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História que aponta que Ramaphosa cobrou Lula sobre ação do Brics contra os EUA em “mensagem poderosa” é falsa

Cyril Ramaphosa enviou mensagem poderosa a Lula pedindo ação urgente do Brics contra os EUA, diz boato (Foto: Reprodução/Facebook)

Boato – O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, teria enviado uma “mensagem poderosa” ao presidente Lula cobrando uma postura firme no Brics contra os Estados Unidos.

Análise

Mensagens de teor alarmista têm ganhado força nas redes sociais, buscando mobilizar a opinião pública sobre as relações geopolíticas e, em especial, o papel do grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) no cenário mundial. Recentemente, um texto que simula uma cobrança incisiva do presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, começou a circular em diversos canais, incluindo vídeos no YouTube.

O conteúdo em questão é apresentado como uma “mensagem poderosa” na qual Ramaphosa, supostamente, exorta Lula a adotar uma postura mais firme e menos hesitante dentro do bloco econômico. O foco da suposta exigência é o fortalecimento do Sul Global e uma ação coordenada contra a influência dos Estados Unidos, que o texto acusa de manobras econômicas e sabotagens. Leia trechos do texto e transcrição:

LULA RECEBE UMAS DAS MENSAGENS MAIS PODEROSA DO RAMAPHOSSA Em um momento decisivo para a nova ordem mundial, Cyril Ramaphosa chama Lula para uma conversa séria. O presidente sul-africano entrega uma carta com críticas e advertências: os BRICS não podem mais agir como se houvesse tempo. A pressão dos Estados Unidos está crescendo, e o mundo vive sob chantagem econômica, sabotagens diplomáticas e manipulação midiática. Ramaphosa exige mais responsabilidade, mais firmeza e mais foco.

O Sul Global precisa se unir — de verdade — ou será esmagado por dentro. É um apelo direto a Lula: pare, reflita e volte a agir como um líder do povo. A chance histórica dos BRICS pode virar ruína se for tratada com leviandade. Cyril Ramaphosa: Lula, precisamos nos levantar juntos porque o mundo está caindo. A África já não tem mais tempo. E você, como último grande estadista da América do Sul, sabe disso. Eu não vim aqui para cobrar, mas para falar como quem vê o chão abrir sobre seus próprios pés. Porque hoje o que nos une já não é uma ideia ou uma aliança diplomática. O que nos une agora é a urgência.

O Brics não é mais uma organização de debates. É a última trincheira do planeta contra a manipulação, contra a fome fabricada, contra o novo colonialismo que se esconde sob a máscara de ajuda humanitária e de estabilidade global. E se você não estiver completamente dentro, se o Brasil não vestir essa farda com a coragem que já mostrou no passado, nós vamos perder essa guerra sem sequer ter disparado um tiro. Washington não dorme, a Casa Branca não cochila e o que mais assusta não é o que os Estados Unidos fazem, é o que fazem enquanto o resto do mundo está distraído. Eles sequestram nossas moedas, financiam nossos conflitos, reescrevem nossa história em seus livros didáticos e depois nos acusam de sermos nós os instáveis.

Eles esmagam nossa soberania com empréstimos impagáveis, nos forçam a abandonar nossas políticas sociais para atender exigências de bancos privados internacionais e ainda tem a audácia de se apresentar como nossos parceiros estratégicos. Não, eles não são parceiros, são carcereiros. E se os brics não se comportarem como uma frente unida, com clareza, estrutura e liderança, essa cadeia vai se fechar sobre todos nós. Um a um.

[…] Isso é guerra moderna, Lula. Guerra sem tanques, mas com o mesmo objetivo, nos manter ajoelhados. E se não nos mexermos agora, não teremos nem joelhos para levantar depois. Por isso, proponho, como último gesto simbólico deste ciclo, que você convoque um Pacto Global do Sul, um encontro extraordinário, não apenas entre brics, mas com todos os países que já foram feridos pelo FMI, humilhados pela OMC, sabotados pela OTAN. Que esse pacto ocorra não em Genebra, não em Nova York, mas em um território que represente nossa dor e nossa potência, em Gaza, em Caracas ou na Baia ancestral.

E que nesse encontro não se leia discursos protocolares, mas se assinem compromissos reais: desdolarização coordenada, infraestrutura autônoma, redes de inteligência soberana, proteção recíproca dos territórios estratégicos. Se isso soar exagerado para alguns, é porque eles ainda não entenderam o que está em jogo. Mas você entende, Lula, porque você já foi preso por lutar, já foi traído por confiar, já foi atacado por ousar e mesmo assim voltou. Então não aceite agora ser reduzido a um moderador de cúpulas. Seja novamente o que o mundo espera de você, um construtor de rupturas. Você não precisa fazer isso sozinho.

Estaremos ao seu lado. Traoré já ergueu a espada da resistência. Shidin Pin está enfrentando a muralha do Pacífico. Putin atravessou o inferno e voltou com sangue nos olhos. A hora é essa. Não haverá outro ciclo de oportunidade. Ou nos unimos e mudamos tudo, ou assistiremos em silêncio a tudo ser apagado. Nossas culturas, nossas florestas, nossas moedas, nossos filhos. Lula, que sua próxima fala ao mundo seja um pedido, nem uma resposta, seja uma convocação, porque os povos do Sul estão prontos para a guerra da soberania. Só falta um líder que diga: “A hora chegou”. M.

Checagem

Apesar da retórica carregada e do apelo a uma união histórica do Sul Global, a suposta “mensagem poderosa” do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa ao brasileiro Lula, pedindo ação urgente do Brics contra os Estados Unidos, não é autêntica. Para desfazer essa narrativa que ganhou as redes, focamos em três pontos principais de apuração: 1) Cyril Ramaphosa enviou mensagem poderosa a Lula pedindo ação do Brics contra os EUA? 2) Como foi criado o conteúdo que aponta que Cyril Ramaphosa envia mensagem poderosa a Lula pedindo ação do Brics contra os EUA? 3) Há fake news similares vindas da mesma fonte?

Cyril Ramaphosa enviou mensagem poderosa a Lula pedindo ação do Brics contra os EUA?

Em suma, não, o presidente Ramaphosa não enviou tal mensagem ou carta a Lula. A pesquisa em fontes oficiais da presidência da África do Sul, do Brasil e em veículos de imprensa internacionais não registra qualquer pronunciamento, discurso ou documento com o teor apresentado no boato. Embora os líderes de fato se encontrem em eventos, como no Encontro de Líderes da COP30 de Belém, no Brasil, não houve qualquer divulgação oficial sobre uma cobrança pessoal com essa dramaticidade ou conteúdo. A narrativa em questão apenas utiliza a figura de Ramaphosa e a tensão geopolítica para criar uma história de forte impacto emocional e político, mas que carece de qualquer comprovação.

Como foi criado o conteúdo que aponta que Cyril Ramaphosa envia mensagem poderosa a Lula pedindo ação do Brics contra os EUA?

O conteúdo é uma peça de desinformação criada para gerar engajamento em plataformas digitais. O vídeo em circulação no YouTube é proveniente de um canal que se autodeclara como sendo de Moçambique e do Brasil, e que é especializado em difundir narrativas conspiracionistas. A análise do histórico desse canal revela que ele frequentemente utiliza recursos de Inteligência Artificial (IA) para criar e narrar os textos, dando a eles uma aparência de veracidade ou exclusividade. Essa tática de utilizar IA para gerar conteúdo noticioso falso é um padrão perigoso que facilita a produção em massa de boatos sobre política e relações internacionais.

Há fake news similares vindas da mesma fonte?

Sim, o canal responsável pela disseminação da suposta mensagem de Ramaphosa a Lula é conhecido por produzir e veicular fake news com o mesmo padrão. O conteúdo em questão faz parte de uma série de histórias que tentam forjar documentos ou falas de líderes mundiais em defesa de uma aliança anti-ocidental, sempre com um tom de urgência e conspiração. O mesmo canal já foi desmentido em ocasiões anteriores por narrativas falsas que alegavam que Vladimir Putin escreveu uma “carta pesada” defendendo o Brasil, que Kim Jong-un teria mencionado Lula em um discurso ou que Xi Jinping teria enviado uma carta a Putin e Lula contra os EUA. Essa repetição de temas e a origem comum reforçam a falta de credibilidade da informação.

Conclusão

A história sobre a suposta “mensagem poderosa” de Cyril Ramaphosa a Lula cobrando uma postura mais radical do Brics contra os Estados Unidos é uma peça de ficção. Ela foi elaborada por um canal com histórico de disseminação de conteúdo conspiratório e, provavelmente, com o uso de ferramentas de Inteligência Artificial para dar forma à narrativa. Não há qualquer registro oficial, fonte confiável ou documento que comprove a existência dessa comunicação ou o teor alarmista da cobrança. Trata-se de uma tática de desinformação que explora as tensões geopolíticas atuais para gerar engajamento nas redes sociais.

Fake news ❌

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail boatos.org@gmail.com e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)