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Criança indígena é queimada viva no Maranhão, diz história falsa

Boato – Uma criança indígena de oito anos foi queimada por madeireiros no Maranhão.

Na última semana, uma foto de um menino sírio que morreu após tentar entrar na Europa chocou o mundo. A imagem de um homem resgatando o seu corpo não só girou o planeta como também chamou atenção para o problema da imigração (ou o seu impedimento) à Europa. A foto também ajudou outra história ser ressuscitada: a de que um menino indígena de oito anos teria sido queimado vivo por madeireiros no Maranhão.

Um texto chamando atenção para o caso tem circulado fortemente na internet. Ele fala que o caso não vai virar Trending Topic no Twitter e nem virar notícia no em jornais televisivos. Em 2015, vimos o texto em alguns sites locais de notícias. Leia:

Criança indígena de oito anos é queimada viva por madeireiros no Maranhão

Uma criança de oito anos foi queimada viva por madeireiros em Arame, cidade da região central do Maranhão. Enquanto a criança – da etnia awa-guajá – agonizava, os carrascos se divertiam com a cena. O caso não vai ganhar capa da Veja ou da Folha de São Paulo. Não vai aparecer no Jornal Nacional e não vai merecer um “isso é uma vergonha” do Boris Casoy. Também não vai virar TT no Twitter ou viral no Facebook. Não vai ser um tema de rodas de boteco, como o cãozinho que foi morto por uma enfermeira.

E, obviamente, não vai gerar qualquer passeata da turma do Cansei ou do Cansei 2 (a turma criada no suco de caranguejo que diz combater a corrupção usando máscara do Guy Fawkes e fazendo carinha de indignada na Avenida Paulista ou na Esplanada dos Ministérios). Entretanto, se amanhã ou depois um índio der um tapa na cara de um fazendeiro ou madeireiro, em Arame ou em qualquer lugar do Brasil, não faltarão editoriais – em jornais, revistas, rádios, TVs e portais – para falar da “selvageria” e das tribos “não civilizadas” e da ameaça que elas representam para as pessoas de bem e para a democracia. Mas isso não vai ocorrer.

CIMI CONFIRMA ASSASSINATO DE CRIANÇA INDÍGENA

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) confirmou a informação que uma criança da etnia Awá-Gwajá, de aproximadamente 8 anos, foi assassinada e queimada por madeireiros na terra indígena Araribóia, no município de Arame, distante 476 km de São Luis. A denúncia feita pelo Vias de Fato, foi postada logo após receber um telefonema de um índio Guajajara denunciando o caso.

De acordo com Gilderlan Rodrigues da Silva, um dos representantes do CIMI no Maranhão, um índio Guajajara filmou o corpo da criança carbonizado. ”Os Awá-Gwajás são muito isolados, e madeireiros invasores montaram acampamento na Aldeia Tatizal, onde estavam instalados os Awá. Estamos atrás desse vídeo, ainda não fizemos a denúncia porque precisamos das provas em mãos” disse Gilderlan.

É fato que os indígenas brasileiros estão em uma situação cada vez mais desconfortável e que boa parcela disso se deve a falta de políticas públicas de um governo, parlamento e opinião pública dominados por apoiadores do agronegócio. Mas esse não é o ponto. O fato que vamos pontuar é que a história do menino queimado é falsa.

Fazendo uma busca sobre o assunto descobrimos que ele ganhou grande repercussão no início do ano de 2012 após denúncia do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Inclusive virou notícia em sites como G1, R7 no dia 6 de janeiro daquele ano. Após a denúncia, a Funai fez uma investigação para apurar a história e descobriu que ela era falsa. Confira nota oficial do órgão publicado na época:

Nos próximos dias, a Fundação Nacional do Índio (Funai) deslocará uma equipe de Brasília para aprofundar a pesquisa em campo e dar continuidade ao levantamento de informações na Terra Indígena Araribóia, no município de Arame/MA. A Fundação solicitará o apoio da Polícia Federal, a fim de verificar a veracidade de relatos – que circularam em blogs e redes sociais na internet – de que indígenas Guajajara teriam encontrado o corpo carbonizado de uma criança indígena da etnia Awa-Guajá, povo isolado daquele Estado.

Em novembro de 2011, a Funai recebeu a denúncia de que ocorrera um conflito na região. Na ocasião, servidores da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Awa-Guajá buscaram apurar mais informações, porém não encontraram elementos que pudessem confirmar a denúncia. Criada em 2010, para reforçar as ações de vigilância e fiscalização das terras indígenas no Maranhão, a FPE Awa-Guajá atua na proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas isolados e de recente contato na região.

Em função dos relatos que circularam nessa última semana, a Coordenação Regional da Funai de Imperatriz/MA deslocou, entre os dias 6 e 8 de janeiro, uma equipe de três servidores para terra indígena citada, buscando levantar mais informações. A equipe da Funai consultou lideranças do povo Guajajara, que não confirmaram as informações veiculadas na internet.

O desmentido da Funai foi com base na mesma pessoa que havia feito a denúncia. De acordo com o órgão, ele teria negado que a história teria acontecido como mostra essa matéria da Folha. O Cimi rechaçou a denúncia e o MPF disse que ia investigar a história. No fim, ninguém foi culpado. E como vocês puderam ver, três anos depois a história voltou à tona na internet.

Resumindo: a história da criança indígena queimada na internet surgiu de uma denúncia sem provas de 2012 que não teve conclusão. Ou seja, a história chocante nunca deixou de ser um boato de internet.