Médico petista matou 11 pacientes em pesquisa para desacreditar a eficácia da cloroquina #boato

Boato – Médico petista que estudava o uso da cloroquina contra a Covid-19 dá superdosagem a pacientes, mata 11 e queria sabotar o medicamento. 

O novo coronavírus (SARS-CoV-2) veio para pressionar ainda mais pesquisadores que, há anos, têm se dedicado aos estudos sobre ataques de novos vírus ao corpo humano. E os trabalhos de cientistas do mundo todo têm trazido resultados positivos e nos ajudado a compreender melhor o comportamento do vírus. Porém, muitos cientistas têm sido desacreditados, especialmente, no Brasil. Por aqui, há até quem duvide da existência do SARS-CoV-2.

E nos últimos dias, essa onda de negacionismo atingiu um dos pesquisadores que estuda os efeitos da cloroquina no organismo para o tratamento da Covid-19. O cientista sofreu um linchamento virtual após interromper sua pesquisa. De acordo com publicações, o médico que teria realizado o estudo seria “petista” e forneceu uma dose cinco vezes mais alta do que a recomendada pelo laboratório aos pacientes. Ainda segundo a publicação, o médico teria matado 11 pacientes com o intuito de sabotar e desacreditar o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Confira:

Versão 1: “Cobaias humanas: médicos matam 11 pessoas para desacreditar cloroquina Experiência macabra e irresponsável tinha objetivo de desacreditar o medicamento”. Versão 2: “Médico Petista tentou sabotar a Cloroquina. Ele deu 5x a dose segura do medicamento para pacientes em Manaus”. Versão 3: “Médico responsável por superdosagem de cloroquina que matou pacientes é petista”. 

Versão 4: “UM MEDICO QUE SE AUTO PROCLAMA ESQUERDISTA ESTÁ APLICANDO DOSES MAIORES DO QUE DEVIDAS DE CLOROQUINA NOS PACIENTES.        URGENTE – MEDICO PETISTA M4TA PACIENTE COM CLOROQUINA – ENTENDA”. Versão 5: “Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda é o Médico que Matou 11 pessoas por superdosagem de cloroquina, Só para dar seu parecer de quer a “CLOROQUINA É TÓXICA”. e com isso proibir seu uso no tratamento contra o CORONAVÍRUS”.

Versão 6: “Investigações apontam o assassino. Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda é o Médico que Matou 11 pessoas por superdosagem de cloroquina, Só para dar seu parecer de quer a “CLOROQUINA É TÓXICA”. e com isso proibir seu uso no tratamento contra o CORONAVÍRUS”.

Médico petista matou 11 pacientes em pesquisa para desacreditar a eficácia da cloroquina?

Em tempos de pandemia e descrédito da Ciência no Brasil, é claro que uma informação como essa iria causar revolta nas redes sociais. Mas será que essa história de que um médico petista teria matado 11 pessoas durante pesquisa para desacreditar a eficácia da cloroquina contra a Covid-19 é real? Não é!

Vamos aos detalhes! Em muitas publicações, a mensagens identifica o pesquisador como o médico infectologista Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda e até mostra prints de uma rede social do médico. Nas imagens, é possível ver que o pesquisador publicou fotos, notícias e mensagens favoráveis ao ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e aos ex-candidatos à Presidência da República Ciro Gomes e Marina Silva. Dessa forma, chamá-lo de “petista” é, além de uma redução bastante idiota, também um equívoco. Ninguém procurou saber se o médico é filiado ao partido. Convenhamos, apoiar determinado candidato em determinada situação não se caracteriza como “torcida organizada” de um determinado partido. É o mesmo que te chamarem de flamenguista por você, torcedor de outro time ou sem torcida, apoiar a equipe na final da Libertadores por ser o representante do país. Não faz o menor sentido.

Em relação à pesquisa, de fato, ela existe. Porém, não tem nada a ver com o que está sendo comentado nas redes sociais. O estudo, chamado de CloroCovid-19, envolveu mais de 70 profissionais de diversas instituições, como a Fiocruz, a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, a Universidade do Estado do Amazonas e a Universidade de São Paulo.

O objetivo do estudo era identificar se a cloroquina possui ação benéfica contra a Covid-19 em comparação com outros estudos em que os pacientes não fizeram uso da medicação. A pesquisa foi estruturada para ser um estudo de fase II. Essa etapa tem como objetivo obter mais dados de segurança sobre o uso do medicamento e também começar a avaliar a eficácia de uma determinada substância. Nessa fase, os testes envolvem diferentes dosagens e também indicações de uso, justamente para saber se alguma dosagem pode causar mais malefícios do que benefícios. Para serem considerados válidos, os testes, nessa fase, devem ser aplicados em uma média de 300 pessoas.

O estudo CloroCovid-19 foi desenvolvido apenas com pacientes em estado grave, uma vez que o uso da cloroquina, no Brasil, só foi autorizado a essa classe de pacientes. A medicação com cloroquina sob orientação médica foi autorizada pelo Ministério da Saúde. As doses utilizadas foram de 450mg (duas e uma vez ao dia) e 600mg (duas vezes ao dia). As dosagens, classificadas como baixa e alta, seguiram a recomendação do Ministério da Saúde (baixa) e observações em testes in vitro (dosagens mais altas possuem uma ação antiviral maior) e recomendação do Consenso Chinês de tratamento de COVID-19.

É importante ressaltar que todo o estudo foi amparado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), que autorizou o desenvolvimento da pesquisa. Dessa forma, pacientes e familiares foram consultados antes de participarem do estudo. Caso a resposta fosse positiva, todos eram obrigados a assinar o chamado Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, onde o paciente afirma estar ciente de todo o processo da pesquisa e dos efeitos colaterais da medicação. Logo, é um absurdo atacar um profissional que seguiu todas as normas previstas no desenvolvimento de uma pesquisa científica e foi bastante responsável na condução da mesma.

Após a realização dos testes, os pesquisadores perceberam que nenhuma das dosagens foi suficiente para diminuir o número de mortes de infectados pela Covid-19 quando em comparação com a média mundial. Além disso, os cientistas também constataram que a dose alta apresentou mais efeitos colaterais do que benefícios no tratamento da doença. Por conta disso, os testes com a dose alta foram suspensos e os profissionais recomendaram que a dose alta não fosse usada em pacientes graves com Covid-19.

De fato, alguns pacientes assistidos pela equipe vieram à óbito. Entretanto, não é possível relacionar as mortes ao uso da dose alta, uma vez que algumas da vítimas apenas fizeram o uso da dosagem baixa. Além disso, muitas pessoas morreram única e exclusivamente por conta do agravamento da doença (indicando que o medicamento não funcionou no combate ao vírus em alguns casos) e não por intoxicação de cloroquina, como algumas publicações têm sugerido. Vale destacar que o estudo realizado pelos pesquisadores brasileiros chegou a ser destaque no jornal The New York Times.

Em resumo: a história que diz que um médico matou 11 pacientes usando superdosagem de cloroquina para desacreditar o medicamento é falsa! Todos os profissionais envolvidos em pesquisas como essa estudaram, no mínimo, 10 anos entre graduação e pós-graduação para trabalharem com métodos e teorias de forma rigorosa. É necessário mais respeito. A história não passa de boato. Portanto, não compartilhe e, se possível, fique em casa.

PS: Por último, um apelo. Primeiro, a você leitor. Se você encontrou qualquer informação sobre estudos envolvendo medicamentos para o tratamento da Covid-19, pesquise mais. Se possível, tente ler o artigo sobre a pesquisa. Se tiver dúvidas, pergunte. Consulte pesquisadores e universitários para esclarecer seus questionamentos. Na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o Laboratório Aberto de Interatividade para Disseminação do Conhecimento Científico e Tecnológico (LAbI) faz publicações constantes (e acessíveis) sobre estudos nas mais diversas áreas. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alunos do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) iniciaram um projeto chamado Lab-19, em parceria com a Força-Tarefa da Unicamp, com o intuito de trazer informações de qualidade sobre a pandemia da Covid-19.

Segundo, a você colega de profissão. Sabemos da nossa responsabilidade como comunicadores, especialmente em tempos como esse. Dessa forma, é necessário entender que cada palavra redigida pode ter um impacto inesperado em nossos leitores. Por isso, fujam de títulos que possam dar falsas esperanças. Se houver dúvidas na divulgação de qualquer estudo, consultem profissionais que possam ajudar. A Agência BORI, composta por jornalistas, divulgadores científicos e cientistas, disponibilizou um material de apoio para a cobertura da pandemia, com o contato de diversos pesquisadores que podem auxiliar nas reportagens. Nos ajudem a não alimentar as fake news!

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99177-9164.

Confira a lista de todas as fake news sobre o novo coronavírus

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