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História que aponta que catadora encontrou R$ 180 mil no lixo e devolveu é falsa

Catadora encontrou R$ 180 mil em sacos de lixo e devolveu dinheiro para polícia, diz boato (Foto: Reprodução/Facebook)

Boato – Dona Joana, uma catadora de 73 anos, encontrou uma fortuna em dinheiro no lixo de Salvador e, mesmo com dificuldades financeiras, fez questão de devolver tudo na delegacia.

Análise

Uma história comovente, que exalta o valor da honestidade em meio à escassez, tem circulado com intensidade pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. O texto narra o suposto encontro de uma fortuna por uma senhora catadora de recicláveis, que, mesmo vivendo com muitas dificuldades, teria feito questão de devolver todo o dinheiro ao seu legítimo dono.

O enredo apresenta uma protagonista, Dona Joana, uma catadora de 73 anos e analfabeta de Salvador, Bahia, que encontra R$ 180 mil em uma mochila descartada no lixo. A publicação culmina com a viralização da atitude e uma vaquinha online que teria transformado a vida da catadora. Leia a mensagem que circula online:

A polícia riu quando ela chegou com a mochila. “Senhora, se encontrou dinheiro, é seu.” Mas ela insistiu por 9 dias: “Isso, pertence a alguém. E eu vou achar esse alguém.” Aos 73 anos, analfabeta, vivendo com R$ 600 por mês, Dona Joana encontrou R$ 180 mil no lixo e se recusou a ficar com um centavo. Dona Joana tem 73 anos e é catadora de recicláveis há 34 anos em Salvador, Bahia. Analfabeta, nunca foi à escola e assina o nome com “X”, sem saber fazer contas. Ela vive com R$ 600 por mês, coletando latinhas, papelão e garrafas PET, que vende para a cooperativa.

Para juntar esse valor, precisa coletar 600kg de material por mês – vinte quilos por dia, sete dias por semana. É um trabalho duro, pesado e, às vezes, humilhante, mas é o que ela tem. Era terça-feira, 14 de março de 2024, 6h da manhã. Dona Joana estava em seu ponto habitual no bairro Pituba, perto de lixeiras de prédios residenciais. Ela abriu um saco de lixo grande, preto e pesado. Dentro, viu uma mochila escolar azul marinho, meio velha. Ao abri-la, encontrou muito dinheiro: notas de R$ 100 e R$ 50 empilhadas e amarradas com elástico. Dona Joana não sabe contar direito, mas percebeu a dimensão da quantia. Olhou ao redor: a rua estava vazia. Pegou a mochila, fechou e colocou no carrinho, debaixo dos papelões, e foi para casa.

Chegou em casa às 8h e chamou a vizinha, Dona Cida, que sabe ler e contar. “Cida, me ajuda a contar isso aqui.” Dona Cida ficou pálida ao abrir a mochila. Após 40 minutos contando, ela revelou: “Joana… isso aqui é R$ 180 mil.” Dona Joana não entendeu a dimensão, perguntando: “Quanto é isso?” A vizinha explicou: “É trezentos meses do seu salário, Joana. Quinze anos de trabalho.” Em silêncio, Dona Joana olhou para o dinheiro e depois para sua casa — um barraco de madeira, com telhado com goteiras, fogão quebrado e geladeira velha. Com R$ 180 mil, ela poderia reformar tudo, comprar geladeira nova, parar de trabalhar por 5 anos e visitar a filha em São Paulo. Dona Cida sugeriu que ela ficasse com o dinheiro, pois ninguém sabia. Mas Dona Joana balançou a cabeça: “Não. Isso é de alguém. E esse alguém deve estar desesperado.”

No mesmo dia, às 10h, Dona Joana foi até a 14ª Delegacia de Salvador, levando a mochila. O delegado, vendo a catadora com roupa suja e cheiro de lixo, perguntou: “Pois não, senhora?” Ela respondeu: “Achei isso no lixo. Tem dinheiro dentro. Muito dinheiro. Preciso achar o dono.” O delegado abriu a mochila, viu o dinheiro, e ficou em choque: “A senhora… a senhora quer devolver isso?” “Quero. Não é meu”, ela disse. Eles contaram o dinheiro, R$ 180.400,00 exatos. O delegado informou que, legalmente, após 90 dias sem dono, o dinheiro seria dela. Dona Joana não entendeu bem, mas insistiu: “Então eu volto aqui todo dia até achar o dono.”

E foi o que fez. Por nove dias seguidos, todo dia às 10h, Dona Joana apareceu na delegacia perguntando se o dono havia surgido. Os policiais ficaram emocionados com a atitude dela. No dia 7, a delegacia postou a história nas redes sociais, que viralizou com 240 mil compartilhamentos. E no dia 9, apareceu Seu Manoel, 87 anos, viúvo e aposentado. Ele chegou à delegacia chorando, com fotos da mochila e recibos de saque bancário, confirmando que os R$ 180.400 eram a economia de 40 anos, que ele escondeu na mochila por não confiar em bancos. Devido a esquecimentos causados por demência leve, achou que a mochila era lixo velho e jogou fora.

Dona Joana sorriu aliviada ao ver o dono. “Achei o senhor. Graças a Deus”, disse. Seu Manoel a abraçou, chorando: “A senhora… a senhora salvou minha vida. Eu ia perder tudo.” A filha dele ofereceu R$ 20 mil de recompensa, mas Dona Joana recusou: “Não. Eu só fiz o certo.” A família insistiu para que ela aceitasse pelo menos R$ 10 mil, mas ela balançou a cabeça: “Não é meu. Eu não fiz nada demais. Só devolvi o que era dele.” A história viralizou nacionalmente, mas como Dona Joana recusou o dinheiro do dono, um jornalista criou uma vaquinha online. Em 11 dias, a vaquinha arrecadou R$ 340 mil, com doações de todo o Brasil. Quando contaram para Dona Joana, ela não acreditou, mas era verdade.

Com o dinheiro, ela comprou uma casa de alvenaria, pequena e simples, mas sem goteiras, com geladeira, fogão e cama novos. Parou de catar lixo e hoje ajuda na cooperativa de recicladores. Seu Manoel a visita uma vez por mês, e eles se tornaram amigos. Na porta da casa nova de Dona Joana, há uma placa: “Joana, 73 anos. Catadora. Analfabeta. Devolveu R$ 180 mil encontrados no lixo. Porque honestidade não tem preço. E caráter não se compra.”

Hoje, 18 meses depois, Dona Joana ainda resume tudo: “Eu só fiz o certo. O dinheiro não era meu. Simples assim.” O que ela não entende é que, num mundo onde muitos roubariam, ela – pobre, analfabeta, ganhando R$ 600 por mês – escolheu a honestidade. Por isso, ganhou muito mais que dinheiro: ganhou respeito, admiração, um lar e a certeza de ter feito a coisa certa. Caráter não se mede por diploma ou conta bancária, mas por escolhas, e Dona Joana fez a escolha certa, nove dias seguidos, até achar o dono. Se você encontrar algo valioso que não é seu, devolva. Porque honestidade sempre, sempre, é recompensada, se não com dinheiro, com paz de espírito, como Dona Joana tem hoje.

Checagem

A narrativa é tão rica em detalhes e sentimentos que rapidamente se tornou um fenômeno viral, emocionando milhares de leitores. Para verificar a veracidade da história sobre Dona Joana, as três questões centrais na checagem são: 1) Catadora encontrou R$ 180 mil em sacos de lixo e devolveu dinheiro para polícia? 2) Como foi feita a foto de Dona Joana, catadora que teria encontrado R$ 180 mil em sacos de lixo? 3) Há fake News similares?

Catadora encontrou R$ 180 mil em sacos de lixo e devolveu dinheiro para polícia?

Apesar da riqueza de detalhes, da data específica (14 de março de 2024) e do local (14ª Delegacia de Salvador), não foi encontrado nenhum registro desta ocorrência na imprensa baiana ou nacional. Um evento dessa magnitude, envolvendo uma quantia expressiva de dinheiro e um ato de tamanha honestidade por uma pessoa em situação de vulnerabilidade, seria amplamente noticiado pelos principais veículos de comunicação do país.

A ausência de qualquer reportagem, nota oficial da Polícia Civil ou mesmo menção à vaquinha de R$ 340 mil, sugere que a história é uma obra de ficção elaborada para tocar o público e se tornar viral.

Como foi feita a foto de Dona Joana, catadora que teria encontrado R$ 180 mil em sacos de lixo?

As imagens que acompanham a história em algumas versões online, geralmente de uma senhora idosa com traços marcantes e em um contexto de trabalho como catadora, são a chave para desvendar a natureza da postagem. A análise das fotos, quando presentes, e o padrão de escrita da narrativa indicam que a imagem da suposta Dona Joana foi gerada por meio de Inteligência Artificial (IA). A foto, assim como a narrativa, não possui correspondência com a realidade.

Há fake News similares?

A criação de narrativas heroicas e comoventes envolvendo personagens em dificuldades financeiras, mas de grande caráter, é uma estratégia recorrente para viralizar na internet. Há diversos casos de histórias fictícias com estruturas semelhantes, que exploram o drama pessoal e a virtude moral, como a que narra o caso de um homem que teria adotado nove crianças negras após perder a esposa ou a história de que o técnico Abel Ferreira teria pago um remédio para uma criança.

O objetivo primordial dessas publicações não é informar, mas sim emocionar e gerar compartilhamentos, muitas vezes com a finalidade de monetização ou apenas para provar o poder de viralização de um conteúdo.

Conclusão

A história da catadora Dona Joana, que encontrou R$ 180 mil no lixo e os devolveu, é uma criação fictícia, com forte apelo emocional, mas sem qualquer sustentação na realidade dos fatos ou em registros jornalísticos. A ausência de fontes primárias, de reportagens de credibilidade sobre o caso e a natureza das imagens que circulam (geradas por IA), comprovam que o texto foi elaborado para viralizar na internet, seguindo um padrão já conhecido de boatos que exploram atos de caridade e honestidade.

Fake news ❌

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail boatos.org@gmail.com e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)