Estaremos na CPMI das fake news e é sobre isso que iremos (ou queremos) falar

O Boatos.org estará hoje em uma sessão da CPMI que apura as chamadas fake news na internet. Veja sobre quais assuntos queremos falar, se tivermos tempo para isso, e dê a sua contribuição.

Nesta quarta-feira (06) de novembro, o editor do Boatos.org, Edgard Matsuki está na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura as notícias falsas na internet. O Boatos.org estará na condição de especialista junto com Gilmar Lopes (do e-Farsas), Sérgio Ludke (do Comprova) e Adriele Brito (Assespo).

Foi nos informado que teremos de 10 a 15 minutos para uma breve exposição sobre a questão das notícias falsas na internet. No texto abaixo, estão listados os tópicos que gostaríamos de abordar na sessão. Não sabemos que iremos ler o conteúdo da íntegra ou comentar sobre eles. Porém, gostaríamos que vocês soubessem que essa é a nossa posição sobre a questão.

Gostaríamos, ainda, de ouvir a sua opinião a respeito do assunto (clique para acessar o formulário do celular). Se você for rápido, talvez teremos a chance de levar a sua ideia para a sessão (que está marcada para as 13h). Segue texto da apresentação e tópicos abordados:

Apresentação

Olá a todos os presentes neste CPMI e a todos que estão acompanhando a sessão. Para quem não me conhece, sou Edgard Matsuki e desde 2013 toco o Boatos.org. Assim como o meu colega Gilmar, quando eu comecei o projeto, os termos agência de checagem, fact-checking ou fake news não estavam nem perto de serem populares.

Eu vou utilizar os cerca de 15 minutos que tenho para mostrar um pouco como trabalhamos no Boatos.org. Acredito que é importante que os participantes desta CPMI e o público em geral saibam que o Boatos.org e outros sites de fact-checking se utilizam de critérios objetivos para definir o conteúdo que será analisado e também classificar o que é verdadeiro ou falso. Falar sobre o nosso trabalho também é necessário para mostrar qual é o meu lugar de fala, algo importante, inclusive para auxiliar no entendimento das impressões que deixarei aqui sobre a questão das fake news, o que será feito em um segundo momento da minha exposição.

História do Boatos.org

Como eu falei anteriormente, eu criei o Boatos.org em junho de 2013. Na época, eu mantinha outras atividades profissionais, mas tinha o desejo de tocar um projeto no qual eu pudesse ter a liberdade de, jornalisticamente, experimentar e não precisar me submeter, por exemplo, a autorizações vindas de chefes. Para tanto, precisava de um tema.

Foi justamente, na mesma época, que tive a percepção que existia um grande volume de informações falsas circulando na internet, mas não haviam tantos serviços para desmentir. Na época, havia o e-farsas e o quatrocantos.com, que hoje nem existe mais. É importante citar que mesmo com essa percepção inicial, eu, na época, não tinha a dimensão real do problema das fake news.

Metodologia

Nestes seis anos e meio, acabamos desenvolvendo uma metodologia para escolher as mensagens a serem apreciadas e também para realizar os desmentidos. Nós optamos por criar critérios objetivos justamente para sermos justos na hora escolher o que vai ser publicado no Boatos.org. Isso também nos garante tranquilidade em relação a acusações que estaríamos, principalmente em temas políticos, privilegiando algum grupo político em detrimento de outro.

Hoje, o Boatos.org tem uma média mensal de 4 milhões de visualizações de páginas (conto essa média com base nos últimos 12 meses) e quase 300 mil perfis que nos seguem, contando todas as redes sociais e aplicativos de mensagem. Muitas dessas pessoas fazem duas coisas: 1) Enviam sugestões. 2) Pesquisam diretamente no Boatos.org. Tanto os dados de pesquisa interna como as mensagens enviadas geram dados que são analisados diariamente. É com o cruzamento desses dois que definidos o que deve ser apreciado. Ou seja: se algo está no Boatos.org é porque está sendo muito compartilhado.

Checagem

Na hora da análise de conteúdo, realizamos algumas tarefas que qualquer pessoa poderia e deveria realizar. O primeiro momento perpassa por uma leitura com atenção do conteúdo. É incrível a quantidade de pessoas que repassam conteúdo sem ler com atenção ou sem o ler por completo. A partir daí, procuramos possíveis elementos que possibilitam que nos aprofundemos na análise ou que possam indicar que a história é falsa.

Crio mentalmente essa lista e vou para a segunda etapa: pesquisar sobre o assunto. Pesquisamos por personagens citados, fonte da informação, repercussão em fontes oficiais ou mídia, imagens e vídeos utilizados ou pelas teses descritas na mensagem. Posso dizer que 70% dos conteúdos que desmentimos são solucionados com essas duas etapas.

Caso o caso não esteja solucionado, buscamos entrar em contato com os personagens citados ou fazer análises mais profundas (como a busca de edições em vídeos) ou, ainda, realizamos exercícios de redução ao absurdo. Se mesmo assim não temos 100% de certeza que o conteúdo é falso, não publicamos. Em seis anos e meio, publicamos cerca de 4500 artigos, a grande maioria de desmentidos.

Apontamentos em relação às fake news

Com base na experiência empírica, gostaria de fazer alguns apontamentos relacionados a questão das fake news, que por sinal, não é o termo mais exato para classificar o conteúdo que desmentimos, mas é o termo convencionado.

Para além da política

O primeiro ponto que gostaria de ressaltar é que, a partir do momento que se fala em fake news, é preciso sair da “caixinha político-partidária” porque a desinformação na internet não se limita a ataques a político A ou político B ou mesmo político L. Hoje, existem pessoas abandonando tratamentos tradicionais e deixando de se vacinar por causa de boatos relacionados à saúde, existem pessoas inocentes sendo expostas como criminosas por causa de falsas imputações de crimes, existem pessoas tendo dados roubados e ficando expostas por causa de promoções falsas.

Por isso, o meu primeiro pedido é que, mesmo o Congresso sendo uma casa que centraliza muito do debate político no Brasil, não olhemos para as chamadas fake news como um problema ligado apenas ao meio político. É preciso pensar em soluções que vão além da, ressalto que grave questão, manipulação do debate político no Brasil.

Caminho das fake news

Queria destacar também o que, parece, ao meu ver, o caminho que um boato segue. É importante citar que não é uma teoria fechada e sim uma hipótese que tenho com base na minha experiência no Boatos.org.

No Brasil, a grande maioria das fake news que apreciamos surgem no Facebook e no WhatsApp no formato daquelas velhas correntes. Normalmente, esses conteúdos têm características que ajudam na viralização: são vagos (isso dificulta a checagem), alarmista (tem um caráter apelativo), tem erros de português, pedido de compartilhamento e não citam fontes confiáveis.

Há mais um detalhe importante: na maioria das vezes, esses conteúdos necessitam do que eu chamo de vetor para viralizar. O que é o vetor? Pode ser um perfil influente na internet, impulsionamento pago de informação, um site com grande número de acessos ou mesmo alguém famoso. Qualquer ação que vise combater as fake news perpassa por identificar quem é esse vetor.

Eficácia das agências de checagem

Terceiro ponto: muito se questiona em relação da eficácia das agências de checagem por nunca conseguir ter o mesmo alcance de um boato. Porém, eu posso falar que, mesmo com o apoio mínimo, sabemos que sites como o Boatos.org têm um mérito: frear o compartilhamento da fake news. A partir do momento que uma pessoa encontra uma fonte considerada confiável por ela refutando um conteúdo, ela tende a pensar antes de compartilhar.

Por isso, é importante que se valorize trabalhos como o do Boatos.org, e-Farsas, Comprova e dos serviços que não puderam ser vistos aqui. Mais do que isso, é preciso que uma possível legislação sobre o assunto proteja quem faz fact-checking (uma vez que somos acusados, em uma estratégia de retórica, por pessoas que foram desmentidas como “os verdadeiros criadores de fake news”) e que se pensem em formas para que os que conteúdos que refutam fake news sejam mais visíveis ao público.

Plataformas

A partir daí, eu entro no quarto ponto: é preciso refletir em relação ao papel das plataformas de tecnologia no combate à desinformação. É inegável que serviços como o Google, Facebook e WhatsApp são de grande utilidade no sentido de encurtar distâncias, baratear o custo da comunicação e, inclusive, ajudar no crescimento de projetos importantes para a sociedade.

Porém, as mesmas pessoas que se utilizam dessas plataformas para o bem, podem se utilizar para o mal. E aí é preciso que se cobrem soluções para que ferramentas tão úteis se tornem aliadas. Muito já está se fazendo e creio que os próprios representantes das plataformas podem falar a respeito. Porém, ainda há problemas. Vou citar algumas e peço que os senhores reflitam a respeito.

1) A inúmera quantidade de mensagens com promoções, ofertas de emprego e petições falsas que circulam no WhatsApp e auxiliam no roubo de dados de internautas. Sabe-se lá o que é feito com esses dados?

2) A quantidade de artigos que aparecem em destaque em ferramentas como o Google Notícias que apenas auxiliam no acirramento da polarização. Não é muito difícil encontrar artigos opinativos e/ou com adjetivos fortes dentre os conteúdos em destaque da plataforma. Entendemos que são conteúdos que “rendem cliques”, mas nem sempre informam da maneira mais exata. Vale dizer que tanto o Boatos.org, como o e-farsas e acredito que o Projeto Comprova (em seu domínio original) não têm os artigos indexados no Google Notícias. Tentei algumas vezes entender o porque, mas obtive como resposta apenas a “recomendação de ler os termos de serviço”.

3) Algoritmos em redes sociais como o Facebook e Instagram que “promovem” para a gente prioritariamente conteúdos que respondemos com ações positivas e que tem dividido cada vez mais internautas em grupos fechados e com cada vez mais dificuldade de diálogo.

4) Algumas operadoras oferecem planos de pacotes de dados que garantem acesso a aplicativos como o WhatsApp, Facebook e Instagram gratuitamente. A priori isso é bom para o internauta. Mas como pedir para alguém que tem um orçamento baixo para fazer uma checagem se ela pode gastar os créditos que a pessoa tem no celular. Valor que pode ser primordial, pro exemplo, em uma ligação de emergência.

5) Infelizmente, existem alguns sites que espalham desinformação na internet e sobrevivem graças a exposição de publicidade online. Sabemos que o Google tem empreendido ações a ponto de minimizar isso, mas existem outras redes de publicidade que não o fazem. Seria importante buscar soluções para isso.

6) Alguns assuntos que entram em destaque em redes sociais (como o Twitter) são, prioritariamente, impulsionados por perfis falsos (os chamados robôs). Desta forma, o que se pensa que é um debate público é, na realidade, um tema colocado na pauta de “forma artificial”.

O que eu citei foram apenas algumas situações que mereceriam, se não um ajuste, uma reflexão a respeito delas para apontar que qualquer proposta que vise transformar a internet em um ambiente menos propício às fake news perpassam por um diálogo com as plataformas que são mais utilizadas pelos internautas.

Legislação contra fake news

Gostaria, como quinto ponto, de destacar a questão da legislação e desejo de criminalização das fake news. De fato, reconheço que a legislação brasileira não está preparada para tratar desse problema, que ganhou grandes proporções recentemente, e que há gente que está tirando proveito dessa brecha para obter vantagens de forma indevida. Também reconheço que criar uma legislação que aponta que a criação de fake news é um ato ilegal poderia até ter um caráter educativo como nos casos da tipificação do racismo, da homofobia e das punições mais pesadas para a lei seca.

Porém, e sempre tem um porém, criminalizar as fake news sem ter o mínimo de parcimônia poderia acarretar no cerceamento da liberdade de expressão e, principalmente, da liberdade de imprensa. Acompanhei a fala do meu colega de profissão Daniel Bramatti na semana passada e ele foi muito preciso ao destacar que o jornalismo pode sair prejudicado no caso de uma lei que criminalize as fake news. Deixo aqui algumas questões para os senhores refletirem. Elas devem ser dirimidas antes de qualquer decisão a respeito do assunto. Não resolvê-las pode acarretar em uma lei que só servirá como instrumento de censura:

– Quem tomaria para si a missão de julgar o que é verdadeiro ou falso? Autoridades policiais/judiciárias criariam um núcleo de checagem?

– Como uma lei como essa não cercearia a liberdade de expressão e a privacidade online?

– O que poderia ser conceituado como fake news? Na minha opinião, erros jornalísticos (sim, eles existem) não podem ser enquadrados como uma prática criminosa.

– Até que ponto mecanismos de controle não ferem a privacidade das pessoas. Já vi especialistas sugerindo que as pessoas deveriam colocar o CPF para criar uma conta em rede social. Isso, na minha opinião, é algo absurdo.

– Como ficam as plataformas em uma legislação como essa? Seriam responsabilizadas? Isso não inibiria o desenvolvimento de ferramentas que permitam a comunicação das pessoas?

– A lei pegaria?

Não acredito que todo o tipo de compartilhamento de fake news deva ser considerado um crime. Infelizmente, a grande maioria dos compartilhamentos se dá por desconhecimento sobre como checar ou falta de consciência sobre a questão dos boatos. Não dá para condenar alguém que publica a foto de um bebê achando que o WhatsApp vai doar por compartilhamento. Essas pessoas têm que ser ensinadas, não punidas.

Educação

E é justamente esse o último ponto que quero destacar. Educação. Acredito, de fato, que a principal forma de mitigarmos o problema das fake news é com ações educativas.

Hoje, qualquer criança consegue operar um telefone celular quase que intuitivamente. Porém, a maioria das pessoas não sabem que é preciso ler um conteúdo com atenção, em alguns casos nem conseguem interpretar o que está escrito, e também não sabem de técnicas elementares para fazer uma checagem. Também, em alguns casos, sequer têm o entendimento que se não deve compartilhar um conteúdo antes de se ter certeza que é real.

Acredito que deveríamos pensar em mecanismos que ensine, desde a escola, como lidar com as questões que a internet nos trouxe, dentre elas, as notícias falsas. Se perpassar por boas estratégias e investimento para isso, educação pode, sim, ser muito mais eficiente do que a criminalização.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet

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