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É falso que dona Raimunda teve casa queimada, mas salvou 19 pessoas com casa jangada após tromba d’água no Maranhão

Dona Raimunda teve casa queimada, mas salvou fazenda com jangada após tromba d'água, diz boato (Foto: Reprodução/Facebook)

Boato – Uma quilombola chamada Dona Raimunda teve sua casa queimada por grileiros e construiu uma casa flutuante que salvou vidas no Maranhão.

Análise

Uma narrativa emocionante tem ganhado força nas redes sociais, especialmente em plataformas de vídeo, narrando a saga de superação de Dona Raimunda Maria dos Santos. A história descreve um conflito agrário em Alcântara, no litoral do Maranhão, onde uma quilombola teria sido expulsa de suas terras por um fazendeiro chamado Osvaldo Carvalho. Segundo o relato, após ter sua casa incendiada, ela teria utilizado conhecimentos ancestrais para erguer uma moradia flutuante feita de troncos de buriti e palha de babaçu.

O enredo atinge seu ápice com uma suposta “tromba d’água” em março de 2020, que teria destruído as construções em terra firme, mas poupado a casa flutuante de Raimunda. O texto detalha como ela teria resgatado 19 pessoas, incluindo o próprio homem que a expulsou, resultando em um final de redenção e reconhecimento oficial de suas terras. Leia o conteúdo que está sendo compartilhado:

Queimaram a CASA e tomaram o QUILOMBO — ela fez JANGADA que salvou 19 vidas da tromba d’água Olha, é o seguinte: esta terra agora é da fazenda Esperança. Já foi comprada e essa sua casa velha vai sair daqui! Daqui eu não saio! Eu só tenho essa casinha aqui. Eu nasci e me criei aqui. Eu não quero nem saber, rapaz! Bora! Derrubem logo essa nogeira. Foi isso que o grileiro Osvaldo Carvalho disse para Raimunda na porta da casa onde ela nasceu, em Alcântara, litoral do Maranhão, abril de 2019. Ele tinha papel carimbado dizendo que aquele pedaço de mangue era dele. Raimunda tinha seis gerações de família enterradas ali e nenhum documento que valesse contra advogado de fazendeiro. Uma semana depois, a casa virou lenha queimada. Raimunda tinha 56 anos, filha de quebradeira de coco, neta de quebradeira de coco, bisneta de escravos que, fugindo, fundaram aquele quilombo há 200 anos. Conhecia cada palmo do mangue, cada maré, cada lua que mudava o nível da água. Osvaldo achava que ela ia virar mendiga em São Luís. Não conhecia a mulher do mangue.

Ela foi para o meio da água, onde fazendeiro não podia seguir. A 3 km da costa, no coração da Baía de Tubarão, tinha um banco de areia que aparecia na maré baixa e sumia na maré alta. Ninguém queria aquilo. Não era terra, não era água, era lugar nenhum. Mas Raimunda viu o que ninguém via: os buritis do mangue próximo, que flutuam melhor que cortiça e duram décadas na água salgada. Começou cortando troncos de buriti morto, seco, leve como isopor. Amarrou 36 troncos em grade retangular de 6 metros por 5, usando cipó-titica, que não apodrece no sal. Sobre essa base, ergueu plataforma de varas de mangue verde, depois piso de palha de babaçu prensada. A estrutura flutuava com a maré, subindo e descendo 2 metros todo dia, mas nunca afundava. Nas bordas da plataforma, cravou estacas flexíveis de mangue-vermelho que desciam até o fundo arenoso.

As estacas não seguravam a casa parada; deixavam ela subir e descer com a maré, mas impediam que a correnteza levasse embora. Sistema de ancoragem que se adaptava ao ritmo do mar em vez de lutar contra ele. Acima, construiu paredes de taipa de mão, usando barro do mangue e palha de babaçu. Teto de palha trançada em cinco camadas, à prova de qualquer chuva. A casa inteira pesava menos que uma canoa grande, mas aguentava vento e onda. E quando a maré subia, a casa subia junto. Quando a maré descia, a casa descia, sempre seca, sempre flutuando. Os pescadores de Alcântara chamavam de “jangada da doida”. Osvaldo mandou fiscal da Marinha, que voltou dizendo: não tinha como autuar construção que não estava em terra nem em água; estava entre os dois. Raimunda ria e continuava quebrando coco, agora no meio da baía, vendendo óleo para quem vinha de barco comprar. Então, março de 2020 trouxe o fim do mundo. Tromba d’água formou sobre a baía no mesmo dia da maré de sizígia — lua cheia de equinócio, a maior do ano. O mar subiu 4 metros acima do normal, enquanto o céu despejava dilúvio.

A combinação criou onda de tempestade que varreu o litoral inteiro. A fazenda Esperança de Osvaldo, construída no manguezal aterrado, foi engolida. O aterro cedeu, a casa de alvenaria rachou, afundou no mangue que tinham tentado destruir. Osvaldo, a esposa, três funcionários, ilhados no telhado de uma construção que afundava centímetro por centímetro na lama. A casa de Raimunda subiu. Os troncos de buriti fizeram exatamente o que ela sabia que fariam: flutuaram sobre qualquer nível de água. As estacas flexíveis vergaram, mas não quebraram, mantendo a posição enquanto permitiam a elevação. A plataforma cavalgou a maré de tempestade como barco, subindo 4 metros, descendo 4 metros, sempre nivelada, sempre seca. E Raimunda tinha canoa. Fez três viagens naquela noite de tormenta, puxando pessoas de telhados e árvores enquanto ondas de 2 metros tentavam virá-la. Resgatou 19 pessoas, incluindo Osvaldo e sua esposa, ambos agarrados em telhas que escorregavam para o mangue.

Levou todos para a plataforma flutuante, que segurou firme com 21 pessoas em cima. Por quatro dias, ela abrigou os náufragos. Deu peixe assado, água de coco, lugar seco para dormir, enquanto o mundo em volta continuava alagado. Osvaldo não disse uma palavra nos dois primeiros dias. No terceiro, chorou. Confessou que o documento era falso, que tinha subornado o cartório, que nunca imaginou que a lei do mangue cobraria tão rápido. Quando a maré baixa de vez, Osvaldo foi para o cartório com o que restava de dignidade. Anulou a escritura falsa, reconheceu a posse tradicional, ainda registrou 20 hectares de mangue no nome de Raimunda Maria dos Santos, incluindo o banco de areia onde ela morava. Hoje, Raimunda ainda vive na plataforma flutuante. A Universidade Federal do Maranhão mandou pesquisadores estudar o sistema de ancoragem com estacas flexíveis. Nove famílias quilombolas na baía têm casas flutuantes seguindo o modelo dela — chamam de “Casas Raimunda”. A quebradeira de coco que expulsaram da terra agora é dona do mar. Raimunda diz que o mangue ensina: quem tenta dominar a maré, afunda; quem aprende a flutuar, sobrevive.

Checagem

O caso carrega todos os elementos de uma jornada heróica clássica, o que explica sua rápida viralização. No entanto, para verificar a veracidade dos fatos, precisamos analisar os detalhes técnicos e as fontes oficiais. Vamos responder às seguintes questões: 1) Dona Raimunda teve casa queimada, mas salvou fazenda com jangada após tromba d’água? 2) Como foi feito o conteúdo que aponta que Dona Raimunda teve casa queimada, mas salvou fazendo com jangada após tromba d’água? 3) Há fake news similares a esta?

Dona Raimunda teve casa queimada, mas salvou fazenda com jangada após tromba d’água?

Não. Apesar de ser uma história inspiradora e repleta de detalhes geográficos reais (como a localização em Alcântara e a menção à Baía de Tubarão), ela não aconteceu. Ao realizarmos buscas em acervos jornalísticos do Maranhão e em registros de órgãos de defesa de direitos quilombolas, não encontramos nenhuma menção a “Raimunda Maria dos Santos” ou ao “Fazendeiro Osvaldo Carvalho” envolvidos em um evento de tal magnitude em 2019 ou 2020.

Além disso, o resgate de 19 pessoas em uma plataforma artesanal durante uma tromba d’água de grandes proporções seria um evento de repercussão nacional. A ausência de fotos reais, reportagens de TV ou registros da Marinha — que, segundo o texto, teria visitado o local — confirma que estamos diante de uma peça de ficção.

Como foi feito o conteúdo que aponta que Dona Raimunda teve casa queimada, mas salvou fazenda com jangada após tromba d’água?

O conteúdo é uma narrativa criada integralmente por ferramentas de Inteligência Artificial. Esse tipo de “storytelling” tem se tornado comum em canais que buscam engajamento através de emoção e lições de moral. A IA utiliza dados reais (nomes de plantas como buriti e cipó-titica, termos técnicos como maré de sizígia e localizações geográficas) para estruturar um texto que pareça autêntico. Note que não há vídeos da época, apenas imagens geradas digitalmente ou narrações automáticas que acompanham o boato nas redes sociais.

Há fake news similares a esta?

Sim, diversas. A técnica de criar histórias “emocionantes” e humanizadas para gerar cliques é recorrente. Já desmentimos, por exemplo, o caso da mulher com passaporte de um país inexistente, a bizarra história do bebê que nasceu com cabelos gigantes e o boato aterrorizante sobre um restaurante que serviria carne humana. Todas essas postagens compartilham o mesmo DNA: detalhes vívidos, falta de fontes oficiais e uma estrutura feita para viralizar pelo choque ou pela emoção.

Conclusão

Em resumo, a história de Dona Raimunda e sua casa flutuante salvadora é uma obra de ficção gerada por IA. Não há registros históricos, jornalísticos ou jurídicos que comprovem a existência dos personagens ou do evento narrado, tratando-se de mais um conto digital espalhado como se fosse fato real.

Fake news ❌

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail boatos.org@gmail.com e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)