Arnaldo Jabor escreveu texto “Quero voltar a confiar” sobre “princípios morais” #boato

Boato – Um texto que começa com o trecho “Quero voltar a confiar. Fui criado com princípios morais comuns” foi escrito pelo cineasta Arnaldo Jabor.

Nesta semana, a morte do cineasta Arnaldo Jabor suscitou a disseminação de um tipo de boato muito conhecido na internet: o do texto falsamente atribuído a ele. Hoje, vamos falar que de um texto que circula há muito tempo e que, por algum motivo, ainda não havia sido desmentido por aqui.

O texto em questão tem um caráter saudosista. Nele, Arnaldo Jabor teria denunciado “meandros da sociedade”, os ataques à moral e bons costumes, ao consumismo, à educação e, no final, pede o compartilhamento para as pessoas. Leia o texto que circula por aí:

Arnaldo Jabor. Vale a pena ler! Quero voltar a confiar Fui criado com princípios morais comuns: Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades… Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror… Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão. Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos.

Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores… O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. ue valores são esses? Automóveis que valem mais que abracos, Filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser…

Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo? Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: “ temos que estar ao nível de…”, ao falar de uma pessoa. Abaixo o “TER”, viva o “SER” E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como o céu de primavera, leve como a brisa da manhã! E definitivamente bela, como cada amanhecer. Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito… Vamos voltar a ser “gente” Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?… Precisamos tentar… Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecerão! Quem sabe começando encaminhar ou transmitindo essa mensagem…

Arnaldo Jabor escreveu texto “Quero voltar a confiar” sobre “princípios morais”?

Desde 2007, de acordo com as nossas buscas, o texto circula na internet como se fosse de Arnaldo Jabor. Só que, mesmo tendo sido compartilhado como Power Point de e-mail, mensagem no Orkut, MSN, Twitter, Facebook, WhatsApp e outros meios, o texto está com a autoria errada: ele não foi escrito por Arnaldo Jabor.

O histórico vasto de textos falsamente atribuídos ao cineasta já nos deixa muito desconfiados da veracidade da autoria em questão. Só nesta semana, tivemos que desmentir textos sobre Bolsonaro e os gaúchos que circularam como se fossem dele.

O próprio Arnaldo Jabor, em vida, teve que se manifestar sobre os tantos falsamente atribuídos a ele. Neste comentário para a CBN e neste artigo para o jornal O Tempo, Arnaldo Jabor fez, inclusive, críticas à pobreza, em termos de qualidade, dos textos apontados como se fossem dele.

Se analisarmos o texto que está circulando por aí, podemos encontrar indícios desta falta de qualidade. Para começar, o texto, em tom ufanista e que evoca “a moral e bons costumes” vai em sentido contrário do que Arnaldo Jabor pregou em vida. Como cineasta, ele foi autor de obras disruptivas como “Toda Nudez Será Castigada” e sofreu com a Ditadura. Ele não deve ter achado o período “uma maravilha”.

Esse papo filosofal de “ter e ser” também não faz parte do feitio do cineasta. Para terminar, o “pedido de compartilhamento”, típico de um texto de rede social ou de corrente, nunca seria feito por Arnaldo Jabor. Para confirmar a “não-autoria, bastou fazermos uma busca sobre o histórico da mensagem em questão. Assim como em tantos outros casos, trata-se de uma história que começou anônima e só depois ganhou uma autoria para viralizar por aí.

Resumindo: assim como em tantos outros casos, o texto que está circulando como se fosse de Arnaldo Jabor não é de autoria dele. Trata-se de mais uma mensagem apócrifa que ganhou, há muito tempo, a autoria dele para viralizar.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet