Boato – O cineasta Woody Allen teria escrito um texto sobre o antissemitismo moderno, a vida em Nova York e o consumo de salmão.
Análise
Uma crônica carregada de ironia fina, referências à cultura judaica, crises existenciais e ambientada nas ruas de Manhattan e do Brooklyn começou a se espalhar com força pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. O longo texto é atribuído ao cineasta e escritor Woody Allen. Na mensagem, o suposto autor mistura humor ácido, neuroses urbanas, referências judaicas e críticas ao antissemitismo moderno em um estilo que lembra bastante os monólogos e filmes do diretor norte-americano.
A narrativa chama a atenção justamente por carregar marcas registradas muito específicas de uma das figuras mais conhecidas do cinema mundial. O tom neurótico, a obsessão pela mortalidade e a fixação pela identidade nova-iorquina fizeram com que milhares de internautas compartilhassem o material como sendo uma reflexão legítima do diretor. Abaixo, você pode conferir o conteúdo que está sendo compartilhado integralmente na internet:
Sabe, sempre achei que a maior vantagem de Nova York é que você pode ser neurótico lá e ninguém vai notar. Em outras cidades, te mandam para o psiquiatra se você fala sozinho. Em Manhattan, te oferecem uma coluna em uma revista por causa disso. Ontem fui comprar salmão. A propósito, essa é provavelmente a única tradição judaica estável que sobreviveu à Babilônia, a Roma e aos meus relacionamentos com mulheres. Eu estava caminhando pelas ruas do Brooklyn e pensando na morte. E de repente — uma multidão em frente a uma sinagoga. No começo, pensei que um psicanalista famoso estava se apresentando ali. No geral, o antissemitismo moderno tornou-se muito mais intelectual. Antigamente, eles simplesmente nos odiavam.
De forma direta. Hoje não é mais assim. Hoje, um cara com um cachecol, que parece escrever poemas sobre a própria barba, te explica usando Heidegger e Nietzsche por que a própria existência dos judeus é uma forma de violência e uma ameaça à humanidade. Aí uma garota do meu lado disse: ‘Somos contra o sionismo, não contra os judeus.’ Isso é como se minha ex-esposa dissesse : ‘Não tenho nada contra você. Sou apenas contra tudo o que você diz, faz, sente — e especialmente contra transar com você.’ O significado continua sendo o mesmo. E então alguém gritou : ‘Sionistas são nazistas!’ Naquele momento, senti que minha avó se revirou no caixão tão rápido que poderia ter fornecido eletricidade para metade do Queens.
À noite, deitei-me na cama e pensei : talvez simplesmente não devêssemos dar tempo livre à humanidade. Porque no momento em que as pessoas ficam entediadas, começam a salvar o mundo, ou a se matar, ou a gravar podcasts sobre os benefícios da guerra para a saúde. E mesmo assim… se amanhã alguém marchar em frente a uma sinagoga e gritar ‘Morte aos sionistas’ — eu vou sair. Não porque eu seja corajoso. Eu sou o cara que uma vez desmaiou fazendo um exame de sangue. Mas bem… primeiro vou comer meu salmão. Não quero morrer de estômago vazio. Minha mãe judia jamais aprovaria uma coisa dessas.” P.S. Depois desse texto brilhante, comecei a entender melhor o valor do presente de aniversário da coleção dos principais filmes do Woody Allen.
Checagem
Para compreender a fundo a origem desse texto e verificar a sua veracidade, vamos estruturar nossa investigação respondendo a três perguntas fundamentais de forma detalhada: 1) Woody Allen fez texto sobre antissemitismo e disse que a vantagem de Nova York é poder ser neurótico? 2) Quem é o autor do texto sobre antissemitismo atribuída a Woody Allen? 3) Há fake news similares a esta?
Woody Allen fez texto sobre antissemitismo e disse que a vantagem de Nova York é poder ser neurótico?
Não. O cineasta norte-americano não escreveu essa crônica e tampouco publicou qualquer texto recente contendo essas afirmações em jornais, revistas ou livros. Embora o estilo literário tente emular de maneira muito próxima os monólogos clássicos de seus personagens e seus temas habituais, a assinatura dele foi inserida de forma artificial quando o conteúdo começou a viralizar.
O próprio encerramento da mensagem que circula na internet entrega uma pista importante, funcionando como um pós-escrito que elogia a autoria e menciona ganhar uma coleção de obras do diretor. Com o compartilhamento massivo e a leitura superficial típica das redes sociais, a menção ao nome dele acabou se transformando em uma falsa atribuição de autoria.
Quem é o autor do texto sobre antissemitismo atribuída a Woody Allen?
Até o momento, não há confirmação sobre quem escreveu originalmente o texto. Ele é considerado apócrifo, ou seja, sem autoria comprovada. Em muitos casos desse tipo, textos são criados por usuários anônimos, traduzidos entre idiomas e posteriormente atribuídos a escritores, cineastas ou líderes religiosos famosos.
O motivo da associação com Woody Allen é relativamente simples: o texto imita características conhecidas do diretor. Há referências constantes ao judaísmo, à vida em Nova York, às neuroses pessoais e ao humor intelectualizado — marcas bastante presentes na obra do cineasta.
Há fake news similares a esta?
Sim, o fenômeno de usar nomes de escritores, poetas, cineastas e até líderes religiosos de grande prestígio para chancelar textos da internet é extremamente comum. Esse artifício é utilizado para dar autoridade e engajamento a reflexões cotidianas ou posicionamentos políticos que, de outra forma, não ganhariam tanto alcance.
Exemplos desse comportamento no ecossistema de boatos não faltam. O Boatos.org já desmistificou uma situação parecida envolvendo o meio literário ao mostrar que Pablo Neruda não escreveu o texto sobre o ano novo intitulado “Os anos que me restam”. Da mesma forma, líderes da Igreja Católica frequentemente são alvos dessa prática, como no caso em que foi dito falsamente que o Papa Francisco escreveu um texto sobre a vida passar rápido. Outro caso curioso envolveu figuras históricas distantes, onde mensagens alegavam que o Papa Leão XIV teria dito que estava zangado com Deus, comprovando que a criação de textos apócrifos atribuídos a autoridades é uma constante na internet.
Conclusão
O texto que circula associando reflexões sobre o antissemitismo moderno, salmão e a neurose de Nova York a Woody Allen não pertence ao cineasta, tratando-se de uma crônica da internet que passou a ser incorretamente vinculada ao seu nome devido ao estilo narrativo semelhante.
Fake news ❌
Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail boatos.org@gmail.com e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)

