexões espirituais.
Um exemplo clássico envolve o mercado de bebidas. Já circularam boatos alegando que uma pastora teria encontrado imagens diabólicas na lata de Coca-Cola ao analisar a identidade visual do produto. Na mesma linha de exagero conspiratório, outra postagem afirmava falsamente que a Coca-Cola teria um pacto com o diabo, sacrificando crianças e utilizando componentes absurdos em sua fórmula secreta.
O cenário esportivo e o vestuário também não escapam desse tipo de desinformação. Durante períodos de grandes competições, surgiu a tese de que a camiseta azul da seleção brasileira teria a estampa de Baphomet oculta em seus detalhes. Assim como a história envolvendo Ninrode e os ornamentos, todos esses relatos carecem de comprovação e utilizam montagens ou interpretações distorcidas para enganar o público.
Conclusão
A narrativa que vincula a criação da árvore de Natal a sacrifícios instituídos por Ninrode e afirma que as esferas decorativas seriam representações de testículos infantis não passa de uma farsa histórica, visto que o adereço surgiu de uma solução comercial alemã no século XIX para substituir maçãs em falta.
Fake news ❌
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