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Golpe cita jovem que cuida da irmã órfã e vende chaveiros artesanais para custear tratamento de saúde

Jovem vende chaveiros artesanais para poder criar a irmã em site anunciado em redes sociais, diz boato (Foto: Reprodução/Facebook)

Boato – Um jovem de 21 anos, que assumiu a guarda da irmã Helena após a morte dos pais, está vendendo chaveiros artesanais feitos à mão para pagar um procedimento urgente de visão para a menina e garantir o sustento da casa.

Análise

Uma história carregada de emoção tem se espalhado com força através de links patrocinados em redes sociais como o Instagram e o Facebook. O relato apresenta a trajetória de um rapaz que, aos 21 anos, abdicou de sua juventude para criar sozinho a irmã caçula, Helena, hoje com 9 anos. Segundo o texto, após a perda repentina dos pais, ele se tornou o único suporte da criança, enfrentando dificuldades financeiras para manter a rotina e a alimentação da casa.

O apelo ganha contornos mais urgentes com a informação de que Helena estaria perdendo a visão devido a uma condição de saúde severa. Para arrecadar fundos para a cirurgia e o sustento diário, o irmão teria aprendido a confeccionar chaveiros artesanais, montando peça por peça durante a madrugada. O conteúdo convida os internautas a conhecerem o trabalho e realizarem compras para ajudar a família a não “ficar no escuro”. Leia:

Um chaveiro por vez O irmão da Helena assumiu a casa e a rotina quando ainda era muito novo Agora, ele aprendeu a fazer chaveiros artesanais pela irmã Tudo é feito à mão, com calma, na mesma mesa onde ela faz a lição “Ninguém te ensina a ser pai, mãe e irmão ao mesmo tempo. Muito menos aos 21 anos. Muito menos sozinho. Quando nossos pais se foram, a Helena tinha 7 anos, eu tinha 21. Não existia outro parente. Não existia tio, não existia avô, não existia madrinha. Ninguém. Era eu ou era o sistema. Eu pedi a guarda no dia seguinte. Nem pensei direito. Só sabia uma coisa: aquela menina não ia crescer longe de mim. No começo, eu tentava ser tudo ao mesmo tempo. Acordava cedo, fazia café, arrumava ela para a escola, tentava pentear o cabelo do jeito que a minha mãe fazia. Nunca ficava igual. A Helena não reclamava.

Ela só olhava para mim com aqueles olhos grandes e dizia que estava bonito, mesmo quando não estava. Eu cozinhava o que sabia: arroz, ovo, macarrão. Ela comia sem reclamar. Às vezes eu pedia desculpa por não saber fazer outra coisa. Ela dizia que gostava. Acho que ela sabia que eu estava tentando. De noite, eu sentava do lado dela para ajudar no dever. Tinha coisas que eu já não lembrava mais, outras eu nunca tinha aprendido. Mesmo assim eu continuava ali, porque era isso que a minha mãe faria: estar ali. A verdade é que eu nunca consegui ser pai nem mãe. Eu sou irmão. E é como irmão que eu cuido dela. Brinco quando ela precisa rir, fico sério quando ela precisa de limites, deito do lado quando ela acorda de madrugada chamando pela mãe. E eu não sei o que dizer. Então eu só fico ali, segurando a mão dela, até ela dormir de novo. Foram dois anos assim.

A gente criou a nossa rotina. Até que, meses atrás, a Helena começou a apertar os olhos. Primeiro para ver televisão, depois para ler o caderno, depois até para andar pela casa sem bater nos móveis. O mundo dela está ficando escuro, aos poucos, todo dia um pouco mais. A gente fez exames e disseram que precisa de um procedimento urgente. Se demorar, ela pode perder a visão. E eu vivo de bico, ganho o básico, às vezes menos que o básico. Eu nunca fui de pedir nada. Quando nossos pais se foram, eu não pedi ajuda. Quando não tinha dinheiro para o almoço, eu dava o dela e ficava sem. Mas a visão da minha irmã é maior que qualquer orgulho meu. Então eu comecei a fazer chaveiro, de madrugada, quando ela dorme, sentado na mesma mesa onde ela faz a lição de tarde. Aprendi sozinho, assistindo vídeo no celular. Montando um por um: fio, miçanga, nó…

devagar, com cuidado. Enquanto eu faço, eu penso nela. No cabelo que eu nunca aprendi a arrumar direito, na risada alta que enche a casa, no jeito que ela diz que está bonito, mesmo quando não está. São chaveiros artesanais, simples, feitos à mão por alguém que não é pai nem mãe, mas que nunca solta a mão dela. Eu só quero que a Helena continue vendo. As cores do desenho que ela gosta, as letras do caderno e o rosto do irmão que está ali todo dia tentando acertar. Se alguém quiser conhecer o que eu faço, eu agradeço de coração. Porque cada chaveiro que sai daqui carrega a mesma coisa que eu tento dar para ela todos os dias: cuidado, esforço e a vontade de não desistir.”

Checagem

Para entender a veracidade desse caso, vamos responder às seguintes questões: 1) O jovem realmente vende chaveiros artesanais para criar a irmã em um site anunciado em redes sociais? 2) O que acontece se você comprar os chaveiros atribuídos a ele? 3) Há golpes similares a este circulando na internet?

Jovem vende chaveiros artesanais para poder criar a irmã em site anunciado em redes sociais?

Não. Embora a narrativa seja construída para tocar o coração de quem lê, a história não passa de uma peça de ficção utilizada para atrair vítimas. Ao analisarmos o conteúdo, percebemos que o roteiro do vídeo e as imagens que acompanham o anúncio possuem características típicas de criações por Inteligência Artificial (IA). As ferramentas de IA generativa conseguem criar rostos expressivos e cenários domésticos que parecem reais à primeira vista, mas que não possuem lastro no mundo físico. Não há registro de nenhum jovem com esse nome ou história específica em órgãos de assistência social ou em reportagens de veículos de imprensa confiáveis.

O que acontece se você comprar os chaveiros artesanais atribuídos ao jovem que precisaria criar a irmã?

O resultado é o prejuízo financeiro. O site indicado nos anúncios não pertence a um artesão em dificuldades, mas sim a uma rede de golpistas. Quando o internauta efetua o pagamento — geralmente via Pix ou cartão de crédito —, o dinheiro é transferido diretamente para contas de “laranjas” ou empresas de fachada. O produto, naturalmente, nunca é entregue. Além de perder o valor da compra, o usuário acaba fornecendo dados pessoais e financeiros em plataformas inseguras, o que pode gerar desdobramentos ainda mais graves, como clonagem de cartões ou uso de dados para outras fraudes.

Há golpes similares a este?

Sim, muitos. Essa estratégia de utilizar figuras vulneráveis, como idosos ou crianças órfãs, é recorrente no submundo do cibercrime. Recentemente, desmentimos casos quase idênticos, como o da avó que estaria vendendo colares para a neta e o das mantas e cobertores da Dona Tereza, cujas vendas seriam destinadas ao tratamento de saúde de uma suposta neta. O padrão é sempre o mesmo: um texto emocionante, um senso de urgência (doença ou fome) e um produto artesanal como “recompensa” pela solidariedade.

Conclusão

O relato sobre o jovem que fabrica chaveiros para cuidar da irmã Helena é uma fraude digital. Trata-se de uma narrativa fictícia ilustrada por inteligência artificial, criada exclusivamente para direcionar usuários a sites fraudulentos onde os produtos não existem e o dinheiro é roubado.

Fake news ❌

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail boatos.org@gmail.com e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)