Crianças têm dentes arrancados e comem comida pastosa para servirem a abusadores da Ilha de Marajó #boato

Boato – Crianças têm dentes arrancados e comem apenas comida pastosa para serem abusadas, na Ilha do Marajó, no Pará. Há imagens que comprovam a ação. 

Não é de hoje que Damares Alves se envolve em situações que envolvem questões sensíveis. Em 2020, reportagens e entrevistas revelaram que a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro teria tentado impedir o aborto de uma menina de 10 anos violentada, que já havia sido autorizado pela Justiça.

Nos últimos dias, uma nova polêmica envolveu o nome da senadora eleita pelo Distrito Federal.  Um vídeo com afirmações que crianças teriam os dentes arrancados e comiam comida pastosa para serem violentadas por abusadores da Ilha de Marajó, no Pará se espalhou pela internet e foi comprado como “verdade absoluta” por muitos. Veja o que diz mensagens que acompanham os arquivos:

Versão 1: “O Presidente Bolsonaro está combatendo de frente a na ilha de Marajó. As crianças de 3 a 4 anos tem os seus dentes arrancados para não morderem quando são forçadas a fazerem s… o… Essas mesmas crianças, são obrigadas a comerem comidas pastosas para não defecar na hora que são obrigadas a fazer s… a… Essas crianças são sequestradas do Brasil para outros países através da ilha de Marajó. Como Bolsonaro abraçou a causa das nossas crianças, ele mexeu em um  serpentário que da muito dinheiro aos criminosos que fazem parte desse tipo de máfia. Povo brasileiro vamos acordar e salvar as nossas crianças . Que futuro queremos deixar para nossos filhos. Deus guarde o Presidente Bolsonaro, sua esposa e toda a sua família e a senadora Damares Alves da retaliação desses criminosos. Vamos divulgar”. Versão 2: “Crianças sendo estupradas, bebês sendo violentados,meu Deus que tristeza, dentinhos arrancados”. Versão 3: “Dentes de crianças são arrancados, comidas pastosas, veja o pq Cada vez que ouço a Damares falando me corta o coração”.

Crianças têm dentes arrancados e comem comida pastosa para servirem a abusadores da Ilha de Marajó?

A informação viralizou nas redes sociais, em especial, no Facebook e no Twitter e deixou várias pessoas revoltadas com a situação (não é para menos, aliás). Apesar de toda a força dos relatos em questão, não há qualquer prova que ateste as acusações em questão.

Ao ler as mensagens e assistir ao vídeo, podemos ter duas conclusões. A primeira é que há um carregado discurso político que vende Bolsonaro como o “protetor das crianças abusadas” e “inimigo dos abusadores”. A segunda é que a acusações são muito pesadas.

Estes elementos nos mostram que, desde que o vídeo começou a circular nas redes sociais, parecia que algo de muito errado sondava essa história. O relato de Damares Alves se assemelha muito a histórias fictícias de bonecas humanas que estariam sendo vendidas como escravas na Europa e foram desmentidas pela equipe do Boatos.org. Na oportunidade, uma publicação indicava que crianças teriam sido compradas e mutiladas para satisfazer criminosos na Europa.

Para fazer a checagem, resolvemos fazer o básico: esperar por elementos que, de fato, comprovassem as acusações (afinal, o ônus da prova é de quem acusa). E mesmo o tempo tendo passado (o que nos ajudou a refletir sobre a história), achamos importante apontar que não existem provas do relato em questão e que, pelo menos por enquanto (até que se tenha provas), ele pode ser classificado como um boato.

É importante pontuar isso por alguns motivos. O primeiro é que casos bizarros e sem comprovação apenas jogam uma cortina de fumaça ao combate à exploração sexual. Além de dessensibilizar as pessoas (com um relato horrendo, absurdo e fictício desses), a história esconde um problema seríssimo que envolve muitos outros pontos além da “pura perversidade” (que, de fato, é um dos elementos). Um deles é a extrema pobreza na região, que faz, por exemplo, com que familiares obriguem as meninas a se prostituírem. Aqui cabe um parênteses.

Voltando ao caso. Apesar de a Ilha de Marajó ter problemas gravíssimos de exploração sexual infantil, não há registros de casos de crianças com dos dentes arrancados e que devem comer comida pastosa. Quando Damares deu o relato, de algo que não foi documentado em nenhum veículo de mídia ou mesmo foi alvo de algum inquérito, as desconfianças começaram a surgir.

E a partir do momento em que ela disse ter imagens das tais crianças, tanto o Ministério Público Federal (MPF) quanto a Procuradoria Geral da República (PGR) quiseram saber o motivo de Damares Alves não ter feito nada a respeito, uma vez que ela era ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ambos os órgãos federais pediram explicações à ex-ministra sobre a fala.

O grupo de advogados chamado Prerrogativas chegou a pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar as declarações de Damares Alves sobre o caso. Segundo o grupo, havia a possibilidade da história ser falsa e estar sendo usada para alimentar discurso de ódio e prejudicar o processo eleitoral. Ou seja, se a história for verdadeira, ela poderia se complicar por omissão ou prevaricação. Já se fosse falsa, pode se complicar por mentir.

O prazo estabelecido pelo MPF e pela PGR para Damares se pronunciar sobre o assunto foram três dias. Ele chegou ao fim no dia 13 de outubro de 2022. Na mesma data, Damares Alves concedeu uma entrevista ao jornal O Globo, onde afirma que “ouviu nas ruas” as denúncias que compartilhou no vídeo. Ela também chegou a entregar relatórios que provariam o que ela havia dito, mas após análise do jornal Estadão, nada referente ao assunto foi encontrado.

Além disso, também é importante salientar que o próprio MPF apontou que nunca houve nenhum tipo de relato parecido com o de Damares Alves. O MPF afirmou que, em 30 anos de trabalho, nunca recebeu uma denúncia de torturas parecidas com as citadas por Damares.

Em resumo: a história que diz que crianças tiveram os dentes arrancados e se alimentam apenas de comida pastosa para servirem aos abusadores da Ilha de Marajó não passa de um boato (pelo menos até que se prove o contrário). Após uma análise mais detalhada sobre o assunto, percebemos que não há um registro pregresso da história em fontes confiáveis. Após dias sem resposta, o MPF e a PGR pediram explicações à ex-ministra de Bolsonaro. Ao final do prazo de resposta, Damares confirmou que apenas “ouviu na rua” as denúncias. Ela também entregou relatórios que provariam sua versão, mas os jornais que analisaram o documento não encontraram nada sobre o assunto. Por fim, o próprio MPF afirmou que nunca recebeu uma denúncia parecida com a relatada por Damares.

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo siteFacebook e WhatsApp no telefone (61) 99458-8494.

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